O trágico
revisitado
Denise Maurano
De que maneira a questão
do Trágico se apresenta na Psicanálise?
De que forma a própria criação
da Psicanálise pode ser considerada
como um ressurgimento particular do Trágico?
Estará a estrutura que sustenta
o pensamento psicanalítico ancorada
nos mesmos elementos dos quais o pensamento
trágico parte em sua problematização
da condição humana? Abrigará a
obra psicanalítica elementos suficientes
para que nela possamos distinguir uma conceituação
própria do Trágico? E ainda,
na dimensão ética, uma afirmação
trágica da existência - será isto
o que é visado pela Psicanálise?
Estas são
apenas algumas das inúmeras questões
que a relação da Tragédia à Psicanálise
nos suscita. Com o presente trabalho não
temos a pretensão de respondê-las
agora. Esperamos, contudo, traçar
aqui os primeiros balizamentos através
dos quais nossa pesquisa se inicia privilegiando,
na investigação sobre o Trágico,
dentre os autores que o abordaram, a perspectiva
de Nietzsche. O motivo de termos destacado
esta perspectiva esperamos que se faça
evidente no próprio encaminhamento
do percurso por nós empreendido. Nesse
primeiro momento nos dedicaremos especilmente
a esse primeiro passo. Isso entretanto não
nos impede de, desde já, esboçarmos
algumas das razões pelas quais fomos
instigados a levar mais longe a relação
entre a Psicanálise e a Tragédia.
A) CONSIDERAÇÕES INICIAIS:
Se a Psicanálise
não pretende ser um sistema explicativo
para o mundo, sua criação a
partir dos achados de Freud, na intimidade
da escuta de mulheres que sofriam por sintomas
que não encontravam solução
possível no campo do saber médico
racionalista do século XIX, não
deixa de portar uma contribuiçào
essencial acerca da reflexão sobre
a condição humana, no ponto
em que sua problematização
vem justamente questionar a prevalência
da racionalidade nas vicissitudes do homem.
Os sintomas
que elas traziam, ao invés de se remeterem à presença
de doenças a serem eliminadas apontavam
sobretudo a presença de um sujeito
que buscava, recorrendo ao dito sintoma,
responder algo sobre o enigma de sua existência,
sobre o enigma de sua posição
na vida.
Quando Elizabeth,
um dos primeiros casos clínicos de
Freud, faz corresponder seu sintoma - dor
nas pernas - à expressão somática
da queixa sempre presente em seus relatos,
do quão só estava no mundo
e da sensação de que não
conseguia avançar um só passo,
localizando seu ponto desencadeador na angustiante
ideia que lhe adveio frente ao leito de morte
de sua querida irmã, de que uma vez
seu cunhado livre poderia fazer-se sua mulher,
configura nisto sua forma particular de problematizar
sua existência.
Nesta configuração encontram-se presentes os questinamentos fundamentais
sobre o enigma que comporta o sexo e a morte. Questionamentos que todo o edifício
contruído em prol da expansão do saber não consegue responder,
e que, por isso mesmo não cansam de se inscrever no discurso do sujeito
que se põe a falar de si.
O universo
simbólico ao qual está apenso
o homem, busca via a linguagem, via a ancoragem
que lhe propiciam os significantes, estabelecer
balizas que o protejam da dimensão
inassimilável da natureza. Na perpetuação
do enigma ao nível das significações,
sempre relançadas, impossível
de serem, de uma vez por todas, determinadas
e exauridas, resta a ordenação
dos significantes que, segundo Jacques Lacan,
psicanalista que se sucede a Freud, e que
sofre a influência das teorias de Saussure,
assume primazia sobre a ordem das significações.
Esta distinção,
autonomia e mesmo dissimetria entre a ordem
das significações e a ordem
dos significantes é o que justifica
o próprio convite à associação
livre como a regra fundamental da psicanálise
em sua intervenção clínica.
Entretanto, nesse convite a falar, não
importa o que, não importa o significado,
não é o domínio do caos
que se faz presente, mas sim do acionamento
do dispositivo da fala que para aquém
de remeter a significações,
circunscreve o sujeito no campo propriamente
humano, onde os sinais não remetem
a objetos mas a outros sinais, estabelecendo
com isto uma rede de sinais, jogo de significantes,
via pela qual o sujeito tenta se fazer representar.
Neste jogo, como enfatiza Lacan, a presença de um significante ganha
seu efeito significativo na medida em que se opõe a um outro significante,
como por exemplo: dia em oposição à noite, homem em oposição à mulher
e daí por diante. Nessa perspectiva a estruturação da
linguagem começa na oposição 1, e as oposições
significantes dão ao mundo suas armações, seus eixos,
sua estrutura, o organizam de forma a possibilitar que o homem se reconheça
na realidade, noção que pressupõe portanto, a experiência
simbólica.
Desta forma, aqui se pressupõe que a estrutura de linguagem vem revestir
e possibilitar ao homem via o plano simbólico, um acesso à natureza,
que em si é inapreensível e inominável, lugar de um silêncio
ruidoso. Partimos do princípio de que mesmo tudo o que se apresenta
no plano das identificações humanas, das manifestações
comportamentais, das gestualizações, das expressões diversas,
só ganha seu sentido no remetimento ao registro simbólico, enquanto
configurações dessa questão fundamental: Quem sou eu?
que somente nesse registro encontra alguma ancoragem.
Essa indagação
remete inelutavelmente a questões
de origem, de fundação. Ponto
onde se aspiraria detectar a confluência
entre o dado e o criado, o natural e o humano.
Local onde tentaríamos imaginar a
aparição de um significante
primeiro, significante puro que inauguraria
a articulação homem - mundo
mas que em si mesmo não teria significação
própria.
É exatamente
neste ponto que em todo esse caminho queríamos
chegar para pensar o mito não exatamente
como significante puro, mas próximo
disso, como esses supostos significantes
de base sem os quais a ordem das significações
humanas não poderia se estabelecer. É como
se pudessemos aí situar o mito como
referido à genealogia dos significantes,
possibilitando ao homem chaves para se posicionar
frente a heterogeneidade do mundo, chaves
para lidar com todas as espécies de
situações extraordinárias.
Embora, como alerta Lacan, não possamos
dizer que seja essa a situação
do homem moderno, bem menos aquinhoado que
o primitivo, por seus mitos 2,
frente as consequências da introdução
da concepção moderna de subjetividade
onde gravitam fenômenos como o que
Nietzsche designa como a morte de Deus. De
qualquer forma, nessa referência a
origem onde o mito se situa, reside a tentativa
de se pressupor a presença de um significante
no real . E aqui não importa que o
mito seja grego ou egípcio, ou mesmo
que tome matizes singulares na constituição
de um sujeito.
Nessa perspectiva o mito seria abordado como sendo essa organização
significante que serve de suporte às antinomias psíquicas, ou
ao que quer que seja que se apresente na radicalidade de um 'pathos', na evidenciação
de um limite ao que nos é dado conhecer.
Porém o mito encontra sua eficácia, diríamos mesmo, seu
campo de ação na medida em que vem apontar sempre o ultrapassamento
de algum limite, o limite das organizações esperadas, do benéfico,
dos bons costumes. O que aí é curioso é que embora o mito
apele a constituição de um saber, é a insuficiência
deste saber frente às forças insondáveis da vida que nele
se fazem presente. Como tão bem nos aponta Nietzsche, Édipo apesar
de sua sabedoria está destinado ao erro e à miséria 3,
enfatizando ainda que é como se via o incesto, via o inatural se forçasse
a natureza a entregar o seu segredo; "o mito parece querer murmurar-nos
ao ouvido que a sabedoria, e precisamente a sabedoria dionisíaca, é um
horror antinatural, que aquele que por seu saber precipita a natureza no abismo
da destruição há de experimentar também em si próprio
a desintegração da natureza. 'O agulhão da sabedoria se
volta contra o sábio; a sabedoria é um crime contra a natureza
': tais são as terríveis sentenças que o mito nos grita." 4
Nisso parece
situar-se tanto a dimensão terrível,
quanto a dimensão sublime do mito
que num determinado momento será transfigurado,
reinterpretado, recomposto através
de uma forma particular de expressão
artística que se constituirá na
Tragédia. Na epopeia homérica
o mito estava atrelado à história,
tinha aí suas pretenções,
o que Nietzsche adverte como sendo este o
modo pelo qual as religiões costumam
morrer. A Tragédia vem ressuscitar
o mito para que se toque seu conteúdo
mais profundo. Neste ponto, não nos
espanta a inspiração de Nietzsche
ao situar "o nascimento da Tragédia
no espírito da música",
distinguindo aí a função
essencial desta última na Tragédia,
uma vez que, como nos disse um amigo, 'a
música é o apogeu do significante'
e dessa forma, a Tragédia faria soar
o mito na dimensão em que este não
se deixa apreender pela lógica das
significações.
Assim o mais
fundamental na abordagem trágica do
mito não é a redençào
do herói, a significação
de suas proezas, mas seu ocaso, o ponto em
que o sentido da sua existência encontra,
ao mesmo tempo, sua afirmação
e seu limite no sem-sentido da morte
Pelo visto, poderíamos dizer que estamos aí mais próximos
do domínio daquilo que Lacan tentou situar como puro significante, um
significante no real, e que respalda a sua concepção do inconsciente,
não como lugar de conteúdos, mas,como estruturado como uma linguagem
onde o significante ganha primazia sobre o significado, sendo regido por uma
lógica outra onde vigora o domínio da atemporalidade, o princípio
da não contradição, o império das metáforas
e figurações do que em última instância não
pode ser completamente dito, significado. Características que curiosamente
encontram-se também presentes na estruturação da Tragédia.
Será nessa
referência que se situará para
a Psicanálise o sujeito do inconsciente,
e que se justifica que sua criação
advenha da posição conflitante
e problemática da relação
do homem com a significação
de suas ações, na dimensão
insondável do seu ser, na dimensão
mesma, de sua falta de sentido. Como nos
indica Lacan, "é na dimensão
trágica que as ações
se inserem e que somos solicitados a nos
orientar em relação aos valores" 5.
Tal indicação toma em consideração
a postulação freudiana do dualismo
de forças pulsionais que apelam tanto à união, à vida,
quanto à destruição, à morte,
operantes na conformação psíquica
do sujeito radicalmente dividido, atravessado
por um conflito irreconciliável.
Se nesse trajeto
queremos delinear relações
entre o Trágico e a Psicanálise
ou mais precisamente, pensar a dimensão
trágica da Psicanálise, isso
portanto, a nosso ver exige uma investigação
mais detida acerca do tema do Trágico.
As inúmeras alusões feitas,
tanto por Freud quanto por Lacan às
tragédias, para figurar aspectos essenciais
da maneira pela qual a Psicanálise
problematiza a condição humana,
não nos parece ser ocasional. Estamos
desta forma, propondo pensar a Psicanálise
como um ressurgimento particular do Trágico
o que terá diversas consequências,
inclusive a de aproximá-la radicalmente
da arte, malgrado seu compromisso com a ciência.
Antes porém de nos embrenharmos mais intensamente nos desdobramentos
do Trágico no seio da Psicanálise, em termos de suas implicações
não apenas teóricas, mas também clínicas, precisamos
nos introduzir mais detidamente no tema do Trágico e, para isso resolvemos,
como já mencionamos acima, por razões que pretendemos que, pouco
a pouco, se tornem evidenciadas, privilegiar a abordagem que dele é feita
por Nietzsche. Tentaremos portanto, revisitar o Trágico utilizando elementos
de sua obra como um primeiro guia nessa nossa excursão, desta forma,
partiremos de carona na própria revisita por ele efetuada.
B) A REVISITA DE NIETZSCHE AO TRÁGICO
É incontestável
o valor que Nietzsche atribui a arte, por
ele situada como a tarefa suprema da vida,
sua efetiva atividade metafísica
e não um mero acessório divertido,
alheio a seriedade da existência.
Nessa perspectiva Nietzsche privilegia
sumamente a Tragédia , daí a
extensa acolhida que essa expressão
artística encontra em sua obra,
onde o autor para além de delinear
os balizamentos que circunscrevem o sugimento
da Tragédia, busca também
averiguar os seus pontos de incidência
no mundo contemporâneo. Mais que
isso, acreditamos mesmo que Nietzsche com
a criação de seu herói
Zaratustra presentifica a Tragédia
com suas próprias mãos, hipótese
que vem sendo defendida pelo filósofo
Roberto Machado.
Neste ítem
abordaremos esta questão partindo,
mais especialmente, das reflexões
expressas em seu livro O Nascimento da
Tragédia e em sua Tentativa
de Autocrítica, e ainda em sua
obra Assim falou Zaratustra. Para
isso, entretanto, torna-se importante relembrar
alguns traços da maneira pela qual
Nietzsche aborda o tema do trágico.
Como mencionamos
acima, a arte por ele exaltada encontra na
Tragédia ática seu modelo supremo,
onde através de um ato miraculoso
e metafísico da "vontade" os
gregos conseguiram emparelhar os dois deuses
da arte: Apolo, o configurador plástico,
divindade da luz, remetido a bela aparência
do mundo dos sonhos, e voltado ao princípio
de individuação, por onde se
distingue o prazer das formas cognitivas
do universo fenomenal, e Dionísio,
seu contrário, remetido a arte não
figurada da música, onde o subjetivo,
o diferenciado se desvanece em exaltante
embreaguez, volúpia e crueldade, expressão
de uma natureza extasiante e sem freios.
Neste emparelhamento,
tanto a barbárie dionisíaca,
remetida a um gozo febril que conduziria
inelutavelmente a realização
do desejo de morte, proferido pelo sábio
Sileno 6 como o que vigora prevalentemente
no homem; quanto o véu de ilusões
apolíneas, tecido de idealidade, submetido
ao jugo das medidas, da temperança,
que busca encobrir todo o horror da existência
via formas afeitas ao apaziguamento, encontram
na arte trágica uma peculiar reconciliação.
Porém,
gostaríamos de assinalar que tal reconciliação
não deve ser aqui entendida como um
estabelecimento de paz serena ou de acordo
unificante entre esses dois adversários.
A utilização que Nietzsche
faz deste termo para dizer do que se passa
na arte trágica é mesmo problemática,
uma vez que, como ele mesmo alerta, na tragédia
mantém-se ainda a rigorosa determinação
das respectivas linhas fronteiriças
e "no fundo, o abismo não fora
transposto por ponte nenhuma ". 7
Se nos remetermos
também a Goethe, autor tão
caro a Nietzsche, podemos colher dele as
palavras proferidas ao chanceler Von Muller
em 6 de junho de 1824, onde tentando situar
a essência do trágico, enfatiza: "Todo
o trágico se baseia numa contradição
irreconciliável. Tão logo aparece
ou se torna possível uma acomodação,
desaparece o trágico ". 8
Desta forma,
a arte trágica que Nietzsche designará como
arte dionisíaca, abriga em seu seio
o saber místico da unidade da vida
e da morte, do solar e do obscuro, e não
se furta a interdependência entre elementos
contraditórios que nela transfiguram
em exaltação e beleza a força
destrutiva de suas oposições.
Como observa
Nietzsche, essa gente que mais seduziu para
o viver teve necessidade de tragédia.
E questiona: Há neles "uma propensão
intelectual para o duro, o horrendo, o mal,
o problemático da existência,
devido a um bem estar, a uma transbordante
saúde, a uma plenitude da existência?
Há talvez um sofrimento devido a própria
superabundância? 9" Com
isso, ele alude a existência de um
pessimismo da fortitude. Uma posição
de afirmação da vida em todos
os seus prismas, até mesmo os mais
cruéis, desde que transfigurados pela
arte.
Assim, a súbita
impetuosidade das forças da natureza,
cantada por Dionísio, expressa-se
agora por via simbólica, "um
novo mundo de símbolos se faz necessário,
todo o simbolismo corporal, não apenas
o simbolismo dos lábios, dos semblante,
das palavras, mas o conjunto inteiro, todos
os gestos bailantes dos membros em movimentos
rítmicos" 10. O Teatro
Trágico Grego florescerá ,
segundo a inspiração de Nietzsche,
a partir do espírito da música
como expressão da vida na exaltação
de tudo o que ela comporta de alegria e de
horror. Daí a importância do
côro na Tragédia que via a impetuosidade
de seus ritmos presentificava, de forma bela
e harmônica, as forças desagregadoras
da natureza e sitava-se como "auto-espelhamento
do próprio homem dionisíaco". 11
Nietzsche
chega a definir a tragédia grega "como
sendo o côro dionisíaco a descarregar-se
sempre de novo em um mundo de imagens apolíneo" 12,
onde o côro situa-se como a mais alta
expressão da natureza, a única
' realidade', ponto de superação
da individualidade e de comunhão com
o todo, em contraposição a
cena e a ação qualificadas
apenas como 'visão', onde a realidade
se dissolve em irrealidade espectral. 13
Entretanto,
pouco a pouco, essa 'visão' vai ganhando
a cena e a dimensão extasiante do
côro vai sendo relegada a um segundo
plano. Isto se dá , efetivamente,
com as tragédias de Eurípedes
que colocando no palco o homem da vida cotidiana,
com todas as suas mazelas, perturbações
e dramas psicológicos, dissituou o
laço fundamental entre a tragédia
e o mito, no apelo inebriante da música
e decretou com isto, segundo Nietzsche, a
morte da Tragédia. Ele assinala que
com Eurípedes e suas longas explicitações
da cena, a racionalidade invade a Tragédia,
o que a faz então, morrer por suicídio,
portanto tragicamente.
O que aí está referido é o
advento do socratismo, fundado nas máximas: "Virtude é saber;
só se peca por ignorância; o
virtuoso é o mais feliz." O apelo
ao saber, a ciência, a referência
ao ideal vêm instaurar o campo da ilusão
metafísica de que o pensar corrige
o ser e, neste ponto, se a ciência
se pretende o lugar da verdade, se é uma
ilusão que não se sabe ilusão,
ela está presa a sua própria
criação e é, nesta via
que se encontra o seu equívoco. 14
É verdade
que tanto este homem teórico quanto
o artista encontram-se protegidos do nihilismo,
do horror da existência pela criação.
Entretanto, o primeiro torna-se presa de
sua própria obra. Há nele ruptuta
entre vida e conhecimento, imagem e conceito,
como campos opostos e é nesta perspectiva
que se instaura uma proposta de educação
que vai culminar na criação
da academia.
Entretanto
este sonho de tocar os limites da natureza
lógica encontra, mesmo em Sócrates,
seu ponto de vacilação, apontado
por Nietzsche como o momento em que Sócrates,
que sempre desprezou a música popular,
põe-se na prisão, próximo
da morte, a praticá-la, impelido por
uma voz que lhe falava em sonho "Sócrates
faz música! 15 Surge daí a
ideia do Sócrates musicante, donde
Nietzsche levanta a questão da arte
como um correlativo necessário e um
complemento da ciência. 16
Mas, se o
esvanecimento do espírito da música,
em todas as suas implicações é o
que faz perecer a tragédia, esta,
certamente, nasce deste mesmo espírito.
E será tal espírito que Nietzsche,
num primeiro momento verá reflorescer
numa certa vertente da música alemã na
arte de Bach, Bethoven e principalmente Wagner. 17
A música
dionisíaca porta uma relação
com a representação intuitiva
da essência interna do mundo e com
isso enuncia "na linguagem universal
da música, os moviventos da vontade".18 Desta
forma, há através dela um conhecimento
imediato da essência do mundo, sem
a camisa de força da razão.
E é assim que a verdade e a beleza
aparecem juntas no conhecimento trágico. É preciso
a beleza para suportar a verdade. Daí resulta
o fato da verdade precisar da beleza, da
ciência precisar da arte, assim como
da vontade precisar de representação.
Como ressalta
Nietzsche "a alegria metafísica
com o trágico é uma transposição
da sabedoria dionisíaca instintivamente
inconsciente para a linguagem das imagens:
o herói, a mais elevada aparição
da vontade, é , para nosso prazer,
negado, porque é apenas aparência,
e a vida eterna da vontade não é tocada
de modo algum por seu aniquilamento." 19
Mas, certamente,
como ressalta Nietzsche, há uma luta
eterna entre a consideração
teórica do mundo e a considerção
trágica, e o renascimento da Tragédia
depois do espírito da ciência
ter se deparado com o seu limite, poderia
ter como símbolo, o Sócrates
musicante - marca da confluência entre
a ciência e a arte.
Se, no campo
da música Wagner, num primeiro momento, é situado
privilegiadamente como este redentor do trágico,
no campo da filosofia Kant e Schopenhauer
serão aqueles que virão promover
a queda do otimismo oculto na lógica,
que é o substrato da nossa cultura,
virão acusar a derrocada da ideia
de que a razão pode conhecer tudo. 20
Quando Kant
faz uma distinção entre conhecer
e pensar, enfatizando que só podemos
conhecer o que se apresenta no espaço
e no tempo, e que em contrapartida, o pensamento
não se subordina a isso, podendo se
valer apenas da sensibilidade, o que aí fica
demarcado de maneira radical para a aspiração
filosófico socrática é que
o conhecimento não desvela o real,
uma vez que há uma heterogeneidade
total entre o conhecimento e o mundo.
É verdade
que uma cultura se edifica através
das ilusões que a nutrem, entretanto,
quanto mais convicta de tais ilusões,
quanto mais situá-las no lugar de
realidades supremas e da essência mais íntima
e verdadeira das coisas, maior é o
erro e, portanto, o risco do nihilismo, da
desilusão.
Acatar a heterogeneidade
do mundo com relação ao que
se pode apreender dele, empurrar a sabedoria
para o lugar da ciência e fazê-la
voltar seu olhar para o mundo, descolando-a
da ilusão dos sedutores desvios das
ciências, significa introduzir uma
cultura trágica, aquela que ama heroicamente
o seu destino e acolhe também o seu
sofrimento.
Com a tão
propagada morte de Deus, o homem em seu otimismo,
tentou ocupar o lugar deixado vazio via a
idealização do que seria capaz
de produzir com seu aparato racional, o que
instalou uma consideração iludida
da existência que, segundo Nietzsche, "vai
pouco a pouco ao encontro de uma horripilante
destruição". 21
Neste processo,
o prazer de existir do socratismo científico
encontra seus limites e misteriosamente aparecem
os sintomas de uma sabedoria dionisíaca
na música alemã, especialemente
com Wagner e na filosofia alemã, especialmente
com Schopenhauer. O que aqui se configura é a
manifestação do espírito
alemão que retorna a ele mesmo, em
sua vocação para o trágico.
Quanto a isso, exclama Nietzsche: "Que
ninguém tente enfraquecer a nossa
fé em um iminente renascimento da
Antiguidade Grega, pois só nela encontramos
nossa esperança de uma renovação
e purificação do espírito
alemão através do fogo mágico
da música." 22
Entretanto,
em breve, em sua Tentativa de Autocrítica,
Nietzsche anuncia a derrisão de suas
esperanças, "esperanças
apressadas", "aplicações
errôneas as coisas do presente",
alegando que havia fabulado a respeito do
'ser alemão', e acrescenta, "aprendi
a pensar de uma forma bastante desesperançada
e desapiedada acerca desse 'ser alemão',
assim como da atual música alemã,
a qual é romantismo de ponta a ponta
e a menos grega de todas as formas possíveis
de arte." 23
Da mesma maneira,
no texto acima citado, Nietzsche reavaliará suas
observações a propósito
das posições schopenhauerianas
e kantianas com relação à Tragédia
e, para ressaltar a absoluta dissonância
entre a sua perspectiva e a deles, cita um
trecho do livro de Shopenhauer O mundo
como vontade e representação: "O
que dá a todo o trágico o empuxo
peculiar para a elevação é o
surgir do conhecimento de que o mundo, a
vida não podem proporcionar verdadeira
satisfação e portanto não
são dignos de nosso apego: nisto consiste
o espírito trágico - ele conduz
a resignação." Neste ponto,
horrorizado exclama Nietzsche: "Quão
diversamente falava Dionísio comigo!" 24
De qualquer
forma, se as esperanças de Nietzsche
se desencarnam das figuras por ele idealizadas
de Wagner, Schopenhauer e alguns outros,
tais esperanças não parecem
se esvair completamente. Por mais que o espírito
histórico-crítico de nossa
cultura tenha nos decomposto tanto, e nos
dissituado da perspectiva do mito organizador,
nos deixando famélicos e insatisfeitos,
um tanto sem pátria, Nietzsche assevera
que via a expulsão do elemento romântico
idealista, e de avaliações
morais que remetem a compaixão, ao
medo e à náusea, parece ser
possível que a dimensão trágica
da vida possa vir a afirmar-se através
da arte, da força da criação.
Podemos verificar
esta retomada da questão em em sua
obra Assim falou Zaratustra onde
através de um trabalho poético
dramático, Nietzsche não está a
discorrer conceitualmente sobre a arte, mas
, efetivamente, é ele agora o artista.
E, através do ocaso que traça
para seu herói, desvela as diversas
posições assumidas pelo homem,
delineia, de certa forma, um percurso a ser
trilhado em direção a dimensão
trágica da vida, em direção
ao amor do destino, amor fact. Isso
porém, não se dá senão
através da confrontação
com esse ponto limite que é o horror
da existência, confrontação
com o nihilismo, do qual, por defesa, pode
desencadear uma postura teórico-socrática,
que com o universo conceitual, com um véu
de ilusões encobre o dinamismo da
vida, ou promover a transfiguração
desse horror em exaltação jubilosa
via a arte, afirmando a vida, mesmo em suas
expressões mais terríveis.
O que aí parece
se expressar é que o ressurgimento
do trágico, muito além de depender
de uma manifestação delineada
num gênero de arte, expressa-se através
de uma posição ética
frente a vida, posição de transformação
da vontade na maneira de viver o tempo; onde
a nostalgia, no que tange ao querer o que
passou, e a esperança referida ao
querer o que virá, cedem lugar a afirmação
do instante, com tudo o que ele comporta
de alegria e de dor.
Tal posição ética,
que implica a transvaloração
de todos os valores, não é senão
a do artista que, enquanto criador, ousa
ver àquilo que os outros ainda não
viram, quer "ao mesmo tempo olhar e
desejar-se para muito além do olhar." 25
É assim
que Zaratustra, seu herói trágico,
vem figurar dionisíacamente esta posição
artística comemorando, rindo e dançando
em seu casamento com a vida, que nela mesma
não pode ser nem melhor, nem pior
do que ela é.
E se a vida é assim
eternamente, se o mundo não é pior,
nem melhor do que sempre foi, se tudo revêm
infinitamente 26, como Nietzsche
postula em Zaratustra, como poderia o trágico
furtar-se a esse destino? Nos resta entretanto,
como já mencionamos, a tarefa de localizar
suas incidências. E, sem precisarmos
ir longe, uma dessas incidências já encontra-se
aí nessa ideia de que tudo revêm
infinitamente, onde se situa o que é postulado
por Nietzsche como o pensamento do eterno
retorno que dependendo da forma como for
investido pelo o que ele chama vontade de
potência terá como consequência
um posicionamento ético nihilista
da vida ou, pelo contrário, uma perspectiva
de superação, de afirmação
trágica da existência. Para
melhor explicitação da questão
passaremos agora a abordar mais detidamente
essa relação.
C)"ASSIM FOI. POIS
ASSIM EU QUIZ!" - Uma afirmação
trágica da existência
Será numa pespectiva afirmativa, será como aquele que diz sim à vida,
sem abstrair dela quer a alegria ou o sofrimento que Nietzsche filósofo
se situa. A posição por ele defendida é de confirmação
das forças que regem a vida e que a encaminham num movimento que não
cessa de acontecer. Querer a vida, a cada momento e incondicionalmente - será nessa
dimensão que encontramos no pensamento de Nietzsche a visada do super-homem
- aquele que , para além do bem e do mal, afirma sua vontade transformando
valores, criando, avaliando, o que consequentemente aponta para um novo homem
que se situa além do próprio homem.
Vejam bem, não se trata de uma decisão racional que apele ao
desejo de domínio, dependente dos valores estabelecidos. Não
se trata de se apropriar de um "saber" como devem ser as coisas.
Não se trata, muito menos, das determinações de uma intencionalidade
da consciência ao modo de Husserl ou dos fenomenólogos humanistas.
Trata-se de uma posição do querer que envolve um poder afirmar
incondicionalmente a vida, poder fazer uma transmutação dos valores
decadentes da sociedade. Transfigurar o sofrimento que a vida comporta, não
pela sua negação, mas ao contrário, pela sua afirmação.
Aqui, saber disso não basta. Não é , efetivamente, uma
questão de saber, mas de poder, de estar munido de instrumentos, de
recursos para isso, ou não.
Da mesma forma,
não acreditamos que a visada do super-homem
signifique um ponto de finalização
de um processo evolutivo, um estado concluído
de ser, uma vez que isso não nos parece
compatível com a perspectiva dinâmica
de luta de forças tão marcante
nas concepções de Nietzsche.
A nosso ver, visar o super-homem implica
aí, em levar a vontade ao máximo
de sua potência, uma operação
prenhe de ocasos, tal como os que podemos
verificar na trajetória do herói
Zaratustra.
Em seu livro O Nascimento da Tragédia, Nietzsche explicita
que frente ao enunciado pelo sábio Sileno que situa o "não
ter nascido, não ser, nada ser" como a coisa que é mais
preferível para o homem, e que na impossibilidade dela aponta o "logo
morrer", como o que deve ser visado 27, pode o homem não
negar essa verdade terrível, transmutando esse sofrimento em êxtase.
Esse foi o recurso da tragédia grega onde a redenção da
dor pela arte encontra a mais bela expressão.
Mas, para explicitarmos um pouco mais as implicações dessa transvaloração,
abordemos mais detidamente a relação da vontade de potêcia
com a afirmação do eterno retorno. Afinal o que vem a ser essa
tal vontade de potência? E esse eterno retorno das coisas, o que significa?
Se aqui estivesse referido apenas o retorno eterno de coisas boas, pensar a
afirmação de nossa vontade nessa direção até que
não seria difícil. Mas afirmar pela via das forças que
atuam em nossa vontade o eterno retorno de tudo, mesmo das dores? Ah! Isso
não é tão fácil. Daí só mesmo sendo
um Zaratustra para promover esse casamento com a vida, o que, como o próprio
livro a ele dedicado nos mostra, não é alcançado senão
depois de um percurso.
A pespectiva das forças talvez seja a que melhor aborda o que vem a
ser no pensamento nietzschiano a vontade de potência,embora nesse pensamento
ela também apareça referida a um instinto primário, e
nessa medida, mais próxima de uma perspectiva organicista.
Quando na "história" de Zaratustra a questão da vontade
de potência aparece pela primeira vez, no capítulo "Os mil
objetivos e o único objetivo", o que aí é exposto é que
nas avaliações do que seja o bem e o mal para cada povo, o bem
expressa-se como "catálogo das vitórias sobre si" 28.
Onde situa-se como dignificante, o que parece difícil, "o mais
raro e difícil, santifica-se...é a voz de sua vontade de poder" 29.
Aqui, a vontade de poder, ou vontade de potência, tradução
que preferimos, aparece então como relativa a criação
dos valores que poderia ter como meta a ideia de humanizacão. Ou seja,
ao invés da vontade de potência estar dispersa nos mil objetivos
que envolvem a criação de valores dos diversos povos, que tal
um único objetivo que visasse a humanidade? Mais adiante entretanto,
a visada de Nietzsche não será a humanidade, mas o super-homem
- aquele que pela vontade de potência afirma o eterno retorno das coisas.
O curioso da vontade de potência é que ela, em alguns momentos
no pensamento de Nietzsche é definida a partir de suas três extensões:
o homem como vontade de potência; a vida como vontade de potência;
o mundo, a matéria como vontade de potência. Dessa forma, toda
força atuante é vontade de potência, o que significa que
mesmo no acontecer mecânico age a força da vontade, os efeitos
da vontade. 30
Consequentemente a manifestação da vontade de potência
no homem é apenas uma de suas possibilidades e mesmo a mais superficial.
Ela pode, ainda assim, manifestar-se de forma positiva, na direção
da expansão da vida, ampliação de suas possibilidades,
assumindo seus riscos, ou de forma negativa, no intúito de conservação
da vida. Seja como for, o vivo quer dar vazão a sua força e dessa
maneira "a própria vida é vontade de poder" 31. "A
vontade de conservação é a expressão de um estado
de desespero, uma restrição ao verdadeiro instinto fundamental
da vida, que tende a expansão da potência e que, por essa vontade,
põe em questão e frequentemente sacrifica a autoconservação." 32 O
que então se verifica é que existem vontades afirmativas de potência
e vondades negativas de potência. Como numa figuração em
Zaratustra a vontade pode ser fogo ou cinza.
Neste mesmo livro, no capítulo "Da vitória sobre si mesmo",
Zaratustra observa que onde quer que ele tenha encontrado o que é vivo,
ele encontrou também vontade de domínio e até na vontade
do que obedece encontrou vontade de ser autoridade, e acrescenta ainda "e
a própria vida me confiou este segredo: Olhe - disse - eu sou o que
deve ser superior a si mesmo" 33. Nesta perspectiva a vontade
de vida, a vida mesma não se apresenta como aquilo que o vivente mais
preza, mas sim a vontade de domínio. Assim, "o fato de fazermos
sacriíios para fazermos o bem e o mal...é um sacrifício...a
fim de conservarmos nosso sentimento de poder" 34.
A vontade de potência toma mesmo uma dimensão fisiológica
no pensamento de Nietzsche quando a exploração vem a ser identificada
a uma função orgãnica. Em suas palavras: "A exploração
não é própria de uma sociedade corrompida, ou imperfeita
e primitiva: faz parte da essência do que vive, como função
orgânica básica" 35.
Mas entendemos que o que Nietzsche quer com isso é criticar as ilusões
humanitárias e democráticas que tentando negar as diferenças
e a luta de forças visam efetivamente tiranizar vontades de potência,
torná -las fracas, para melhor manipulá-las.
Neste sentido, sua ideia de desenvolvimento não se refere ao progresso
em direção a uma meta, mas a luta de forças dentro de
processos que tentam superar resistências, e alerta que exaltando-se
a adaptação, a reatividade, "se desconhece a essência
da vida, a sua vontade de poder;com isso não se percebe a primazia fundamental
das forças expontâneas, agressivas, expansivas, criadoras de novas
formas, interpretações e direções, forças
cuja ação necessariamente precede a adaptação" 36.
Mas apesar de tão imperiosa, a vontade de potência não é coisa
simples. Numa crítica a ideia de vontade livre, Nietzsche aponta que
somente o homem irrefletido acredita na simplicidade e imediatez da vontade 37.
A vontade se manifesta em sua multiplicidade. Ela não se encontra nem
sob o jugo do livre-arbítrio que aspira uma coincidência entre
o que ordena e o que executa a ordem, apostando no sintético conceito
do eu 38, e tampouco sob o abuso da perspectiva de causa e efeito
que opera na ideia de "cativo-arbítrio". O autor localiza
aí o problema pelos dois lados: uns, não querem de jeito algum
abandonar sua "responsabilidade", perder seu mérito, enquanto
outros, pelo contrário, não querem ser culpados por nada. Em
ambos está presente a negação de que na vida o que há são
apenas vontades fortes e fracas 39, forças que disputam espaço
no tempo.
Porém, o que podem tais forças? São elas infinitas de
forma que nenhum consumo as esgotaria? Aqui, ao contrário do que se
poderia pensar com tamanha apologia das forças, Nietzsche responde: "A
medida da força total é determinada, não é nada
de 'infinito'... Consequentemente, o número das situações,
alterações, combinações e desenvolvimentos dessa
força é , decerto, descomunalmente grande e praticamente ' incomensurável'
, mas, em todo caso, também determinado e não finito. O tempo,
sim, em que o todo exerce sua força, é infinito, isto é ,
a força é eternamente igual e eternamente ativa: - até este
instante já transcorreu uma infinidade, isto é , é necessário
que todos os desenvolvimentos possíveis já tenham estado aí .
Consequentemente, o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição,
e também o que o gerou e o que nasce dele, e assim por diante, para
a frente e para atrás." 40
É verdade, a lógica argumentativa é perfeita: se as forças
atuam no tempo; se o tempo é infinito para frente e para trás,
ou seja, nunca teve começo e nunca terá fim, e as forças
apesar de contarem com um amplo leque de possibilidades combinatórias
são finitas, então para que elas continuem a se apresentar elas
tem de se repetir. Daí se pronuncia a ideia de ciclo.
Indo mais longe, Nietzsche critica a expectativa de que se possa alcançar
um equilíbrio de forças. Diz ele que se isso fosse possível
já teria sido alcançado. O que aqui está sendo rejeitada é a
concepção de que existiria um estado de ser, depois de um estado
de movimento, de devir 41. Para ele, se o mundo tivesse uma meta,
ela já teria sido alcançada 42. E, da mesma forma,
se houvesse o estado de ser antes do devir, nunca se teria saido desse estado.
Para Nietzsche o que existe é o devir, o processo, o acontecer incessante
das coisas; não há ser nem antes, nem depois do devir. Contra
a ideia de que o tempo tenha um momento inicial e um momento final, ele afirma
a circularidade do tempo e cria o pensamento do eterno retorno - o eterno retorno
do mesmo.
Em Zaratustra o encontro com o pensamento do eterno retorno mostra, num momento
inicial, a dimensão de seu peso incomensurável. Enunciado pelo
anão -"Tudo quanto é reto mente-...- Toda verdade é tortuosa,
o próprio tempo é um círculo" 43 - se
revela, a princípio como uma carga pesada. O anão, representante
no livro, daquele que tem ideias curtas, daquele que é apenas racional,
pode até saber do eterno retorno, ter acesso a esse pensamento, mas
não pode afirmá -lo pela sua vontade. O que o impede de transmutar
seu peso em leveza, como explicitaremos mais adiante. Daí nesse momento
do texto ele fugir, desaparecer.
Mesmo Zaratustra quase sucumbe ao peso dessa verdade que a princípio
age como uma serpente negra que lhe atravessa a garganta. Parece que a ideia: "esta
vida, tal como a vives atualmente é preciso que a revivas ainda mais
uma vez e uma quantidade inumerável de vezes e nada haverá de
novo, pelo contrário!" 44, não seria tão
difícil se se restringisse aos momentos bons e gloriosos. Mas, não é isso
a afirmação do eterno retorno, daí sua dificuldade. Daí o
risco de que esta ideia nos remeta a uma perspectiva nihilista. Isto se configura
em Zaratustra na imagem do adivinho como o profeta do nihilismo passivo quando
anuncia :"Tudo é vazio, tudo é igual" 45,
até as realizações cansam, e, se é assim, nada
então vale a pena. Para que lutar? Melhor é morrer.
Mas aqui, o que é curioso e imensamente instigante é que o pensamento
do eterno retorno que pode efetivamente nos remeter a esta náusea frente
a vida, que pode mesmo se sedimentar no ressentimento e na ideia de vingança
frente a esse 'Assim foi', que nem deixa em seu rastro a esperança de
que esse passado, esse 'Assim foi', passou, pode também, por uma outra
perspectiva, ser a chave, ou melhor, o anel de confirmacão da vida.
Isto poderá se dar através de uma articulação entre
a vontade de potência e a afirmação do eterno retorno.
Mas como a vontade pode ser vontade de potência se ela é impotente
em relação ao passado? E, se não se quer o passado, não
se pode afirmar o eterno retorno.
No capítulo "Da redenção", embora ainda não
haja em Zaratustra uma afirmação efetiva do eterno retorno, há ,
por outro lado a exposição de sua problemática no que
tange a sua articulação ao eterno retorno. Zaratustra, quando
solicitado pelos aleijados a curar-lhes os males, a mudar-lhes a posição
na vida, mostra de que forma a vontade, embora impotente contra o fato não é impotente
quanto a maneira pela qual o fato pode ser vivenciado. Ele diz: "Redimir
os passados e transformar todo 'foi assim' num 'assim eu quiz': só isto é redenção
para mim." 46 E acrescenta: "Todo o 'foi' é partícula
e enigma e incrível azar, até que a vontade criadora acrescente:'Porém
eu assim o quero! Assim o hei de querer'." 47
Será por essa via que a vontade se liberta do nihilismo, do ressentimento,
e se remete a um plano ético onde para além do bem e do mal,
afirmando a vida incondicionalmente, afirmando o eterno retorno das coisas,
acaba por aliviar-lhes o peso. É assim que diante de uma mesma coisa,
alguém pode sentir-se sufocado ou superar-se. É assim que a alegria
e o sofrimento não se colocam como condições cristalizadas,
mas devem ser afirmados como vicissitudes do devir.
Situa-se aí a perspectiva trágica que consegue transmutar o sofrimento
em êxtase, que no ciclo da criação e da destruição
não renega nenhum de seus movimentos. E fazendo uma referência
a Dioniso, o deus nela celebrado , Nietzsche enfatiza: "o Dioniso cortado
em pedaços é uma promessa de vida: eternamente renascerá e
voltará da destruição" 48,na confirmação
perpétua do "Assim foi. Pois assim eu quiz!"... , posição
trágica por excelência.
D) CONSIDERAÇÕES
EXTEMPORÂNEAS
Mas, e a Psicanálise com
isso? Tentaremos agora tecer alguns toscos
alinhavos que apesar de serem talvez prematuros,
esperamos que nos valham como inspirações.
No início
desse texto mencionamos a dimensão
trágica apontada por Lacan, como a
via por onde se inserem nossas ações
e por onde orientamos nossos valores. Tal
perspectiva se sustenta na concepção
psicanalítica de sujeito, como sujeito
do inconsciente. Se busca com ela, deslocar
a ética, a reflexão tradicional
a propósito da avaliação
das ações humanas, da relação
ao Bem, para situá-la ao nível
da economia dos bens concebidos a partir
de princípios heterogêneos que
vigoram no psiquismo, tais como princípio
do prazer, princípio de realidade,
etc. Isto indicaria a novidade de Freud para
o campo da ética.
Porém,
para além da circulação
dos bens, no domínio desta economia
que regularia as ações, um
campo central é aberto: o campo de "das
Ding", campo da Coisa inominável
apontada por Freud como ponto de partida
na fundação do psiquismo, que
inaugura a sua dinâmica na busca de
encontro com um objeto impossível
de ser reencontrado, perdido desde sempre
na alteridade da natureza, na dimensão
real do mundo. Desta forma, "das Ding" vem
situar-se como uma exterioridade íntima
- uma extimidade - como propõe Lacan.
Encontra-se no âmago do mundo subjetivo,
porém excluído deste e, enquanto
excluído, vazio, e desta forma possibilitador
do deslanchamento do processo simbólico,
da relação ao significante.
Neste ponto Lacan aproxima "das Ding" ao
que Kant denominou como "noumenon ",
um objeto sem representação
sensível, um objeto cuja representação
permanece vazia, e como Kant nos diz, "não
serve para nada a não ser para traçar
os limites do nosso conhecimento sensível
e deixar vazio um espaço que não
podemos preencher nem pela experiência
possível nem pelo entendimento puro" 49.
Será esse
problemático objeto transcendental
que, para a perspectiva psicanalítica,
encontra-se no centro da subjetividade do
sujeito, estruturando suas relações
significantes e, ao mesmo tempo, alheio,
excluído, fundamentalmente vazio,
localizado no real enquanto impossível
a se atingir. A busca desse objeto inefável
, é o que caracteriza a concepção
psicanalítica de desejo. E é nessa
medida que o desejo para além de todo
o seu revestimento significante, para além
do circuito dos bens que tentam funcionar
como rede de proteção, tende à radicalidade
desse vazio, lugar do irrepresentável,
e portanto, da morte.
Neste ponto
não podemos deixar de nos remetermos
a, anteriormente citada, sabedoria de Sileno
sobre a relação do homem à morte,
localizando aí a incidência
radical do desejo humano, e na mesma medida
não podemos deixar de relembrar Nietzche
na indicação da arte, especialmente
da arte trágica, na transfiguração
desse horror. Acreditamos que é nessa
mesma direção de valorização
da arte que Lacan indicará o fenômeno
estético, a experiência do belo
como o obstáculo mais efetivo para
se lidar com o terrível. Como ele
nos diz, o belo situa-se aí como o
explendor da verdade. "É evidente
por o verdadeiro não ser muito bonito
de se ver, que o belo é, senão
seu esplendor, pelo menos sua cobertura." 50
Dessa forma,
nesse campo inominável do desejo radical,
campo central do desejo, "o bem constitui
a primeira rede que detém, o belo
forma a segunda e chega mais perto. Ele nos
detém, mas também nos indica
em que sentido se encontra o campo de destruição." 51 Assim
o belo, enquanto criação, por
estar ligado ele mesmo a uma estrutura de
engodo, a uma ilusão, não nos
ilude como o faz o bem que aspira a uma estrutura
de verdade. O que a nosso ver justifica que
numa dimensão ética a única
satisfação permitida pela promessa
analítica diga respeito a sublimação,
tal como Lacan nos indica. 52
Se a experiência
analítica pretende um encaminhamento
do sujeito na direção do desejo
que o habita, e se como pressupomos, o desejo
se mantém numa certa relação
com a morte, isso exigirá um ato trágico
transfigurador. "O acesso ao desejo
necessita ultrapassar não apenas todo
temor, mas toda piedade, que a voz do herói
não treme diante de nada, e muito
especialmente diante do bem do outro, é na
medida em que tudo isto é experimentado
no desenrolar temporal da história,
que o sujeito fica conhecendo um pouco mais
do que antes o mais profundo dele mesmo" 53
É no
rastro desse eixo que estrutura a concepção
de desejo em Psicanálise, que Freud,
via a versão trágica do mito
do Édipo vem figurar o herói
que renuncia aos bens e ludibriado por seu
acesso à felicidade, arrisca seu ser
e parte na direção em que procura
seu desejo, que aí se recobre por
um desejo de saber, que ele leva até o
ponto de invocar a subtração
da ordem do mundo: "Antes não
ter nascido". Esse desejo de saber,
que se refere em última instância,
saber a chave do enigma do seu desejo, comporta
inexoravelmente um perigo, e é nessa
dimensão que a experiência psicanalítica
não deixa de portar um risco.
Nesse
ir mais além do universo regido
pelo benéfico e pelas avaliações
calculadas, nessa confrontação
com a radicalidade do vazio que se situa
como termo último do endereçamento
ao desejo, diríamos nós,
esse se deparar, com a queda da lei do
pai, com a morte de Deus sem a ascenção
do homem, pode remeter o sujeito ao peso
terrível de um nihilismo absoluto,
num "Assim foi" sem remediações
. Mas também, por um ato transformador
da "vontade", transformar esse "Foi
assim" num "Assim eu quiz".
Onde cabe o alerta de Lacan: "em cada
um de nós há a via traçada
para um herói " mas, "é sempre
como homem comum que ele a efetiva". 54
Notas:
1 LACAN,
J. O Seminário, livro 3.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p.192.
2 Op. Cit., p.228.
3 NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia.
São Paulo: Cia. das Letras, 1992, p. 64.
4 OP. CIT., p.65.
5 LACAN, J. O Seminário, livro 7.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p.21.
6 NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia.
São Paulo: Cia das Letras, 1992, p.36.
7 Op. Cit. p. 34.
8 Citado in: LESKY, Albin. A tragédia
greca. São Paulo: Perspectiva, 1990, p.25.
9 NIETZSCHE, Friedrich - Op. Cit. p. 14.
10 Op. Cit. p. 35.
11 Op. Cit. p. 58.
12 Op. Cit. p. 60.
13 Op. Cit. p. 62.
14 Op. Cit. p. 93.
15 Öp. Cit. p. 90.
16 Op. Cit. p. 91.
17 Op. Cit. p. 97.
18 Op. Cit. p. 100.
19 Op. Cit. p. 101/ 102.
20 Op. Cit. p. 110.
21 Idem.
22 Op. Cit. p. 122.
23 Op. Cit. p. 21.
24 Op. Cit. p. 20/21.
25 Op. Cit. 141.
26 NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra.
Col. Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p.
254.
27 NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia.
São Paulo: Cia das Letras, 1992, p.36.
28 NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra.
São Paulo: Hemus, p.45.
29 Op. Cit.
30 NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal.
São Paulo: Cia das Letras, 1992 -&36, p. 43.
31 Op. Cit. &13, p.20.
32 NIETZSCHE, F. Gaia Ciência. São
Paulo: Ediouro &349, p. 177.
33 NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra.
Op.Cit. p.88.
34 NIETZSCHE, F. GAIA CIÊNCIA. Op.
Cit. &13, p.41.
35 NIETZSCHE, F. Alem do bem e do mal. Op.
Cit. - &259, p.171.
36 NIETZSCHE, F. Genealogia da moral. São
Paulo, Brasiliense, 1988 - 2a. Dissertacão - &12
-p.83.
37 NIETZSCHE, F. GAIA CIÊNCIA. Op.
Cit. -&127, p. 105.
38 NIETZSCHE, F. Alem do bem e do mal.
Op. Cit. &19, p.25.
Op. Cit. &21, p.27.
39 NIETZSCHE, F. O eterno retorno. Col. Pensadores, Sao
Paulo, 1978 40 -&1 - p.387.
41 Op. Cit. - &14, p. 388.
42 Op. Cit. - &1062, p.395.
43 NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra.
Op. Cit., p.120.
44 NIETZSCHE, F. GAIA CIÊNCIA. Op.
Cit.- &341
45 NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Op.
Cit., p. 103.
46 Op. Cit., p. 107.
47 Op. Cit.
48 NIETZSCHE, F. O eterno retorno. Op.
Cit.- &1052, p.394.
49 KANT, E. Critica da razão pura.
Col. Pensadores, São Paulo. Nova Cultural, 1987, p.170.
50 LACAN, J. O SEMINÁRIO, livro
7. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p.265.
51 OP. CIT.
52 OP. CIT., p.361.
53 OP. CIT., p.387
54 OP. CIT., p.383.
Denise Maurano
Psicanalista, Doutora em Filosofia pela Universidade de Paris XII, Prof. Adjunta
da UFJF, autora dos livros Nau do Desejo, RJ, Ed. Relume Dumará,
1995 e La face cachée de l’amour, FR, Presse Universitaire
de Septentrion, 2000.
*Artigo publicado
na Ata da II Jornada Clínica, O
imaginário na clinica das neuroses,
RJ, Escola Brasileira de Psicanálise
do Campo Freudiano, 1994.