Em tempos de qualidade total...


Denise Maurano Mello
Corpo Freudiano do Rio de Janeiro – Escola de Psicanálise
Universidade Federal de Juiz de Fora


Vivemos num tempo em que se abomina o impossível. Em tempos de excelência e qualidade total, dizer que algo é impossível é passar recibo de incompetência. As impossibilidades são no máximo admitidas como circunstanciais, ou seja, com o tempo serão superadas.

Para tudo inventam-se técnicas, formas de resolução simples, eficaz, imediata e barata. São resoluções de digestão tão rápida quanto o tempo de eficácia dos resultados que proporcionam. Mas, não se preocupem, porque, se o problema retornou, a profusão de mecanismos de resolução de fácil acesso, disponível no mercado, não tardará em colocar à disposição mais um arsenal de outras resoluções “definitivas”. “Assegura-se” resolver problemas de qualquer natureza. De enxaqueca à impotência sexual, passando por dificuldades no trabalho, timidez, inibições na aprendizagem, e por aí vai.

O imperialismo do sucesso é a palavra de ordem. Tal sucesso nos nossos tempos tem alvo preciso: a conjugação amor e sexualidade. Tal conjugação pretende indicar a aquisição de uma perfeita harmonia entre estes dois planos. A palavra aquisição é aqui utilizada propositalmente, ela nos remete à idéia de promessa de acesso a um bem, ou a algo que se pretende como tal. Por esta via, curiosamente, parece que a promessa de conjugação harmoniosa e plena entre amor e sexualidade é o que vigora no fundo do discurso econômico que preside nossos tempos. A idéia é de que a inflação do discurso econômico, que nos enche os ouvidos e que nos esvazia os bolsos com os apelos consumistas, se apoia na inflação que age numa outra economia, que não está no campo do artifício do valor da moeda, mas no campo da efetividade do valor dos afetos, onde vigoram o amor e a sexualidade. Afinal, para que se quer o dinheiro, ou o que quer que ele proporcione, senão para com isto adquirir amor, ou sustentar a ilusão desta aquisição?

Com tal aquisição se visa suprimir a falta que opera em nós, humanos. Humanidade que nos define como sujeitos da fala, da linguagem e nos coloca sempre nesta posição de suplicantes, demandantes, pedintes. Estamos sempre a pedir algo, a querer algo que, quem sabe, nos cure da chaga da incompletude. Isto nos coloca vulneráveis às ofertas que se nos apresentam. Na atualidade, parece que a oferta da moda, disponível no mercado, é essa cura pelo amor com direito a acesso assegurado ao pleno gozo, adquirível em módicas, ou exorbitantes, prestações financeiras. Estas podem inclusive tomar a forma de dízimos, e articular-se num plano mais vasto ao amor a Deus, o que parece fomentar a profusão de tantas seitas em nossos tempos. Nosso panorama cultural parece, portanto, delinear-se em torno do amor, da sexualidade e do dinheiro.

Mas, bem se sabe que isso não foi sempre assim na história da humanidade. Outros valores, em outras épocas, foram colocados como sustentáculos da cultura. Indico aqui, apenas brevemente, que essa busca de um valor que nos salve da incompletude, que proporcione um sentido ao enigma da existência, acompanha a história da humanidade ou o que dela podemos apreender na história do pensamento.

A história da filosofia costuma dividir o percurso da produção do pensamento em quatro tempos: pensamento antigo, pensamento medieval ou cristão, pensamento moderno e pensamento contemporâneo. Nos primeiros tempos, o homem buscava suas respostas nos mitos, mas a filosofia só se inaugura com o esforço do homem de produzir explicações vinculadas à razão, a argumentos racionais. Neste mesmo movimento se inauguram as cidades, a idéia de polis, donde decorre o termo política. Com esta inauguração, se constituem leis, que pretendem regular a convivência social. Nesse período, o valor do homem, seu sentido, está apoiado na honra de ser cidadão. A lei é investida como via de salvação, e marca a constituição da cultura civilizada. A adesão à lei é promovida como fator de asseguramento, frente à incompletude humana.

Depois vêm outros tempos e surgem outros valores. A era cristã, período medieval que vai do séc. I ao séc XV, coloca em cena os valores da fé. Deus, o Pai, é a salvação e toda a produção do pensamento é atrelada à esta verdade.

Mais adiante, com a inauguração da idade moderna, há um deslocamento no apelo do homem à fé e surge, como valor supremo, a racionalidade. Há uma certa retomada da aposta nas elocubrações da razão, que frutificaram na idade antiga, mas com uma apuração mais rigorosa no pensamento produzido. Daí surge a exigência de método para que a subjetividade não interfira no pensamento, no resultado concluído. A ciência é filha desta pretenção, a pretenção de eliminação da interferência do sujeto, na relação com uma descoberta, que se pretende neutra, o que em contrapartida coloca em cena e inaugura a valorização do conceito de subjetividade, na medida em que se está preocupado em eliminá-la. Racionalidade e subjetividade são, portanto, os valores de referência para o homem moderno. Outro reverso disso é que será esse mesmo homem moderno que passará a tematizar a loucura.

O homem contemporâneo, entretanto, não se deslumbra mais tanto com a racionalidade. Ele já não aposta que vai resolver muita coisa de sua vida com ela. Mesmo a crença na ciência já não tem o mesmo vigor. O valor de salvação, como já mencionei acima, parece ser investido na conjugação amor e sexualidade, onde vigora a dimensão econômica do psiquismo. Neste plano, a falta de fixidez dos objetos em que se pode investir, já que a sexualidade humana não está atrelada a objetos precisos indicados pelo instinto, permite uma mobilidade vasta. Nesta mobilidade de investimento em objetos, o investimento no objeto moeda marca seu valor de substituto, acenando com a possibilidade da curar o sujeito do que lhe falta.

A psicanálise vai trabalhar com a questão da relação sujeito/objeto. Vai colocar em prova esta relação e, embora ela seja fruto deste anseio contemporâneo da cura pelo amor, fazendo com que este seja um dos operadores do processo, através do recurso da transferência, ela empreende este trajeto para revelar a dimensão de ilusão que aí vigora. Não vai aqui nenhuma conotação negativa à ilusão, até porque a esta ilusão não se opõe nenhuma verdade absoluta. Pelo contrário, através desta ilusão se conjuga todo enigma.

Se, por um lado, no trajeto analítico o sujeito, desmascarando disfarces, garimpa algumas respostas sobre si mesmo, e isto porta sempre uma dimensão de sedução, dado que o sentido nos seduz, por outro lado, a direção da psicanálise aponta para um mais além disso. Mais além do sentido do qual se nutre a consciência e no qual sempre se aliena o sujeito. A psicanálise opera pois na dimensão que se dirige à celebração do enigma, celebração do enigma de existir, sem o apelo a que algum objeto, algum sentido totalizante, nos garanta, nos assegure a nossa existência. Este certamente não é o caminho mais fácil, mas é um dos poucos possíveis àqueles que já perderam a ingenuidade, e ainda assim continuam apostando na vida.

Denise Maurano Mello
Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro – Escola de Psicanálise, D.E.A em Filosofia Antiga pela Universidade de Paris XII, Doutora em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Alfenas.
Autora de Nau do Desejo (Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999, 2a.ed). Co-autora de Agenda de psicanálise (Rio de Janeiro: Relume Dumará) e de Circulação psicanalítica, (Rio de Janeiro: Imago, 1992)


* Este texto foi publicado em Documentos, n.13, ano VI, maio de 2000.

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