Das ding
e o objeto a
(Sublimação: 2a. parte)
Nadiá Paulo
Ferreira
Corpo Freudiano do Rio de Janeiro – Escola de Psicanálise
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
A sublimação,
como vimos em nossa última aula, se
caracteriza por uma satisfação
não sexual, em função
de um desvio do alvo no percurso da pulsão.
Lacan chama atenção de que
não se trata de inibição
do alvo e, justamente por isto, este desvio
se realiza sem recalque.
Como compreender isto?
Se Freud nos ensinou que não há recalque sem retorno do recalcado,
cabe indagar de que recalque se trata. Não são os recalques secundários,
até porque estes já são efeitos de um recalque primário. É a
entrada do significante que promove a ação do primeiro recalque
(recalque original). Em um corpo vivo, que acabou de chegar ao mundo, se supõe
uma substância gozante, que Lacan nomeia de libido. Alguma coisa desta
libido será arrancada para que o significante se instale. Assim, onde
nada havia, passa existir alguma coisa. O primeiro recalque incide justamente
sobre este nada, que comparece no simbólico como falta de Um significante
(modo de comparecimento do real no simbólico) e no imaginário
como furo real (ausência de instinto, isto é, ausência de
um saber da espécie).
Aqui, poderíamos indicar a diferença entre idealização
e sublimação. Na idealização, o objeto com valor
de bem — i(a) — é superestimado para que seja recalcada
a estrutura de falta do objeto da pulsão.
Na sublimação não ocorre o recalque desta estrutura de
falta do objeto, na medida em que o objeto inventado indica um vazio a ser
contornado. É neste sentido que se fala de sublimação
no amor cortês. A Dama, enquanto objeto impossível, é elevada
a categoria de sublime para ser nomeada com valor de Coisa (Das Ding).
Só pela via do significante é que se pode nomear não o
que falta, mas a existência da falta. Se através da palavra aponta-se
para uma falta sem poder significá-la, entre a nomeação
e a aparição do objeto instaura-se uma hiância. A Coisa
como significante é efeito da existência da linguagem e a Coisa
como objeto pertence ao registro do real, estando, portanto, para além
da linguagem. O que está para além da linguagem só pode
ser nomeado através dela como impossível. Neste sentido, a sublimação
não tem outra função senão permitir ao homem se
referir à Coisa, isto é, colocá-lo entre o real e o significante.
E o que permanece no centro deste intervalo é um vazio.
O objeto amado no amor cortês, ao contrário do que ocorre no romantismo,
não é abordado para o casamento, mas para situar o desejo ao
nível da visada da Coisa. Esta Coisa, por sua estrutura, só pode
ser representada por Outra Coisa. A Outra Coisa é a Coisa. A Coisa não
se procura, encontra-se. O personagem de Angela Carter,1 no romance A
Paixão da Nova Eva, achou Tristessa:
(...) linda como podem ser apenas as coisas que não existem: o mais
obsedante dos paradoxos, receita de eterna insatisfação.2
Mas é claro que essa busca só pode ser feita pela via do significante,
quando o homem se torna um verdadeiro artesão. Neste sentido, a Coisa é a
Dama que os poetas encontraram para trovar.
Como morreu
quen nunca ben
ouve da ren3 que mais amou,
e quen viu quanto reçeou
d'ela e foi morto por en,4
Ay, mha senhor, assi moyr'eu!
Como morreu
quen foy amar
quen lhe nunca quis ben fazer
e de que lhe fez Deus ueer
[Cousa] de que foy morto cõ pesar,
Ay, mha senhor, assi moyr’eu!
Com’ome
que ensandeçeu,5
senhor, cõ gran pesar que uiu
e nõ foy ledo,6 nen dormiu
depois, mha senhor, e moyr’eu!
Ay, mha senhor, assi moyr’eu!
Como
morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben
a quen a uiu leuar a quen
a nõ ualia 7, nen a ual,
Ay, mha senhor, assy moyr’eu! 8
Pero muito
amo, muito non des[ejo]
aver da que amo e quero gram bem,
porque eu conheço muyto ben e vejo
que de aver muito a min non m’en ven
tam grande folgança 9 que mayor non seja
o seu dano d’ela; quen tal bem deseja
o bem de ssa dama em muy pouco ten.
Mais o
que non he e seer poderia,
sse fosse assy que a ela vesse
bem do meu bem, eu [muito] desejaria
aver o mayor [ben] que aver podesse,
ca pois a nós ambos hi viinha proveito;
tal ben desejando, ffarya dereyto
e sandeu seria quem o nom fezesse.
E quem
d’outra guisa 10 tall 11 bem
[desejar]
non he namorado, ma[i]s é [un] desfrom(?),12
que sempre trabalha por cedo cobrar
da que non servio o mayor galardom;13
e de tal amor amo [eu] mays de cento
e non amo h~ua de que me contento
de seer servidor de boom coraçon.
Pois [d’ela]
m’eu cham’e sõo servidor,
gram treiçom seria, se mia senhor
por meu ben ouvesse mal ou senrazon
E quantos
bem aman assy o diram. (D. Dinis)14
Senhor,
eu vyvo coytada
vida, des quando vos nos vi,
mays, poys vós queredes assy,
por Deus, senhor ben talhada,
querede-vos de min doer
ou ar leixaide-m’ir morrer.
Vos sodes
tan poderosa
de min que meu mal e meu ben
en vós é todo, [e] por en,
por Deus, mha senhor fremosa,
querede-vos de min doer
ou ar leixade-m’ir morrer.
Eu vyvo
por vós tal vida
que nunca estes olhos meus
dormen, mha senhor, e por Deus,
que vos fez de ben comprida,
querede-vos de min doer
ou ar leixade-m’15 ir morrer.
Ca, senhor,
todo m’e prazer
quant’i vós quiserdes fazer (D. Dinis).16
No amor cortês,
a Dama se apresenta duplamente interditada
pelas leis de cortesia (mesura): primeiro,
aceita o lugar de objeto amado com a condição
de não amar; segundo, com valor de
Bem Supremo recusado seu corpo permanece
proibido. É nesta condição
que deve ser idolatrada, exigindo do amante
servidão e fidelidade.
É no interior desta dupla interdição que o sexual se converte,
através da sublimação, numa arte erótica, onde o
impossível de um amor tem como função velar o impossível
da relação sexual. Diz Lacan: “O amor cortês é uma
maneira inteiramente refinada de suprir a ausência de relação
sexual, fingindo que somos nós que lhe pomos obstáculo. É verdadeiramente
a coisa mais formidável que jamais se inventou”17.
O amor cortês inviabiliza de saída o acesso ao objeto (privação)
para depois lhe outorgar um valor sublime. O agalma do objeto se transforma
em aura para que ele possa como metáfora vir no lugar do objeto que
não há. O não-haver do objeto é substituído
pela impossibilidade de tê-lo (frustração).
A Dama não ocupa a função de objeto causa do desejo, aquele
que Lacan representa pela letra a minúscula. A Dama se apresenta como
metáfora da Coisa e, justamente por isto, é objeto de um amor
impossível. A partir deste lugar, a Dama, com valor de Bem Supremo,
se torna signo do Outro (A) e, como tal, um enigma sem decifração.
A Dama não é a representação imagética das
mulheres e sim a representante d’(A) Mulher. Aquela
que, como significante do Outro-Sexo, não há. A indiferença
da Dama ao sofrimento (coita = morrer-de-amor) do trovador explicita o que
está em jogo em todo amor: o amado, verdadeiramente, não tem
nada para oferecer ao amante, porque é também constituído
por uma falta-a-ser.
O amor cortês engendra uma construção ideal sobre o amor
e o inscreve no regime da estrutura de falta do objeto, assinalando uma transformação
histórica de eros. Não se pode negar que esta concepção
de amor inaugurou uma tradição em que falar de amor significa
falar do sofrimento de quem ama. O sofrimento é a via pela qual o amor
se tornou um dos temas mais reincidentes da literatura ocidental. Na passagem
do amor cortês para o amor como sentimento da paixão, produz-se
uma torção, a partir do momento em que o morrer-de-amor (coita)
deixa de ser metáfora da impossibilidade do próprio amor para
se transformar em símbolo da impotência do homem em relação
as forças “invencíveis” do mundo. A idealização
objetal (amor-paixão) substituiu a sublimação, assim como
a privação e a frustração foram substituídas
pela denegação da castração.
Vamos reencontrar, também, na lírica barroca o amor com função
de sublimação. O estilo barroco se caracteriza por apresentar
corpos inteiramente entregues ao gozo, corpos gloriosos e martirizados a serviço
da escopia, corpos exuberantes, que expressam “tudo que desaba, tudo
que é delícia, tudo que delira”.18 Estamos diante
de representações que são testemunhos “de um sofrimento
mais ou menos puro”.19
Na poesia barroca portuguesa, “tudo o que é delícia” é vivido
na decantação de um objeto amado, que, como Bem Supremo, é considerado
para sempre perdido. Sem esperança, só restam as saudades (Violante
do Céu) ou as lembranças de uma imagem petrificada (Jerônimo
Baía).
Em Jerônimo Baía 20, nos madrigais, “A Uma Crueldade
Formosa” e “A uma Formosura Cruel”, o objeto amado é apresentado,
tal qual a Dama das cantigas de amor, pelo traço da mais cruel indiferença:
Seja fria
no amar, cruel no rôgo,
Fria, se é toda jaspe, e toda neve,
Cruel, se é toda sangue, e toda fogo.21
Mas, ao contrário
do amor cortês, o amante, em vez de
se colocar a serviço da Dama, serve-se
do objeto amado para se mortificar. A coisa
amada se reduz a beleza de um corpo captado
pelo olhar. Este corpo, reduzido a restos,
cuja função é se tornar
configuração do objeto a, sob
a forma de mais-gozar, é um retrato
para ser contemplado. Mas um retrato rasgado.
O corpo fragmentado da mulher amada é descrito
por metáforas que registram o deslumbramento
do sujeito, capturado por um olhar. Todos
os significantes escolhidos (ouro, prata,
safira, rubi, pérola, jaspe, mármore,
metais, pedras) para a descrição
deste corpo em pedaços lhe retiram
a vida. Assim, reitera-se o caráter
desumano deste corpo, a fim de que se interponha
uma barreira intransponível entre
amante e amada. Aqui, o que se ama é a
beleza de um objeto (“a minha bela”),
que faz com o sujeito desfrute as delícias
solitárias de um olhar que não é correspondido.
A minha
bela ingrata
Cabelo de ouro tem, frente de prata
De bronze o coração, de aço o peito,
São os olhos luzentes,
Por quem choro, e suspiro
Desfeito em cinzas, em lágrimas desfeito,
Celestial safiro:
Os beiços são rubins, perlas os dentes,
A lustrosa garganta
De mármore polido,
A mão de jaspe, de alabastro a planta,
Que muito pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas
Para igualar desdéns a formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras.22
O objeto amado,
decomposto em pedaços que se coagulam, é representado
metonimicamente para se converter em símbolo
de uma ausência, o que faz com que
se torne signo de um Bem perdido. Da contemplação
ao sofrimento se interpõe um gozo,
vivido imaginariamente como a morte do próprio
sujeito, que se inscreve em um para além
do falo.
Em Violante do Céu, a metáfora de uma alma vazia, isto é,
de um ser destituído de significantes, porque perdeu o seu bem amado,
sustenta uma fala que demanda a morte, não para morrer mas, para inserir
a morte na própria vida. Aqui a versão do objeto amado como objeto
perdido se repete.
O que acontece na poesia barroca senão dirigir o amor a um objeto que
só pode ser amado porque não existe? Eis a invenção
de um objeto pela via do significante que transforma o amor em usufruto de
gozo, que se sustenta no aniquilamento do ser de quem ama. Um corpo sofrido
com a alma deserta, um corpo desprovido de ser, um corpo como metáfora
do nada, que se torna a fonte de um mais-gozar pela via do sofrimento.
Se apartada
do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?
Não
quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo em Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.
Ah! suspirado
ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me a vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?
Mas se
na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.23
No barroco,
os milagres do amor operam pela via do discurso
um encontro imaginário entre corpo
e gozo a partir do que se supõe que
seja a morte e a alma. Lacan, em 1972-73,
no Seminário 20, Mais, Ainda,
afirma que “o homem pensa com sua alma”.
Alma, aqui, deve ser compreendida como “os
instrumentos, os mecanismos supostos que
suportam seu corpo”.24 Estes
instrumentos não podem ser outros
senão os significantes e suas articulações. É porque
há linguagem que os poetas barrocos
podem não só falar de um gozo
que excluiria o significante — um gozo
para além do falo — mas também
supor um mais-gozar. Se uma das vias para
a experiência do gozo fálico é a
cópula, isto não significa
que ele tenha alguma coisa a ver com a relação
sexual. A relação sexual é impossível,
porque o real não cessa de se inscrever
na ordem simbólica. E como ele se
inscreve? No Outro como lugar da fala e da
verdade não-toda, sob a forma de falta
do significante do Outro-sexo. No corpo do
outro como signo do gozo do corpo do Outro-sexo,
sob a forma do que falta-a-gozar.
O amor para o poeta barroco se constrói a partir de uma impossibilidade
estrutural. A privação do objeto é o que sustenta a versão
sobre o amor tanto no amor cortês quanto na poesia barroca. A diferença
entre eles é o modo pelo qual se produz a privação. No
amor cortês, para se ingressar na escola poética do amor é preciso,
de início, a renúncia ao objeto amado. Na poesia barroca, não
se trata de renúncia, porque o objeto amado, como Bem Supremo, já é dado
como perdido para sempre. O dilaceramento do sujeito aponta para alguma coisa
que lhe pertencia e que lhe foi arrancada, no momento em que o objeto amado
foi perdido. Isto é uma posição melancólica com
valor mortal. Só que, é sempre bom lembrar, é uma melancolia
artificialmente construída, até porque, se os amantes se entregassem à melancolia,
morreriam e não teriam deixado como legado os seus poemas.
Diferente do amor cortês, no barroco, não se ama o próprio
amor, mas um objeto que, como ausência, substitui o amado. O vazio deixado
na alma-amante pela perda do objeto amado faz com que a morte seja invocada
como fim último de um êxtase, extraído de uma experiência
gozante com o nada. Ou seja, desejar a morte, não para simplesmente
morrer, mas para que um gozo venha contracenar com a morte. Em ambos, é um
Outro gozo, sob a forma de sofrimento, que irá sustentar o amor para
que ele (amor) possa vir em suplência ao impossível da relação
sexual. Tanto no amor cortês quanto na poesia barroca trata-se do imaginário
tomado como meio do amor.
Eis a literatura apresentando as modalizações do gozo do Outro
sob a forma de um amor que tem como função a sublimação:
o amor à Dama, no amor cortês e o amor ao objeto perdido nas poesias
barrocas.
A invocação de um gozo para além do falo pela via da poesia
não significa que estamos diante de uma estrutura psicótica.
Esta invocação agencia uma escrita que gira em torno de um vazio.
E isto é sublimação. Não há recalque porque
o que de real foi recalcado pela entrada do significante reaparece sob a forma
de metáfora como puro vazio. Uma outra satisfação é obtida,
na medida em que se inventa um objeto, que se revela como simulacro e, como
tal, só pode ser abordado como impossível. Justamente por isto,
apesar do amor cortês ser distinto do amor no barroco, não há neles
a esperança de se alcançar qualquer Bem. Muito pelo contrário,
o que se extrai pela via do sofrimento é um gozo, que se produz justamente
no limiar de um furo. Sob o império da Lei, e isto só é possível
se estiver operando a função do Nome-do-Pai, inventam-se amores
escritos com função de sublimação.
Nas cantigas de amor se criou um amor que colocou em cena A Mulher, cujo representante é a
Dama. Na poesia barroca temos uma fala que imagina o gozo do Outro a partir
de um vazio, em torno do qual são construídas as metáforas
que enaltecem um objeto de amor perdido.
Tanto o amor cortês quanto o amor na poesia barroca são artefatos,
ou seja, são tessituras do significante que visam à sublimação.
Além disto, tanto um quanto outro apresentam o objeto como inacessível.
No amor cortês, esta inacessibilidade é a condição
em torno da qual o amor se constrói. Na poesia barroca, esta inacessibilidade
se apresenta na medida em que o objeto está definitivamente perdido.
Indiferente, refratário, cruel e desumano são os invólucros
do objeto, nessas duas versões sobre o amor, o que faz com que possamos
encontrar um certo masoquismo por parte do amante e alguns traços perversos
no objeto. Não estou afirmando que o amante é masoquista e muito
menos que o amado se inscreve numa estrutura perversa. Estou dizendo que encontramos
neles traços pertinentes ao masoquismo e à estrutura perversa.
O que é coisa muito diferente.
O eixo do amor cortês é o próprio amor. O eixo do amor
no barroco é o objeto sob a forma de inexoravelmente perdido. A Dama
representa, metonimicamente, o amor como dom que não se tem. O trovador
oferece seu amor em troca de nada. É nesse sentido que Lacan afirma
que no amor cortês o que se ama, verdadeiramente, é o próprio
amor. No barroco, temos a queda do falo com valor de privação,
na medida em que o objeto amado simboliza o que o sujeito nunca teve. A única
via pela qual o ser falante pode dar testemunho do que ele nunca teve é a
da sua anulação enquanto sujeito. Como isto é impossível,
inventa-se uma poesia que gira em torno de uma experiência de morte imaginada,
onde o sujeito demanda o aniquilamento de todos os significantes para que o
seu ser possa se transformar em índice do nada.
Produzir uma versão sobre o amor a partir do que se imagina que seja
a relação entre gozo e morte é o que caracteriza tomar
o imaginário como meio do amor (Seminário XXI - Les Non-dupes
errent, 1973-1974 25). Trata-se de um de amor que
se constrói em torno de um vazio e que coloca em cena a impossibilidade
da relação sexual.
Temos, então, uma estrutura em que o amor aparece em suplência
ao impossível da relação sexual, colocando em cena a função
de sublimação. Renúncia, abstinência e perda irreparável
do objeto são as versões variantes de uma mesma estrutura. Diante
da inviabilidade de acesso ao objeto por diferentes caminhos, se eterniza a
falta com a qual se goza.
Notas:
1 Angela
Carter “pode ser considerada uma das
vozes mais originais da literatura inglesa
contemporânea. Nascida em Eastbourne,
em 1940, (...) freqüentou a Univeridade
de Bristol, onde se especializou em literatura
inglesa do período medieval. Depois
de formada, Carter morou e trabalhou na Inglaterra,
nos Estados Unidos e no Japão.” (GUEDES,
1999, p. 241). De 1966 a 1992, sua produção
abrange romances, contos, poesia, peças
de teatro e livros para criança. Em
1992, morreu de câncer no pulmão.
2 CARTER, 1987, p. 6.
3 Ren - coisa.
4 Por en - por isto.
5 Ensandecer - enlouquecer (com o sentido de enlouquecer
por amor).
6 Ledo - contente.
7 Valer - ter valor, merecer.
8 Fragmento da Cantiga de Amor de Refrão
de Pai Soarez de Taveirós. In NUNES, 1970, p. 152.
9 Folgança - repouso, descanso.
10 Guisa - modo, maneira, forma.
11 Tal -adj., semelhante.
12 Desfrom - desavergonhado.
13 Galardom - recompensa.
14 Cantiga de Amor de Mestria de D. Dinis In NUNES,
1972, p. 204 - 205 - 206. D. Dinis (1279-1325), o rei Lavrador, é considerado
por quase todos os medievalistas um dos melhores trovadores
galego-portugueses. Segundo José Joaquim Nunes há desse
rei 138 cantigas.
15 Leixar - deixar.
16 Cantiga de Amor de Refrão de D. Dinis.
In NUNES, 1972, p. 202-203.
17 LACAN, 1982, p. 94.
18 LACAN, 1982, p. 158.
19 LACAN, 1982, p. 158.
20 Jerónimo Baía (1620-1688) entrou
para o mosteiro de S. Martinho de Tibães, da ordem beneditina,
em 1643. Afonso VI, em função de sua fama de
orador sacro, nomeia-o, em 1657, predicador real.
21 Fragmento de uma madrigal de Jerónimo
Baía. In SPINA, 1967, p. 218.
22 Madrigal de Jerônimo Baía. In SPINA,
1967, p. 217.
23 Soneto de Violante do Céu. In CORREIA,
1982, p. 73-74.
24 LACAN, 1982, p. 150-151.
25 “Edição pirata”.
Referências Bibliográficas:
CARTER, Angela. A
paixão da nova Eva. Rio de
Janeiro: Rocco, 1987.
CORREIA, Natália. Antologia da poesia do período barroco.
Lisboa: Moraes, 1982.
GUEDES, Peônia. “Elementos parodísticos, grotescos e carnavalescos
em Nights at the Circus, de Angela Carter”. In: Literatura
e identidades. Org. José Luis Jobim. Rio de Janeiro: UERJ, 1999.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1982.
NUNES, José Joaquim. Cantigas d’amor dos trovadores galego-portugueses.
Lisboa: Centro do Livro Brasileiro, 1972.
SPINA, Segismundo & SANTILLI, Maria Aparecida. Apresentação
da poesia barroca. São Paulo: Faculdade de Filosofia Ciências
e Letras de Assis, 1967.
Nadiá Paulo Ferreira
Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro — Escola de
Psicanálise, Professora Titular de Literatura Portuguesa (UERJ).
Co-autora de Paixão e revolução (Rio de Janeiro:
EdUERJ, 1996), de O que é um Pai? (Rio de Janeiro: EdUERJ,
1997), de Ainda o amor (Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999) e Freud,
criador da psicanálise (Jorge Zahar, 2002).
* Este texto foi publicado em Documentos, n.13, ano VI, maio de 2000.