Torções
do feminino e função analítica
Denise Maurano
Resumo:
Este trabalho
contém algumas idéias publicadas
em meu livro La face cachée de
l’amour, editado recentemente
pela Presses Universitaires de Septentrion,
França. Nele, abordo a função
do amor no processo psicanalítico
como apego a um sentido que encontra na interpretação
analítica um corte, remetimento à operação
de uma “Outra Cena” que é a
do Inconsciente. Nessa ruptura localiza-se
a dimensão trágica da psicanálise
que indica a especificidade de sua ética,
que diferentemente de trabalhar com perspectivas
ideais e obturantes, dirige-se a confrontação
com o limite do Real. Exploro a afinidade
desta ética com a que vigora na estética
barroca que é caracterizada como feminina,
em relação à virilidade
da obra clássica. E relaciono a ampla
penetração da psicanálise
no Brasil com a vocação barroca
brasileira.
Palavras
chaves: feminino, transferência,
psicanálise, barroco
No seminário de Lacan sobre a transferência, lê-se que o
amor tem relação com os deuses, e se os deuses estão no
Real, então o amor tem relação como o Real. É verdade
que há uma tendência para tratar o amor de maneira imaginária,
onde o objeto eleito serve para mascarar a hiãncia entre o sujeito e
o objeto, mas não é isso que é preciso encaminhar na experiência
analítica. A transferência deve servir para interrogar o objeto
por ela investida para saber qual é o agalma, a preciosidade
escondida que guarda em seu ventre, e que funciona para o sujeito como elemento
de atração para o desejo. É preciso demarcar esse objeto,
esse agalma para saber sobre o desejo. Entretanto, se o desejo caracteriza-se
pela relação à falta, não é o objeto em
si mesmo que é o mais importante para a sua dinâmica, mas a perda,
ou melhor dizendo, os traços que essa perda deixa e que fazem o contorno
do que é buscado pelo desejo. Por essa via, pode-se pensar que a relação
ao desejo implica um certo fracasso da apologia do objeto.
A transferência, esse laço afetivo ao analista, testemunha o que,
na organização subjetiva do paciente, é comandado por
esse objeto chamado pequeno a. Por conseqüência, “a
carga, o fardo do herói analista” é “de
ter que interiorizar esse a, retê-lo em si, bom ou mau
objeto, mas como objeto interno, e que é daí que surgiria toda
a criatividade por onde deve restaurar, do sujeito, o acesso ao mundo.” Dessa
incorporação de a, o analista é paciente.
O “a de que se trata é, a saber, o objeto,
absolutamente estrangeiro ao sujeito que nos fala, na medida em que ele é a
causa de sua falta.” 1 Esse objeto estranho é o
que se encontra no centro do que é designado como subjetividade.
No início do trabalho, o analista é colocado como suporte da
transferência, como o sujeito-suposto-saber, ou seja, o paciente
lhe supõe um saber sobre o que procura em si mesmo. Ao analista é creditada
a posição de grande Outro, aquele que goza do saber e que é o
assegurador da ordem das coisas. Mas como não há sujeito nesse
grande Outro, ao termo da experiência analítica, o analista reduz-se
a ser o guardião do lugar do objeto pequeno a, um objeto que tem por
destino ser rejeitado. Para que isso aconteça, é preciso que
o analista exponha-se a uma tal destituição. É essa dimensão
de corte e de separação presentes na interpretação
analítica, que caracteriza o essencial do que é nomeado ato psicanalítico.
Ainda sobre a questão do objeto a, no seminário
sobre O ato psicanalítico, Lacan faz uma relação
entre este e o ato trágico. Primeiramente, salienta a necessidade de
os analistas se darem conta de que o Édipo é uma tragédia,
constatação esta que lhes permite enxergar o limite de sua operação.
Ele diz que « tudo isso que é da ordem do sujeito está no
nível de algo que tem esse caráter dividido que há entre
o espectador e o coro ». 2 E na lição seguinte
acrescenta,
« não
confundimos a ficção trágica — quero
dizer que o mito de Édipo, de Antígona,
por exemplo —, com o que é verdadeiramente
uma aceitação, a ‘única
válida, fundada, da tragédia, à saber
a representação da coisa.
Na representação estamos
evidentemente mais perto dessa esquize
tal como ela é suportada na tarefa
psicanalisante. Ao termo da psicanálise,
pode-se, realizada a divisão do
sujeito psicanalisante, suportá-la
da divisão que estava no ar, onde
se podia desempenhar a representação
trágica na sua forma mais pura,
nós podemos identificá-lo,
esse psicanalisante, ao casal dividido
e relativo do espectador e do coro » 3
Entendo as
considerações acima como um
alerta de que é preciso não
se restringir ao mito, à referência à Édipo.
O mito tem sempre relação com
o âmbito do sentido; é a tentativa
de capturar o que está no Real incompreensível.
A psicanálise não visa fixar
o homem nesse âmbito, mas sim conduzi-lo
num percurso de travessia do sentido. É preciso
esgarçar o sentido onde se aloja a “espaçosa” subjetividade.
Isso significa atravessar o fantasma que
tenta fazer a conjugação do
sujeito ao objeto. É preciso ir além
do mito para tocar aquilo de que se trata
na psicanálise. Ela não é absolutamente
uma hermenêutica. É nessa medida
que a dimensão do ato que compõe
a representação trágica,
exibe o sujeito enquanto fruto de uma divisão,
divisão que se aloja no seio do campo
do sentido.
No seminário A lógica do fantasma, é acrescentado
que no ato o sujeito está representado como divisão pura. Não
se trata do ato como manifestação de movimento, ato motor, mas
de um ato onde o sujeito é, pode-se dizer, equivalente a seu significante,
e mesmo assim “nem por isso ele fica menos dividido”. 4 A
vitória do ato falho reside no fato de o desejo inconsciente atravessar
as intenções do ‘indivíduo’, evidenciando
a dimensão do ato que interessa à psicanálise. É nesse
sentido que a psicanálise é a colocação em ato
do inconsciente. Encontramos no seminário De um discurso que não
será do semblante, a propósito do discurso do analista,
a seguinte afirmação “o discurso do analista não é mais
que a lógica da ação”. 5
É verdade que no discurso do analista, nesse modo muito particular de
laço social, trata-se da lógica da ação na operação
analítica, na qual destacaria o papel fundamental da ação
do corte. Tem-se aí dois termos essenciais dessa operação:
o laço da transferência, no qual vigora o apelo ao sentido, e o
corte introduzido pela interpretação analítica, que em último
termo, aponta o não-senso. Por essa via, o tratamento permite a localização
da função do Nome-do-Pai nesse ponto onde essa função,
responsável, como já vimos, pela regulação do sujeito
a seu desejo, não teve possibilidade de se realizar. Mas a cura visa também
um mais além disso.
É a partir do Outro que o sujeito fala e deseja. Esse Outro, alteridade
radical, que não é a mãe, o pai, ou qualquer semelhante,
qualquer partner imaginário; marca o lugar da linguagem, que
permite ao sujeito humano situar-se diante do sexo e das gerações.
Isto situa a via de introdução do registro simbólico no
psiquismo e por conseqüência, da castração. O Nome-do-Pai é justamente
esse significante que no Outro, na alteridade, é o significante do Outro
enquanto lugar da lei, do limite onde o sujeito encontra sua delimitação,
sua nomeação. Finalmente, cabe ressaltar que a questão do
sujeito diante do Outro não se resume a esse Outro como lugar da lei.
Na perspectiva mais radical o Outro remete ao que está além de
toda regulação possível. A libido organiza-se, regula-se
tomando o phallus como símbolo. No entanto, por ora o que quero
ressaltar aqui é a dimensão do Outro que ultrapassa a referência
fálica. A inscrição fálica articula o gozo às
leis do significante, leis da linguagem, mas a noção de gozo
Outro proposta por Lacan, aponta um gozo fora da linguagem, fora do sexo, fora
da possibilidade de ser apreendido por representações. Entretanto, é na
medida em que estamos todos dentro da referência fálica, referência
de linguagem, que também a partir dela que podemos sentir os efeitos
de um mais além. É essa sinalização de um mais
além do fálico que permite a Lacan sublinhar, em relação
aos humanos, não propriamente a difundida dualidade dos sexos, mas uma
outra dualidade, frente a qual o sujeito é dividido — a dualidade
de gozos: gozo fálico e um gozo Outro, sempre visado.
Diante da limitação do gozo sexual, gozo fálico, dependente
do órgão, esse gozo Outro coloca-se como visado, da mesma maneira
que se imagina sempre a galinha do vizinho como a mais saborosa, mais ainda...,
como sugere o título do seminário. É nessa perspectiva
que o sexo feminino é qualificado como Outro em relação
ao phallus, tanto para os homens quanto para as mulheres, porque enquanto
sujeitos falantes, as mulheres estão também no registro fálico,
e assim, não estão inteiramente no domínio do feminino.
Esse gozo Outro, designado também como gozo feminino, não tem
relação com a castração e conseqüentemente
nem com a função do Nome-do-Pai. Não é o caso,
nesse momento, de depreender todas as implicações dessa noção
de gozo Outro. Deixarei esse trabalho para uma próxima oportunidade.
O que está me interessando agora é a indicação
de um paradoxo na cura analítica. Porque se o que é visado no
trabalho analítico é o acionamento da função do
Nome-do-Pai naquilo em que esta mostrou-se deficitária para a regulação
simbólica, a cura mesma pretende entretanto, levar o sujeito a poder
dela se passar, ou melhor ainda, a poder ultrapassá-la, isto é,
tocar esse registro que está para além do domínio do phallus.
Isso implica um certo encaminhamento em direção ao Real, em direção
ao furo no saber, em direção à perda da esperança
de suturar a falha no saber, o que se articula a essa suposição
de um gozo Outro que aquele do domínio da representação. É a
indicação de Freud da inexistência de representação
do sexo feminino no inconsciente que permitiu a Lacan qualificá-lo como
Outro em relação ao phallus, e a tudo o que se organiza
em torno deste .
Assim esse Outro, A/ mulher, “só se pode escrever
barrando esse A, esse artigo definido para designar o universal”. 6 Não
há universalidade possível quando se trata de mulher. Ela situa-se
no lugar do enigma absoluto, lugar de um buraco radical, o que assinala um
mais-além da castração, porque não está em
relação ao phallus. Tanto para os homens, quanto para
as mulheres, na dimensão empírica dessas, A/ mulher é o
ponto mais extremo de toda análise. Toda análise, na medida do
possível, conduz em direção a A/ mulher. Diria
que esse é o ponto limite do saber, do sentido, da representação,
que está em uma relação de vizinhança com o Nada,
ao qual chega o herói das tragédias, para ir até o fim
com seu desejo. Ir até o fim com seu desejo significa ultrapassar a
ancoragem do sentido, da delimitação, para tocar um Nada que
mostra bem seu valor efetivo. Não há mais aí nenhum véu
de Maya, véu de ilusões, para esconder a evanescência
do desejo, ponto radical da nossa destinação.
Entretanto, não é à toa que, a propósito da distinção
entre o herói e o homem comum, Lacan alerta que “em cada um
de nós há a via traçada para um herói, e é justamente
como homem comum que ele a efetiva”. 7 Assim, o Nada
ao qual se endereça uma análise, apesar de ser um Nada pleno
de positividade, porque é no final das contas, tudo o que nós
temos, não é algo de fácil acesso, mesmo porque implica
risco. Em uma certa dimensão, poder passar sem a função
do Nome-do-Pai implica um outro modo de relação com a lei, donde
também decorre uma outra posição frente a culpa. Lacan
lembra que “a única coisa da qual se pode ser culpado, ao
menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo”. 8 Ou
seja, ter se afastado, em nome de qualquer boa intenção, da articulação
própria que suporta o tema inconsciente e nos enraíza em uma
destinação particular. Mas se nesse campo onde se ancora a direção ética
da psicanálise, tem-se a vantagem de reencontrar alguma orientação
mais efetiva da ação, para nele se chegar é preciso que
se pague o preço do acesso ao desejo. O desejo, definido como metonímia
de nosso ser, não é apenas o que se modula pela cadeia significante,
mas é também o que corre debaixo, “que é, propriamente,
o que somos, e também o que não somos, nosso ser e nosso não-ser”. 9 Então é preciso
pagar o preço do não-ser, o preço da perda da ilusão
de encontrar uma consistência pela via da relação de objeto,
que não é senão o objeto a.
Penso que por essa via pode-se ver o caráter topológico dessa
abordagem do heterogêneo. Pode-se pensar não pelo antagonismo,
mas na perspectiva do paradoxo. O pensamento trágico é este tipo
de pensamento que acolhe a ausência do não no inconsciente. A
meu ver isso dimensiona a grandeza do passo de Lacan para fora do cartesianismo,
tanto em sua forma de ampliar a teoria e a clínica freudiana, como no
estilo de sua transmissão.
Para concluir, deixo uma observação. Se levarmos mais adiante
as idéias acima expostas, creio poder dizer que a falta de ênfase
da racionalidade cartesiana no Brasil, e em contrapartida, um tipo de vocação
de um pensamento que acolhe os contrários, nomeado como barroco, tem
talvez possibilidade de explicar um pouco a maneira pela qual a psicanálise
se expandiu nesse país com tamanha facilidade. Sabemos que a expressão
mais característica do Brasil é a barroca. As comemorações
dos quinhentos anos tem assinalado isso. No seminário Mais ainda,
Lacan diz que a psicanálise é barroca. O trágico, o barroco,
me parecem expressões estéticas onde opera uma ética que
tem a mesma estrutura da ética da psicanálise. Em sua heterogeneidade
em relação ao Clássico, não é à toa
que o barroco está identificado ao feminino, a uma certa força
da natureza, identificado no fim das contas, a um gozo Outro. Então
aproveitemos desses elementos de monstração que vem
da estética para a difícil transmissão da nossa ética.
Bibliografia :
LACAN, Jacques,
Sém, livre XX, L’Encore,
Paris, Seuil, 1975.
_____, Sém., livre VII, L’Ethique de la Psychanalyse,
Paris, Seuil, 1986.
_____, Sém, livre VIII, Le Transfert, Paris, Seuil, 1987.
_____, L’angoisse, livre X, inédito.
_____, L’acte psychanalytique, livre XV, inédito.
_____, La logique du fantasme, livre XIV, inédito.
_____, D’un discours qui ne sera pas du semblant, livre XVIII,
inédito.
Notas:
1 LACAN,
Jacques, L’angoisse, livre
X, inédito, lição de
30/01/63.
2 _____, L’acte psychanalytique,
livre XV, lição de 21/02/68, inédito.
3 _____, Op.Cit., 20/03/68
4 _____, La logique du fantasme, livre
XIV, lição de 15/11/67, inédito.
5 _____, D’un discours qui ne sera pas
du semblant, livre XVIII, lição de 17/02/71,
inédito.
6 _____, Sém, livre XX, L’Encore,
Paris, Seuil, 1975, pg.68.
7 _____, Sém., livre VII, L’Ethique
de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1986, pg. 368.
8 _____, Op.Cit.
9 _____, Op.Cit., pg 371.
Denise Maurano
* Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ, Doutora em Filosofia pela
Universidade de Paris XII, Prof. da Universidade Federal de Juiz de Fora, autora
dos livros Nau do Desejo, RJ, ed. Relume Dumará, 1995 e La
face cachée de l’amour, FR, Presses Universitaire de Septentrion,
2000. Email: dmaurano@bridge.com.br
*Artigo publicado
na Revista Documentos – Corpo
Freudiano do RJ, v.1, n.17, 2001.