Dimensões
trágicas da razão e da subjetividade na
idade moderna
Denise Maurano
Tradicionalmente costuma-se dividir a história do pensamento em quatro
períodos: antigo, medieval, moderno e contemporâneo. Cada um desses
períodos têm inquietações próprias que a
produção do pensamento tenta acomodar, desenvolvendo diferentes
estratégias. Eu diria que cada um deles utiliza-se de métodos
particulares, precisamente adequados para abordar as inquietações
que os concernem. Os métodos escolhidos são correlativos à natureza
destas e funcionam como as vias que traçam os caminhos do pensamento
e da produção cultural decorrente.
A pesquisa de sentido, a vontade de saber, a relação a isso que
se chama verdade são buscas de ancoradouros para a existência,
que delineiam de diferentes maneiras as diversas produções do
pensamento. Em uma primeira posição, o homem estava diante de
um mundo que se lhe apresentava como inteiramente dado. Na verdade ele era
parte desse mundo, face ao qual só lhe restava contemplá-lo buscando
formular suas leis de funcionamento. Em seguida, face à diversidade
das formulações propostas, passa-se um largo período,
o medieval, tentando unificar através de um ato de fé, Deus e
a Verdade. É o império disto que, apesar dos protestos de alguns,
denomina-se tradicionalmente, de filosofia cristã. Aqui, Deus funciona
como assegurador da Verdade, e ainda mais, Deus é ele mesmo a Verdade.
Então, tudo o que se pode saber sobre esta, resta dependente de um ato
de fé, na época considerado como o único caminho para
a Verdade.
Entretanto, a crise na relação do homem com o conhecimento pode
ser adiada, mas não suprimida. Descartes é aquele que encarna
esta crise, sublinhando a dúvida que se coloca entre o verdadeiro e
o falso. Diria que ele chama mais a atenção para aquele que propõe
algo como verdade, do que sobre a proposição mesma. Dito de outra
forma, ele assinala a presença do homem enquanto sujeito errante na
produção do saber. Desta maneira, é a subjetividade mesma
que é tomada em conta, e o que é colocado em questão é mais
a certeza do que a verdade. A questão do método apresenta-se
como meio de neutralizar a intervenção da subjetividade na produção
do conhecimento. O sujeito enquanto susceptível de errar, enquanto intérprete
do mundo, ocupa aqui uma posição inteiramente diferente da do
homem que se identifica por completo com as idéias que ele produz na
sua contemplação do mundo. Existe já aí uma certa
ruptura entre o homem e suas idéias.
É como sujeito implicado em sua produção que Descartes escreve
seu Discurso do Método. Ousa publicá-lo em sua língua
materna, o francês, e não em latim erudito como era o hábito
da época. Escreve um discurso e não um tratado. Diz, curiosamente,
na quarta parte do seu livro, que, para ver se os fundamentos de sua metafísica
são suficientemente firmes, ele é ‘compelido a falar” 1.
O autor julga a si mesmo; eis aí a divisão do sujeito. Aquele que
olha e aquele que é olhado, são e não são os mesmos.
A presença do Je e do Moi, distinguindo de certa forma
o Eu (Je), indicativo do sujeito, e o Ego (moi) , que funciona
como fachada, é o ponto de partida de seu discurso e nele permanece. Afirma: “Eu
tinha sempre um desejo extremo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso,
para ver às claras minhas ações, e caminhar com segurança
nesta vida.” 2 É sua própria vida que é colocada
em questão na sua reflexão: não se trata de uma questão
simplesmente especulativa. Descartes não se propõe como um mestre,
porque se ele expõe seu método, não é para ser seguido
por outros, mas para testemunhar o encaminhamento de sua razão. Assim,
a simples imitação do método cartesiano é uma coisa
inteiramente diferente da atitude de Descartes em relação ao saber.
Descartes oferece o testemunho de sua experiência por esse Discurso que
propõe que seja lido como uma história, ou uma fábula 3.
Uma história de alguém que, em seu julgamento sobre si mesmo,
pende “mais para o lado da desconfiança que para aquele da
presunção”.4 Na última parte de
seu Discurso, onde expõe as razões que o fizeram escrever,
ele se reconhece ainda extremamente sujeito a falhar 5. Mas, neste
momento, ele já abriga as referências “indubitáveis” que
procurava.
Os caminhos que provocaram a dúvida em Descartes são verdadeiramente
interessantes. Face a uma diversidade muito grande de informações
e de opiniões que tinha recebido de seus magníficos mestres,
e depois das viagens que havia feito, não via em que certas opiniões
seriam mais válidas do que outras. Assim, foi compelido a encontrar
uma maneira de conduzir por ele mesmo a sua razão.
Diante da balança que oscila sempre entre o verdadeiro e o falso, determinou
regras a partir das quais começou a estabelecer seu método. Primeiramente,
propôs-se a não considerar coisa alguma como verdadeira a menos
que se apresentasse como evidente, ou seja, a menos que ela tivesse clareza,
distinção, ou ainda, que fosse indubitável. Apresentou
outras regras ainda, como a análise das dificuldades no exame das idéias,
a progressão na complexidade do pensamento. No entanto o que eu gostaria
de enfatizar aqui, por sua pertinência ao meu tema é o caminho
que a sua dúvida segue. Atentemos para ele.
Na quarta parte de seu trabalho, o filósofo encontrava-se inteiramente
dominado pela dúvida. Apercebeu-se de que nada lhe restava de sua crença
que fosse inteiramente indubitável. Compreendeu que sua imaginação
poderia criar coisas que pareciam reais mas que verdadeiramente não
eram senão ilusões dos sonhos. Mas, logo depois deu-se conta
de que se tudo era falso, era preciso necessariamente que ele, que pensava,
que tinha dúvidas, fosse alguma coisa. E assim chegou a seu ponto ‘indubitável’: penso,
logo sou. 6 Eis a certeza procurada. No entanto, chegar à certeza é bem
diferente de chegar a verdade.
A certeza que propõe o ser como dependente do pensamento apóia
esse ser inteiramente sobre esse Eu que pensa, esse Eu que
olha a si mesmo no ato de pensar, esse Eu que se coloca como objeto
para o sujeito que, no entanto, encontra-se sempre alhures. Então, pretendendo
eliminar, ou melhor, neutralizar a intervenção do sujeito, Descartes
desemboca na certeza angariada pelo pensamento, confundindo, ao que parece,
certeza com verdade. Essa certeza enraíza-se em um Eu que é,
ele mesmo, a dúvida, a divisão, a vacilação que
no ato mesmo de falar, na arbitrariedade das palavras, do sentido, está demonstrado.
E certamente não é à toa que para sustentar este Eu ele
faça apelo a Deus: “era preciso que, necessariamente, existisse
algum outro mais perfeito, do qual eu dependesse, e do qual eu tivesse adquirido
tudo isto que eu tinha.” 7 Isso porque o filósofo
reconhecia nele mesmo uma dualidade, uma divisão, duas naturezas -
uma que se arrastava sobre o caminho da dúvida, da inconstância,
da tristeza, e outra que era a perfeição do pensamento, a natureza
inteligente tomada como distinta da natureza corporal. Concluiu então
que ele não poderia ser Deus. “Deus é este Ser perfeito”,
não podendo portanto ter uma dupla natureza. A dupla natureza ao impelir
o homem a uma condição de dependência, e “a dependência é manifestamente
um defeito” 8, demonstraria que o homem não é Deus.
Descartes assevera que isso* que existe em nós de claro e distinto é assegurado
pela existência de Deus, mas, curiosamente, acrescenta que mesmo nossas
imaginações bem distintas, como por exemplo, a idéia de
uma cabeça de leão no corpo de uma cabra, ainda que elas não
sejam verdadeiras, devem ter qualquer fundamento de verdade; porque não
seria possível que Deus, que é absolutamente perfeito e verdadeiro,
as tenha colocado em nós sem isso. E porque nossos arrazoamentos não
são nunca tão evidentes nem inteiros durante o sono que durante
a vigília, ainda que algumas vezes nossas imaginações
sejam então tão ou mais vivas e expressivas, elas nos dizem também
que nossos pensamentos não podem ser inteiramente verdadeiros, porque
nós não somos perfeitos, o que elas têm de verdade deve
infalivelmente se encontrar mais naquilo que nós temos enquanto acordados,
que em nossos sonhos. 9
A este respeito, é justamente de nossos sonhos, do fundamento de verdade
sobre o qual eles repousam, que a psicanálise parte. Freud a inaugura
pela abordagem que ele fez dos sonhos - “das cabeças de leões
fincadas em cabras” e tantos outros - buscando a verdade que neles habita,
a verdade que eles realizam. Pode-se então dizer que é por causa
da crise de Descartes, que Freud, dirigindo-se para os pontos que a inaugurou,
a dúvida, a vacilação, avança numa investigação
que o conduziu a uma outra abordagem da verdade. Essa seria a verdade do desejo
que desvela um sujeito sempre situado na báscula entre o verdadeiro
e o falso, ou melhor, sempre situado sobre verdades que o ultrapassam e que
ele não pode apreender inteiramente.
De um lado, o desenvolvimento da ciência e todo o pensamento moderno
relacionam-se com a resposta que Descartes deu às suas dúvidas,
onde se agrega um esforço para esquecer o percurso por ele efetuado.
Do outro, a psicanálise faz o contrário, já que opera
um retorno ao ponto de partida desse autor, a saber, a dúvida. Nesse
contexto, mais do que encontrar uma nova resposta, o que ela sustenta é mesmo
a vacilação, a condição vacilante do humano, a
qual já ocupava seu lugar no que a tragédia grega antiga colocava
em cena. Nesta, ainda que o homem esteja sustentado por sua identificação à Até,
o limite do que ele pode ver dele mesmo, ir em direção à essa Até na
démarche trágica é reencontrar seu próprio aniquilamento,
como já foi exposto no capítulo anterior. Pode-se com isso ver
nas tragédias uma indicação crucial da fissura entre o
homem e isto que o assegura enquanto vivente em meio aos segredos da “ordem
do mundo”.
Descartes não é certamente um trágico, mas creio poder
dizer que tocou, em um primeiro momento, algo do caminho do herói trágico,
para logo dele afastar-se. A maior parte daqueles que o seguem, começam
a partir da resposta que nosso autor encontra para ele mesmo, e, desta forma,
evitam a questão. Todavia apesar de tudo, esta última insiste
e está especialmente presente no pensamento que se chama moderno.
O
saber entre o homem antigo e o moderno
O percurso
que se segue visa introduzir a abordagem
que a psicanálise faz da tragédia
moderna, com suas referências às
implicações da subjetividade,
como pretendo demonstrar. Na Interpretação
dos sonhos, ao levantar a questão
da morte de pessoas amadas, Freud compara
a posição dos personagens Édipo
de Sófocles e Hamlet de Shakespeare
frente ao tema do assassinato do pai. Para
o autor é a diferença entre
o homem antigo e o homem moderno que está em
jogo. Ele sublinha que a tragédia
de Sófocles se inicia no ponto de
partida da enquete para encontrar o assassino
de Laios. Esse assassino deve ser exilado
do território de Tebas, a fim de eliminar
a peste que recai sobre essa cidade. Freud
observa:
A ação na tragédia se encontra constituída exclusivamente
pela descoberta paulatina e em atraso, com suprema arte - processo comparável àquele
da psicanálise - de que Édipo é o assassino de Laios e
ao mesmo tempo seu filho e de Jocasta. 10
Em seguida Freud acrescenta que a chave da tragédia é o assassinato
do pai e a esse respeito, introduz seu comentário sobre Hamlet. Afirma
que Édipo e Hamlet têm os mesmos fundamentos, mas que os diferentes
períodos da civilização, e o progresso do recalcamento
na vida espiritual da humanidade fazem com que os fantasmas infantis, que em Édipo
são exteriorizados e realizados sejam reconhecidos em Hamlet com mais
dificuldade, uma vez que estão recalcados. Dessa forma, esta obra funda-se
sobre a hesitação de Hamlet em cumprir sua vingança -
o assassinato do assassino - que seu pai, que lhe aparece como fantasma, lhe
pede. Freud não acha satisfatória a idéia de Goethe, segundo
a qual a suspensão da ação é uma conseqüência
do desenvolvimento do pensamento. Não está de acordo em dizer
que Hamlet está detido em seus atos em geral. Alega que essa detenção
refere-se somente a esta ação que o arrasta no domínio
do fantasma infantil do assassinato do pai, onde matar Claudius, o assassino
do pai, é de uma certa forma matar-se.
Lacan, entretanto, discorda de Freud quanto a que os modernos sejam mais vacilantes
que os antigos simplesmente por causa do desenvolvimento do recalcamento. Segundo
Lacan, a diferença fundamental entre um personagem e outro é que Édipo
executa seu ato antes mesmo de nele pensar e sem o saber 11. Assinala
que a questão do saber é o fio condutor da tragédia de Édipo.
Eu diria que o saber é a armadilha na qual Édipo é pego.
Primeiramente, endereça-se ao oráculo para conhecer suas origens.
Existe então um equívoco quanto ao que o oráculo lhe diz
e o que ele compreende. Em seguida, mata um homem, seu pai, sem o saber. Este
homem também não sabia o que lhe acontecia. Então Édipo,
que apesar de tudo toma-se por sábio, decifra o enigma da esfinge que
aterrorizava os tebanos. Este saber o leva, sem que ele o saiba, a um casamento
incestuoso com sua mãe, que lhe é oferecida como um prêmio;
e ao mesmo tempo ele ganha o reino.* Quando tudo parece calmo em Tebas, a peste
aterroriza novamente e acusa uma falta no nível do saber. Para que ela
se acalme, é preciso saber quem matou Laios. Édipo toma para
si esta tarefa. E ele atinge enfim, verdadeiramente o saber desejado, mas ao
preço de não mais ver. * Fura seus olhos face ao horror de saber
sobre seus atos, e em seguida não pode mais agir sem a ajuda do outro,
salvo no momento em que ele caminha em direção a sua desaparição
em Édipo em Colona.
Em Hamlet, a relação ao saber é completamente diferente.
Ele conhecia o assassino de seu pai, porque este último apareceu como fantasma para
revelar-lhe a verdade de sua morte. Lacan observa que essa revelação
expõe algo de fundamental na articulação inconsciente.
Pode-se dizer que ela desvela o caráter assassino da afirmação
desejante* , o que antes permanecia na ignorância. Este caráter
assassino está presente tanto na dimensão de ultrapassar o outro
na rede de parentesco, na medida que se toma seu lugar na cadeia simbólica
- o filho que se torna pai e assim por diante -, quanto na dimensão
que concerne à morte consentida do sujeito mesmo, do fato de ter se
tornado sujeito do desejo. Isso porque pela via do desejo, o sujeito perde
sua ilusão de consistência, uma vez que enquanto desejante ele
encontra-se no lugar de seu desejo, ou seja no lugar da falta que é o
móbil deste. Seu desejo não é um objeto, mas a evanescência
ofuscante de toda relação ao objeto, mesmo se o objeto visado é o si
mesmo.
Eis o ponto de parada do percurso heróico de Descartes. Ele queria caminhar
na sua vida com segurança, queria a certeza e a acreditava verdadeiramente
possível. Então encontra uma maneira de apoiar a certeza desejada
sobre a dúvida, na associação: se eu duvido, não
há dúvida de que eu penso, e se eu penso, então eu sou.
Encontra uma forma de capturar a dimensão errante de sua subjetividade,
alienando-a em um Eu que pensa, que sabe, e toma a Deus - o suposto
tudo saber - como assegurador desta operação.
* Comunicação
particular: Isto é o curso natural das
coisas, por ordem
da Mãe. Só se torna
trágico porque o ser humano nasce
contra a natureza, contrapondo-se à natureza.
De modo que o ser humano é o ser ao
qual FALTA a natureza. É essa FALTA
de natureza, falta de mãe, que é ocupada
(pela iniciação) pelo Espirito,
o feminino, travestido de Espírito
Santo, ou “conhecimento intuitivo”,
ou GNOSE. O conhecimento passa a ser a nossa
maneira de lidar com o recalque, daí carecer
sempre de JUSTIFICAÇÃO (inclui “justiça”).
O ethos do
homem é o seu destino. Que lástima!. (Sérgio
Fernandes)
* Comunicação particular: Ter vontade própria era
impossível na Natureza. O pai é assassinado para aplacar a Mãe.
O “desejo” nada mais é do que a “morte” da Mãe
por recalque. Se o pai é que move, “fá-lo” no lugar
da Mãe recalcada. (Sérgio Fernandes) Eu diria que talvez
não necessariamente.
Na
danação de Hamlet, a armadilha
do saber e a captura do sujeito do desejo.
O que na psicanálise
chama-se resistência indica a medida
de proteção que faz com que
o sujeito recue face ao peso deste saber
terrificante: o saber que implica a evanescência
do sujeito enquanto desejante. Espero poder
demonstrar como se pode perceber no percurso
de Hamlet que a tragédia do desejo é a
tragédia da subjetividade. Não é certamente
uma casualidade que Shakespeare e Descartes
sejam contemporâneos, o que implica
terem participado do mesmo contexto de civilização.
Na introdução de sua tradução em francês
do texto de Hamlet, François Maguin, a propósito desta época
civilizatória, observa:
A Renascença traz nela os germes de uma crise na
qual a tragédia da vingança é particularmente
apta para revelar os signos. As tensões que vêm à tona
fissuram já desde muito tempo a aliança dos valores
cristãos e do pensamento herdado do mundo antigo 12.
Penso que se pode dizer que esta vingança, a qual Magin refere-se quando
fala em tragédia da vingança, evidencia a relação
ao saber como uma armadilha, dado que nela, a subjetividade encontra seu lugar
ao preço do evanescimento do próprio sujeito. Parece-me que esse
evanescimento é bem apresentado nas obras de arte da época barroca,
que dão uma forma a esta tensão, a esta crise. Esta última,
em germe na Renascença, encontra no barroco a expressão de um
tipo de exaltação, que coloca em cena a imagem daquele que está fora
de si; daquele que alheio à subjetividade está mergulhado num
gozo do Eterno, gozo de Deus, e que entretanto, paradoxalmente, exibe o corpo
em uma dimensão que tange ao obsceno, como Lacan o sublinha 13.
Há aí a indicação de uma conjunção
entre a alma enquanto divina, e o corpo que deixa ver o que não é visível,
o que é “fora do si mesmo”. Esta em minha opinião é a
dimensão mais expressiva dos efeitos de ilusão de ótica
promovidos pelo barroco.
Rodis-Lewis, no prefácio do Discurso do método, privilegia
este aspecto do barroquismo de maquinarias e de ilusões
de ótica, como uma coisa relevante ao contexto de Descartes. Comenta
a intenção deste de edificar uma “ciência dos milagres” sobre
as “matemáticas”, o que implica uma problematização
da nossa adesão espontânea ao mundo que nos envolve. Descartes
quer estabelecer a questão do saber e da subjetividade sobre um terreno
preciso. Mas não seriam eles, o saber e a subjetividade, ilusões
de ótica privilegiadas, onde o desejo desempenha um papel fundamental
a respeito da relação especular estabelecida entre esses dois
elementos?
Lacan consagra grande parte de seu seminário O desejo e sua interpretação,
ao comentário da relação de Hamlet ao desejo, e suas conseqüências
sobre o saber e a subjetividade. Antes de deles me servir porém, cumpre
relembrar parte da história da tragédia de Hamlet, apesar
do risco de traí-la. Creio, entretanto, que a traição
que posso cometer contando essa história, não é danosa,
mas antes, um gesto de fidelidade ao meu tema, por ser a via pela qual a minha
subjetividade, ou qualquer coisa de meu desejo marca com sua presença
estes escritos e, de certa forma os anima. A vida envolve sempre a traição,
o medo de uma certa desordem, ou mais precisamente, de uma certa tragédia.
A desordem é o ponto de partida do Hamlet de Shakespeare. Os
guardas no terraço de Elseneur estão assombrados com a aparição
do fantasma do rei, pai de Hamlet, morto recentemente. Hamlet ainda não
foi comunicado sobre tais aparições. Está indignado com
a rapidez do casamento de sua mãe com um homem que é absolutamente
inferior a seu pai e que vem a ser, justamente, o irmão do seu pai.
Referindo-se a isso ele pronuncia a famosa frase: “Avareza, avareza,
Horacio! Os assados dos funerais foram servidos frios na mesa das bodas.” Ele
exalta seu pai, um modelo de homem, quando proclama: “Este era um
homem, dizer isto é dizer tudo: Jamais eu verei um parecido!”14 .
Compara-o a Hypérion. Além disso, era um homem que amava sobremaneira
sua mãe, “que não permitia aos ventos do céu
tocar demais rudemente sua face”. E assim lamenta: “fragilidade!Teu
nome é mulher” 15. Curiosamente, qualifica de
incestuoso o novo casamento da mãe. O que me faz pensar de que incesto
aí se trata.
Na cena seguinte, Ofélia, personagem chave para nos indicar os diferentes
tempos da relação de Hamlet ao desejo, como veremos mais adiante,
faz sua primeira aparição. Ela é duramente advertida por
seu irmão e por seu pai dos riscos do desejo, e mais precisamente, do
perigo que o desejo de Hamlet por ela representa. Seu irmão lhe pede
que ela suspenda sua afeição e lhe diz: “Atente a isso:
a verdadeira segurança é filha do medo” 16.
Em seguida, Hamlet reencontra o espectro de seu pai, do qual seu amigo Horácio
lhe havia falado enquanto ele se queixava do novo casamento da mãe.
O clima inteiramente estranho faz com que o guarda Marcelus aperceba-se de
que “qualquer coisa está podre no reino da Dinamarca” 17,
lugar onde se desenrola a narrativa. O encontro obedece a hora do fantasma
que não está aqui fora do tempo. Ele tem sua hora marcada. Sua
hora é mesmo Uma. Esta relação ao tempo será discutida
mais tarde.
O espectro
lhe diz:
Eu sou o espírito de teu pai,
Condenado por um tempo a assombrar a noite.
E de dia a jejuar nas chamas
Para que as culpas todas praticadas em meus dias aqui em baixo
Sejam purgadas pelo fogo. Se não fosse proibido
Dizer os segredos de minha prisão,
Eu revelaria um conto no qual a menor palavra
Te rasgaria a alma e gelaria teu jovem sangue;
... 18
O pai aparece aqui como condenado, culpado, em uma situação terrificante
e denuncia seu assassino. Ele conta que ele estava dormindo à tarde
no jardim, quando Claudius, seu irmão, verteu veneno em suas orelhas,
e então:
Privado ao mesmo tempo, da coroa e da rainha,
Ceifado na plena flor de meus pecados,
Sem sacramento, sem confissão, sem unção,
Sem me ter colocado em ordem, enviado a meu juiz
Com o fardo dos meus erros na cabeça. 19
Lacan nos
convida a nos interrogar a respeito das diversas
expressões da função
do pai no percurso da história da
humanidade, através do conteúdo
das tragédias. Observa diferentes
graduações, diferentes níveis
de incidência da função
do pai, desde a tragédia antiga até a
contemporânea 20. No terceiro
ato deste meu texto, ao abordar a tragédia
contemporânea, será possível
me estender sobre este ponto. No momento
viso somente sublinhar a posição
do pai condenado que o pai de Hamlet encarna.
Lacan interroga-se quanto à danação
do pai de Hamlet não ser a danação
ligada ao fato de que aqui o pai começa
a saber 21, o que conecta o saber à danação.
Para a psicanálise, é um dado
interessante que a morte do pai de Hamlet
aconteça através disso que
entra pelas orelhas. As palavras pelas quais
se tenta apreender aquilo de que se trata
na relação ao saber, também
entram pelas orelhas.
Ao mesmo tempo, a posição deste pai referido como homem ideal,
de maneira excessiva por Hamlet, é já bem suspeita, ou, melhor
ainda, bem duvidosa. Apesar de todas as virtudes que lhe asseguram o respeito
de todos, foi surpreendido na flor de seus pecados. Ele é pecador, logo,
há uma dívida que fica como a herança de seu filho 22.
Esse pai apresenta-se como aquele que está em falta em relação à Lei,
o que traz conseqüências importantes para a maneira pela qual seu
filho “se vira” com o desejo que não subsiste senão
pela Lei. A sabedoria popular reza que o que é mais desejado é justamente
o que é proibido, e, então, se a interdição mostra-se
frágil, o desejo também está comprometido, como nós
poderemos ver em Hamlet.
O lugar da luxúria aparece, nesta tragédia, do lado do desejo
da mulher, no caso, a mãe de Hamlet. Esta luxúria é o
escândalo que faz tombar a imagem casta e plena de virtudes da rainha.
O espectro convoca Hamlet a não somente vingar seu assassino, mas também
deter este escândalo. A única outra aparição que
o espectro fará mais tarde, será justamente para pedir a Hamlet
que se interponha entre a rainhae sua luxúria, textualmente “ela
e sua alma”.
Então, diante dessa experiência bizarra que Hamlet acaba de viver,
ele conclui que “existem mais coisas no céu e na terra, Horácio,
do que pode sonhar nossa filosofia” 23. Em efeito, portador
de um segredo bastante pesado, sua tarefa não é fácil,
até porque Hamlet cobra-se um certo tipo de restauração
do tempo. Ele diz: “Este tempo está desconectado. Maldita
seja a sorte que me fez nascer para que eu o restaure” 24.
Para isso, ele acredita que será útil, daí por diante,
se “cobrir com a máscara de um bufão” 25,
o que me parece ser o ponto de partida da falsa loucura que manifestará logo
depois.
Ofélia conta seu encontro com Hamlet, sublinhando o caráter bizarro
de seu comportamento. Ela diz:
O senhor Hamlet, com o gibão aberto,
Sem chapéu na cabeça, as meias
Sem ligas, caídas nos tornozelos,
Pálido como sua camisa, os joelhos tremendo,
E com um olhar piedoso
Que se teria dito que saído do inferno
Para relatar-me seus horrores, ele vem até a mim.
...
Ele me toma o pulso e me segura firme.
Aí, ele recua com toda a extensão de seu braço
...
Ele exala um suspiro tão piedoso, tão profundo
Que este sopro parece lhe prostrar todo o corpo
E colocar termo a sua vida. Então ele me libera,
E com a cabeça virada para baixo de seu ombro,
Ele parece encontrar seu caminho sem seus olhos 26
Polônios,
seu pai, conclui disso que a causa da loucura
de Hamlet é seu amor por Ofélia. É a
paixão que engendra a loucura, observação
que não é sem fundamento. Apressa-se
então em contar à rainha e
a Claudius, o novo rei, mostrando-lhes uma
carta de Hamlet a Ofélia:
...Querida Ofélia, sou um mal versificador, não
sei a arte de medir meus suspiros. Mas eu te amo acima de tudo.
Adeus. O teu para sempre, para você, a mais querida,
enquanto esta máquina me pertencer, Hamlet. 27
Diante disso uma vigilância em torno de Hamlet é organizada e,
para sondá-lo, seus falsos amigos, Guildentern e Rosencrantz, são
utilizados. Em sua conversa com eles Hamlet define o homem, esta maravilha
nobre por sua razão e infinita em suas faculdades, como “esta
quintessência de poeira” 28, que não lhe
outorga nenhuma delícia, e ele acrescenta de imediato que, aliás,
nem à mulher tampouco. É neste momento que seus ‘amigos’ lhe
sugerem acolher os artistas com os quais já havia cruzado na estrada,
Hamlet já os conhecia.
Ao vê-los recitar uma passagem de uma tragédia sobre o fim de
Tróia, O assassino de Priamo, Hamlet tem a idéia de
lhes convidar para representarem diante da corte esta mesma peça, cujo
texto acabara de modificar, acrescentando algumas situações,
de maneira a expor a forma pela qual seu pai foi assassinado. Eis então
o que se denomina a play scène, “o teatro sobre o teatro” 29,
que é a armadilha destinada a surpreender a consciência do rei.
Ele o fará de modo que os atores representem o assassinato de seu pai
diante de seu tio, porque ele quer ver este último trair-se perante
todos.
A
arte do teatro no “mais além” da
representação
O “teatro sobre o teatro” parece reforçar, elevar à “segunda
potência” a função do teatro. Por que teria sido
pela via da tragédia que o teatro começou? Que tipo de adesão
ele conseguiu estabelecer com o homem? Qual é a função
da representação? Estas são questões próximas
ao tema de meu trabalho, e certamente as respostas que se pode ensaiar não
são simples, pois se toca aqui na questão da arte — a verdadeira
atividade metafísica do homem, como Nietzsche bem o assinalou no Nascimento
da tragédia.
Lacan procura abordar essas questões quando concebe a tragédia
de Hamlet como uma composição em que “todos
os problemas da relação do sujeito ao desejo podem ... se projetar” 30.
A função do inconsciente, definida como o discurso do Outro 31,
cadeia que engaja o desejo do sujeito, presentifica-se neste discurso perfeitamente
composto, proferido pelo ator que o encarna e lhe empresta seu corpo. Por este
recurso ele constrói a ponte imaginária em relação
ao discurso do Outro, que nos é, ao mesmo tempo, muito íntimo
e muito estranho, muito próximo e sempre alhures — “Outro” que é ponto
de referência e de perdição. Ele tem este caráter
que Lacan em seu seminário da Ética tinha nomeado como extimidade,
exterioridade íntima. Creio que neste contexto temos alguns signos do
caráter metafísico do Outro.
A obra de arte seria este objeto que teria o poder de nos remeter a um domínio mais
além daquilo que apresenta de imediato. Como já comentei
no capítulo anterior, Lacan assinala que a arte é uma organização
em torno do vazio que está no centro da nossa existência. Ela
não recusa nem rejeita este vazio. Com efeito, através da ficção
que cria, ela ao mesmo tempo o apresenta e o encobre. É assim que compreendo
essa transmissão de um mais além que a arte é capaz
de fazer. Seu caráter é aquele que nós atribuimos a seu
autor e ela é “reputada nos emocionar pela transmissão
dos traços deste caráter”. E, então, “ por
apenas esta sinalização, nós já seríamos
introduzidos em uma espécie de realidade suposta que estaria mais além
disto que nos é dado na obra de arte” 32. Utilizamos
a obra de arte e, mais especialmente, as obras dramáticas, como uma
espécie de espelho onde cada um de nós olha-se a sua maneira,
apreendendo algo do caráter do herói que tem relação
conosco.
Acrescenta que é através do domínio imaginário
da relação com o corpo, que fornecemos o material do significante.
Contra a crítica de fazer uma teoria da análise incorporal, crítica
feita pelos que conhecem sua teoria à distância, Lacan responde:
É com nossos próprios membros - o imaginário é isso
- que nós fazemos o alfabeto desse discurso que é inconsciente
e, bem entendido, cada um de nós dentro de relações
diversas, porque nós não nos servimos dos mesmos
elementos para sermos tomados no inconsciente. 33
O imaginário, portanto, apresenta essa encarnação do significante,
pela qual nós temos os elementos do discurso inconsciente. O corpo pode
ser pensado como o teatro do discurso do Outro. De maneira análoga,
o ator não representa como uma marionete, mas ele empresta seu corpo
cartografado por uma história que é a sua. Uma história
que tem todo o peso de seu inconsciente para representar o discurso do Outro,
no caso, o poeta, e que, às vezes, já está morto há muito
tempo. Ele vai então representar com mais ou menos compatibilidade,
e é isto que dá dimensão ao sucesso de seu trabalho. As
implicações de seu desejo se arrastam, portanto, sobre a cena.
A
incidência trágica da versão
moderna do crime de existir e a função
da sustentação do paradoxo
Se Hamlet
toma a estratégia do teatro sobre
o teatro, em busca do lugar de seu desejo,
através de um tal espelho, é porque
ele não consegue fazê-lo de
outro modo. Eis o que o impele a se fazer
as mais duras repreensões, violentas
acusações, que às vezes
se confundem com as acusações
que ele faz a seu tio. É no intervalo
entre a idéia de mandar representar
a play scène e sua realização
que Hamlet, justamente diante de Ofélia,
se põe a questão:
Ser ou não ser. Eis a questão.
É mais nobre para a alma endurecer
e suportar os arremessos das flechas da injusta fortuna,
Ou armar-se contra o mar das desventuras
E lhes fazer face para que se acabem. Morrer...dormir,
Nada mais; e no sono imaginar que se acabaram
Os sofrimentos do coração e os mil choques naturais
Dos quais a herdeira é a carne: tal é o desfecho
A desejar de joelhos. Morrer...dormir;
Dormir...talvez sonhar: sim, eis onde se tropeça.
Porque neste sono da morte, não se sabe quais sonhos advêm
Quando se está ao abrigo do turbilhão de viver,
É preciso aí se deter... eis o pensamento
Onde nasce a calamidade de uma longa vida. 34
Ofélia é a única
que fica em cena para testemunhar a vacilação
de Hamlet, quando este precisa escolher entre “ser” ou “não
ser”. Em efeito, o poder da escolha
tem a dimensão radical do peso da
existência humana, revelando seu caráter
não natural, justamente porque se
tem escolha. Ou seja, a vida não é mais
simplesmente a conseqüência natural
do fato de se ter nascido, mas um dos termos
de opção. Através de
seu saber sobre o pecado, herança
que lhe adveio de seu pai, Hamlet, diferentemente
de Édipo, sabe desde o início
da trama “que ele é culpado
de ser...ele conhece o crime de existir” 35.
E é exatamente por isso que ele se
põe a questão ser ou não
ser.
Creio que aqui estamos diante da questão mais inelutável de toda
tragédia, e de maneira semelhante, de todo processo psicanalítico
que chega a se efetivar. A esse respeito, não é simplesmente
a questão da possibilidade dramática do suicídio que é colocada
em cena. No suicídio, acontece nem sempre, mas freqüentemente,
que o sujeito esteja fora de si mesmo, esteja em uma situação
desesperada na espera do encontro com uma outra vida que não tenha o
peso do pecado; o sujeito está aí dirigido a este mais além.
Porém no contexto trágico, seja ele teatral, seja ele psicanalítico, é de
outra coisa que se trata. O herói trágico, ou o sujeito, não
está aí fora de si mesmo, mas desdobrado no mais íntimo
deste “si mesmo”. Está aí com todo o peso
de sua potência e de sua fraqueza, diante de uma escolha inteiramente
particular que ninguém pode fazer em seu lugar e que tem os efeitos
da perda da inocência. A escolha, qualquer que seja ela, com tudo o que
contém de alegria e de sofrimento, está pronta para não
ser lamentada, mas sobretudo celebrada pelo sujeito que assume sua responsabilidade.
Não se trata da responsabilidade que provém de uma pressão
moral, mas de uma decisão ética que parte do desejo.
A função do analista neste momento é fundamental. Ela
consiste em não recuar diante da complexidade das variáveis que
estão em jogo nesta escolha onde o analista, ele também não
inocente, se sustenta enquanto testemunho da interrogação do
sujeito, até o ponto de maior proximidade possível a seu desejo.
Sustentar a interrogação não é uma tarefa fácil,
sobretudo quando a questão é tão grave. Está-se
sempre tentado a precipitar uma resposta, seja ela qual for; existe sempre
a tentação de elidir o paradoxo que esta posição
abriga, e que é inerente à própria condição
humana. Creio ser este um ponto absolutamente crucial na articulação
entre a tragédia e a experiência psicanalítica.
Esta tragédia de Shakespeare mostra bem em que medida nós somos,
ao mesmo tempo, culpados e vítimas, seja qual for nossa escolha.
O terreno do paradoxo é fértil para não esconder o que
está em jogo, para não simplificar nenhum dos pólos da
verdade. O inconsciente, com sua maneira bizarra de funcionar aos olhos da
consciência, exprime os efeitos, sobre o sujeito da afirmação
de verdades que não são apenas heterogêneas, mas também
antinômicas. A psicanálise, como a tragédia, se sustenta
no paradoxo. Não se trata de otimismo, nem de pessimismo, nem romance,
nem drama, mas de diferentes expressões do encontro do homem com uma
face do real. Este real não pode, efetivamente, ser sustentado pelo
pai, nem por seu nome, seja ele qual for, nem por qualquer fiador do saber,
tampouco por nenhuma verdade pretensamente plena e inteiramente apreensível.
Existe aí um jogo de forças entre as diferentes figurações
da verdade.
Retomemos “nossa
história”. Hamlet se pergunta
se é mais nobre sofrer ou se acabar,
dormir o sono da morte. Quando lemos: “este é o
desfecho a desejar de joelhos. Morrer...dormir;
dormir...talvez sonhar: sim, eis onde se
tropeça.” 36 ,
vemos que ele sublinha curiosamente os sonhos
como o ponto onde se tropeça, se encontra
um obstáculo. No evento do sonho estamos
novamente diante de um paradoxo. Ela abriga,
ao mesmo tempo, o convite à morte,
mas também é o ponto de partida
para uma longa existência, porque,
como Freud salientou, o sonho é um
meio de realização do desejo.
Neste contexto, o fantasma atrelado ao desejo
busca fazer um acordo com o pensamento. Destaco
aqui esta relação entre o sonho
e o pensamento, no intuito de remeter à abordagem
que foi feita de Descartes, no que concerne
aos sonhos.
O
pai endividado e a pendência ao nível
do desejo
Todos os atos
de Hamlet dependem da posição
que ele toma em relação ao
seu desejo, ou seja, em relação àquilo
que ele pode saber sobre o seu desejo. Lacan
fala de uma retificação ao
nível do desejo como exatamente aquilo
que torna o ato possível 37— o
que vai implicar inteiramente a questão
do pai. Ou seja, se o pai, suposto assegurador
da Lei, aparece a Hamlet como uma pessoa
que não pagou sua dívida — a
dívida do crime de existir— se
ele aparece como aquele que tentou escapar
da Lei, que em última instância,
não é senão a lei da
castração, conseqüentemente,
isto compromete a posição desejante
de Hamlet. A castração ao indicar
a incidência da falta, que abre a possibilidade
ao sujeito de fazer a assunção
do seu desejo. Isto torna a castração
fundamental para o advento do desejo. Será preciso
que qualquer coisa venha funcionar como meio
de castração, para que Hamlet
possa reencontrar o vigor de seu desejo e,
com isso, a afirmação de seu
ato. A fatalidade da peça é que
esta coisa será a morte, que operará como
agente da castração, primeiramente,
a morte de Ofélia que lhe fará afirmar
o amor que ele, a uma certa altura, recusara,
e depois sua própria morte, quando é somente
ferido de morte que ele matará Claudius.
É ainda no contexto precedente, aquele da vacilação, que
Hamlet se queixa da consciência, do pensamento que, tentando se substituir à dimensão
radical da lei, nos torna covardes. Ele nos torna fixados em nossas próprias
desgraças, afastados dos atos que seriam mais próximos do desejo.
Coerente com esta vacilação, Hamlet recusa seu amor à Ofélia
e lhe dirige violentos insultos, quando se apercebe da falta de pudor da mulher,
atestada pelo seu destino de casar-se e de colocar filhos no mundo. Lacan sublinha
que Hamlet repele Ofélia de uma maneira sarcástica e cruel, exatamente
porque ela pode tornar-se mãe. Pode tornar-se uma mãe como a sua,
aquela que para ele está marcada com o selo da luxúria. Ele dirige
a Ofélia palavras como:
...o poder da beleza levaria menos tempo para transformar
a honestidade se intrometendo antes que a força da honestidade
tenha podido modelar a beleza à sua imagem...Eu te amei
em outros tempos... Nunca te amei... Vá para um convento.
Quererias então procriar pecadores? 38
A pobre Ofélia cai na mais absoluta decepção e reconhece
na recusa, a loucura de Hamlet. Creio que se pode dizer: a verdadeira loucura
de Hamlet.
Então, o momento do teatro sobre o teatro chega. Hamlet escolheu seu
lugar para assistir o espetáculo, estendendo-se aos pés de Ofélia
com a cabeça no seu colo. Ele joga sarcasticamente com ela, e amaldiçoa
a alegria da Rainha, enquanto condena a fugacidade do amor da mulher. O espetáculo
começa com uma pantomima que expõe a cena do assassinato do Rei
tal como o espectro lhe havia contado. Em seguida, a peça que é representada, A
Ratoeira, vem reforçar a denúncia do assassinato.
O objetivo é atingido. O rei, emocionado, se trai. Levanta-se e interrompe
a peça, pedindo luzes, talvez as luzes da razão, pela qual se
pode obscurecer a verdade do desejo... Logo, Hamlet não tem mais nenhuma
dúvida... nenhuma dúvida sobre a culpa de um Rei. Segundo
Lacan, a play scène serve para mostrar nitidamente o que se
designa como a estrutura de ficção da verdade 39.
A verdade disfarçada encontra aí seu justo lugar. Através
deste desvio Hamlet tenta se reorientar diante de suas ações.
É convocado com urgência junto à sua mãe, e no caminho
que o conduz a ela, vê sem ser visto, Claudius atordoado, rezando, pedindo
perdão a Deus por seu crime, de joelhos. Ele tem aí a esperada
oportunidade de mata-lo, mas neste momento, pensa que se o fizer, dará a
Claudius a graça que seu pai não teve. Ou seja, a graça
de morrer com as contas ajustadas com Deus, o que lhe permitiria escapar do inferno,
ou mesmo do purgatório. Por isso, não o faz, e prossegue seu caminho.
Lacan assinala que o último momento de uma existência parece ser
aqui concebido como “esta barra colocada em baixo das contas da vida”, qualquer
coisa que faz com que “o ser fique idêntico a tudo isto que
ele articulava pelo discurso de sua vida, e aí não há mais “Ser
ou não ser”, mas o “ser”, que seja ele qual for, resta
eterno” 40. Não é à toa
que na sabedoria popular este momento último é referido como
a hora da verdade. É a hora onde nós temos Um encontro
marcado, o qual, qualquer que seja, reencontra-se nele o que na tragédia
grega era designado como a Até. Também Hamlet quer surpreender
Claudius no momento onde ele estará na flor de seus pecados,
tal como estava seu pai quando foi assassinado. Isto para que ele possa ficar
assegurado da eternização de seu sofrimento. Depreende-se portanto,
que a morte não é suficiente para a tragédia: é preciso
algo a mais.
Hamlet prossegue o caminho em direção à sua mãe
e, com efeito, aí estamos diante de um dos momentos mais fortes da peça,
onde localiza-se a dimensão sexual do desejo, e mais precisamente, do
desejo desta mulher. E quando se trata do sexual, todo o peso da morte está presente,
mesmo que seja por trás da cortina. Não há necessidade
de cientistas para prová-lo, nem de fantasmas para sabê-lo. Lembremo-nos
de que Polônios, um pai, o pai de Ofélia, esconde-se atrás
da cortina quando Hamlet entra no quarto da rainha. No início do diálogo,
quando a rainhase dá conta de uma certa tonalidade assassina no desejo
de seu filho, que entretanto também a ama, Polônios comete a imprudência
de se mexer. Hamlet se precipita sobre a cortina lançando um golpe mortal
e, cinicamente, pergunta: “Mas eu não sei nada. Não
era o Rei?” 41
Era evidente que não se tratava do rei. Este, ele acabara de encontrar.
E então o cadáver de Polônios fica lá durante toda
a cena, o que parece muito estranho. Ele permanece como o testemunho deste
diálogo que se prolonga, e que tem por tema a sexualidade, a luxúria,
o desejo da mãe. Hamlet lhe pede muito nitidamente:
...não vás ao leito de meu tio,
imiteis a virtude se não a tens.
O hábito, esse demônio que devora a consciência,
nisso é um anjo,
pois para o uso de ações boas e belas
ele empresta vestimenta ou capa externa,
que lhes vão bem. Abstenha-se esta noite
E isto vos fará encontrar com mais facilidade
a próxima abstinência; a seguinte, mais ainda.
Porque o uso consegue quase modificar a natureza. 42
É neste momento, como já mencionei, que o espectro aparece em segredo
a Hamlet, pedindo-lhe que se meta “rápido entre ela e sua alma” 43.
Eis a via por onde podemos evidenciar a divisão do sujeito, o corte entre
ela, a rainha, e ela mesma, a alma que a concerne. Em relação a
isso, é preciso também sublinhar a intervenção da
sexualidade, como fator da operação de divisão do sujeito.
Divisão entre o Eu (je) e o Eu(moi), e que deve ser
escrita com um (S) de sujeito, sobre o qual recai uma barra ($), como propõe
Lacan.
Essa missão - interpor-se entre ela e sua alma - é talvez a tarefa
mais difícil de Hamlet. A sexualidade aparece como o que subverte as
coisas, o que desafia as injunções do Eu (moi). É por
isso que Lacan, diferentemente das análises feitas tradicionalmente
acerca de Hamlet, que privilegiam o desejo deste por sua mãe, coloca
no primeiro plano da articulação da trama, a questão do
desejo da mãe 44.
O caráter impuro do desejo se apresenta como inelutável e desempenha
nesse momento seu papel principal. Hamlet bem sabe que é impossível
eliminar essa “impureza”. Lacan assinala que toda a dificuldade
que Hamlet tem em executar o assassinato de Claudius, esbarra neste saber.
A impureza do desejo que sua mãe exibe, ele a encontra nele mesmo, e é por
isso que apesar de todas as razões que tem para matar Claudius - a ordem
do pai e seu amor por ele, além da vontade de defender a mãe
-, ele adia seu ato. Lacan argumenta: “É na medida em que
sua ação não é desinteressada, que ela é kantianamente
motivada, que Hamlet não pode realizar seu ato.” 45
Todo esforço de Lacan consiste em propor uma ótica a partir do
desejo da mãe, a fim de mostrar os efeitos ainda mais tocantes que podem
aparecer quando o desejo de Hamlet vem ao primeiro plano. É sem dúvida
a tragédia da subjetividade que se encontra contida na fórmula
lacaniana: o desejo do homem é o desejo do Outro, demonstrado
na cena do diálogo de Hamlet com sua mãe. Isto se evidencia de
maneira mais completa, quando se toca a questão do desejo como, paradoxalmente,
o ponto de anulação do sujeito.
No fim-da-linha não
há Outro do Outro que garanta coisa
alguma
Em nome de
seu pai, Hamlet, clamando por decência,
pudor, ordem, se dirige a este “Outro”,
que neste momento a mãe encarna. Mas
este Outro, longe de se colocar aqui como
ponto de asseguramento, desvela isto que
está mais além, este mais
além diante do qual é preciso
se curvar. Ou seja, o nível do código,
da ordem não é suficiente para
dominar as expressões do desejo. A
rainha o diz:
Oh Hamlet, não diga mais nada!
Tu me fazes voltar os olhos para o mais fundo da minha alma
E lá vejo manchas tão negras, tão tenazes
Que elas não perderão jamais sua cor. 46
Com efeito,
a mancha negra estará sempre lá,
no mais fundo da alma. A mãe fala
de algo que está para além
dela mesma, de modo que não há nada
a fazer. Então é sobre este mais
além do Outro que se dirige a
interrogação do sujeito. Sobre
a mancha negra, o enigma, a obscuridade do
desejo do Outro, do desejo que atravessa
o Outro, que o desejo do sujeito se erige,
buscando encontrar sua expressão através
das demandas, das articulações
significantes, que não são
jamais capazes de o apreender inteiramente.
Assim se configura a impossibilidade estrutural
de ultrapassar a interrogação
sobre o desejo do Outro. A interrogação: o
que queres?, impossível de ser
respondida definitivamente, acarreta uma
fratura no sujeito em sua relação
com seu próprio desejo, com o que
ele pode constituir acerca deste. Não é sem
motivo que Lacan pinça tal interrogação
da boca do diabo terrível que assombra
o protagonista no romance de Cazote, O
diabo enamorado. Neste, o monstro que
se metamorfoseia em cachorrinho, rapaz, ou
jovem sedutora não se cansa de perguntar: Che
vuoi?
Lacan explica que o grande Outro não é um ser, mas o lugar da
palavra. Quando ele se serve do signo S(A/), é para dizer que neste
lugar da palavra, onde repousa sob uma forma desenvolvida, ou sob uma forma ‘envelopada’,
o conjunto do sistema dos significantes, isto é, de uma linguagem, falta
alguma coisa. Algo que pode não ser senão um significante que
aí faz falta. O significante que faz falta ao nível do Outro,
e que dá o valor mais radical a este S(A/), é isto que é,
se assim posso dizer, o grande segredo da psicanálise...: não
há Outro do Outro. 47
Isto quer dizer que não há no Outro nenhum significante que possa
verdadeiramente responder sobre isto que eu sou. A essência da verdade
atribuída ao Outro não é senão suposta, nada a
garante. Isto desencadeia uma abordagem do sujeito inteiramente diferente daquela
da filosofia tradicional. Nesta última o
sujeito se subjetiva a si mesmo indefinidamente. Se eu sou na medida que eu
penso, eu sou enquanto eu penso que sou, e assim por diante, isto não
tem nenhuma razão de parar. A verdade é que a análise
nos ensina algo de inteiramente diferente. É que já se percebeu
que não é seguro que eu seja enquanto eu penso, ... Somente isto
que a análise nos ensina, é que eu não sou este aí que
justamente está pensando que eu sou, pela simples razão de que
do fato de que eu pense que eu sou, eu penso no lugar do Outro; eu sou um outro
daquele que pensa que eu sou. 48
Assim, é o significante escondido, este significante do qual o Outro
não dispõe, é esta verdade absolutamente fechada de todo
sentido, que poderia justamente dizer isto que eu sou. Aí nós
temos a parte sagrada e sacrificada do Logos, que fica sempre alhures.
Segundo Lacan, é isto que faz o sentido da tragédia de Hamlet,
porque o herói se situa sobre este ponto de interrogação
sobre o desejo do Outro, no qual a subjetividade se constitui e se articula.
E eis a fonte do enigma que mexe com a vida lá no ponto onde o desejo
toma seu lugar. Aí, paradoxalmente, a irrupção e a queda
do sentido coincidem.
Apesar das diferenças nas perspectivas, Fernandes me parece próximo
da questão acima levantada quando esclarece: “Se sei quem
sou, então já não sou exatamente o que sei. Se me identifico
com alguma coisa, então o que sou é justamente o que não
sei que sou.” 49 Entretanto, o tratamento
que ele dá ao assunto, através de sua conceituação
singular das categorias de consciência e inconsciência, demandaria
um estudo minucioso para que pudessem ser tecidas maiores considerações
a respeito.
O enigma do qual se trata na questão do desejo, não indica uma
ausência de verdade ou um tipo de relatividade absoluta, mas uma verdade
escondida da qual não se tem senão seus efeitos operantes. Lacan
afirma: “este desejo que, flutuando aí, em alguma parte, mas
sempre neste mais além do Outro, este desejo é submetido a uma
regulação, a uma certa altura, se eu posso dizer, de fixação
- que é determinada. Determinada pelo que?” 50Determinada
por isto que faz um retorno do inconsciente como lugar do código, lugar
do discurso, em direção ao que se apresenta sobre o plano imaginário,
ou seja, o que se coloca de maneira privilegiada sobre o plano do fantasma.
Então o fantasma é esta espécie de regulagem imaginária
disto que não é visível, de forma que existe este caráter
ambíguo, que faz com que ele se apresente sempre de uma forma bastante
paradoxal. Lacan o simboliza pela fórmula: $<>a.
Esta fórmula quer demonstrar que o fantasma é o resultado de
uma operação de divisão do sujeito ($) diante da conjunção
e da disjunção do objeto perdido na inauguração
da função desejante. O pequeno a representa
este objeto.
A
perdição do objeto em sua
contaminação pelo desejo
Sobre os efeitos
da posição do sujeito em relação
ao desejo inconsciente, ao qual o fantasma
modula o que em última instância
se pode ver disso, encontram-se todas as
possibilidades do que se convencionou chamar
relação de objeto. Por esta
via se estabelece um contato com os objetos,
os outros, as coisas do mundo. Mas eis aqui
a dimensão da perda, eis o estado
de perdição onde se encontra
o objeto em razão de sua contaminação
pelo desejo e de sua inscrição
na linguagem. Trata-se da questão
do objeto que, enquanto perdido, objeto marcado
pela falta, mostra o circuito em que ao mesmo
tempo o desejo se inaugura e se sustenta.
Lacan sublinha a posição de
Hamlet na relação de objeto,
e isto leva o primeiro a mostrar, na peça
do segundo, as etapas de uma decomposição
da relação de Hamlet com Ofélia.
Sobre isso, Lacan parte de uma análise
da posição de Hamlet diante
do desejo da mãe. Aqui, podemos apreender
a maneira pela qual o desvanecimento do sujeito
diante do desejo encontra na relação
ao objeto sua atualização.
Cumpre observar que é no momento da perda do objeto que a ligação
do sujeito ao que foi investido ganha ênfase. E na seqüência,
este evento explode com todas as suas cores, e faz aparecer também toda
a cólera que aí se aloja.
Como sugeri anteriormente, a operação de divisão indicada
na confrontação de Hamlet ao desejo de sua mãe deixa um
resto, o cadáver de Polônios. Este cadáver, assim como
o ato assassino, não tardará a feder dentro do reino. Assim Hamlet é enviado
a Inglaterra com urgência, para acalmar as coisas. Mas a verdadeira intenção
do rei com este gesto é fazer com que nesta viagem Rosencrants e Guildenstern
o matem. Entretanto, no início da viagem há um incidente com
piratas, em decorrência do qual Hamlet é retido como prisioneiro
no navio deles. Em seguida o desembarcam “absolutamente nu em terras
reais” 51, como ele o diz sarcasticamente, em
uma carta que faz chegar às mãos do rei. Em razão deste
episódio ele consegue escapar da morte neste momento.
Durante o período de sua curta ausência muitas coisas acontecem.
A apologia da razão e seu fracasso, a lucidez e a loucura, temas tão
caros à modernidade, se apresentam ainda mais nitidamente, desta vez
por intermédio de Ofélia.À perda de seu bem-amado, se
soma a morte de seu pai, e ela enlouquece. Laërte, seu irmão, diante
desta triste cena tem sede de vingança, e o rei se aproveita disso para
lhe propor um complô para pegar Hamlet. A cólera de Laërte
aumenta ainda mais quando ele toma ciência de que Ofélia havia
morrido quando flutuava no riacho, cantando, coroada com flores e estranhamente
se afoga.
Enquanto os mortos se acumulam na peça, o cemitério é o
lugar escolhido como cenário para abrir o último ato. Dois coveiros
conversam e cantam, cavando uma tumba. Hamlet e Horácio chegam da viagem
ignorantes dos acontecimentos. O canto chama a atenção de Hamlet
que logo começa a dialogar com um dos coveiros sem se identificar. Hamlet
o interroga sobre a morte, quer saber quanto tempo um corpo fica na terra antes
de apodrecer, e de repente chegam o rei, a rainha, Laërte, um padre, os
cortesãos e o corpo de Ofélia em um caixão aberto. Hamlet
e Horácio se escondem.
A cerimônia começa e só então Hamlet se dá conta
que é Ofélia quem está dentro do caixão. Diante
da ostentação de dor que Laërte manifesta saltando na cova,
Hamlet não pode mais suportar a cena; encoleriza-se e subitamente, também
salta para brigar com Laërte. Então proclama:
Eu amava Ofélia. Quarenta mil irmãos
Não poderiam, com a soma de todo o seu amor,
Nem mesmo se igualar ao meu. ? O que tu farias por ela?
...
Chorar? Te bateres? Jejuar? Te rasgares o corpo?
Engolir vinagre? Engolir inteiro um crocodilo?
Eu o farei. Que vieste aqui fazer?Lamuriar-se,
desafiar-me na cova? Se desejas
que te enterrem vivo com ela, também posso fazê-lo ... 52
De súbito
estamos diante de um Hamlet inflado de coragem
e de decisão na afirmação
de um desejo que tem o preço do luto,
o preço de ter passado pela morte.
Desejo que aqui encontra-se articulado ao
amor.
A questão do luto mostra o problema da relação com o objeto
através da expressão de sua perda. No texto Luto e melancolia 53,
Freud busca justamente fazer uma distinção entre o luto e a melancolia.
Segundo ele, o luto implica mudanças importantes no comportamento normal,
mas que acontecem de maneira compreensível e temporária. Em contrapartida,
a melancolia caracteriza uma perturbação mais grave, onde o teor
das acusações feitas a si mesmo aumenta em proporções
inacreditáveis. É nesta perspectiva que Lacan destaca as acusações
públicas que Hamlet dirigia a todos e a si mesmo. No segundo ato, antes
da play scène, quando este último reduz o homem a esta
quintessência de poeira, ele ainda acrescenta: “Trateis cada
um segundo seu mérito, e quem escapará ao chicote?” 54 Entretanto,
me parece que esta posição de Hamlet que chamarei de inibida,
não é a mesma que se expressa na cena do cemitério.
Freud definiu o trabalho do luto como o esforço de abandonar o investimento
da libido atrelada a um objeto que o exame da realidade revela perdido. O psiquismo
não abandona tão facilmente suas posições libidinais,
a menos que ele já tenha feito substituições em seus investimentos.
Então, em oposição à realidade, é freqüente
a manutenção da existência psíquica de um objeto
perdido durante um certo período. Isso gera uma certa inibição
do Eu (moi), até o momento onde, pouco a pouco, a realidade
toma seu lugar e então a inibição se relaxa, o que torna
a libido disponível para novos investimentos. Eis a indicação
de que o luto está realizado, e em conseqüência, o sujeito
pode então tomar uma outra posição em sua relação
de objeto.
Em sua interpretação, Lacan observa que esta questão do
luto desliza em toda a trama de Hamlet, expondo as diferentes posições
do sujeito. Isto não concerne senão à economia do desejo.
Observa que o objeto em torno do qual gira a dialética do desejo é o
objeto perdido, o qual representa pela letra a. Este
objeto ao qual chama objeto pequeno a toma o lugar disto de que o sujeito é privado,
no enigma que o constitui. O sujeito é privado de “qualquer
coisa dele mesmo que toma o valor do significante mesmo de sua alienação” 55.
Algo que é “o organismo da vida”. Algo que tem “a
turgência vital”, onde nós não encontramos senão
o que a psicanálise formula como o phallus. “É do
phallus que o objeto toma esta função que ele tem no fantasma,
e que o desejo, com o fantasma por suporte, se constitui.” 56
Então o desejo se constitui em relação à alteridade,
e “o objeto do fantasma é esta alteridade, imagem e ‘pathos’ por
onde um outro toma o lugar disso de que o sujeito está privado simbolicamente.” 57 É nesta
dimensão que na paixão amorosa por exemplo, um outro, um objeto
imaginário, se encontra no lugar disto que pode condensar a dimensão
enigmática do ser do sujeito. Então, este objeto “pode
se tornar este verdadeiro logro do ser” 58,
ou seja, sua loucura. É assim que o objeto do desejo humano toma uma
certa característica de fetiche, e que ele funciona como a última
esperança de sentido ao qual o Eu (moi) é totalmente
ligado.
A
mulher como símbolo do phallus e
a decomposição que a paixão
opera nos termos do fantasma
“O
phallus, ... mais macho que fêmea,
e entretanto, aquilo de que a fêmea
mesma pode se tornar símbolo”. 59Lacan
assinala que é nesta perspectiva
que Ofélia é a causa da loucura
de Hamlet, como o atesta a interpretação
deste psicanalista selvagem, que é Polônios.
Esta loucura deve ser situada apenas nesse
contexto, porque em todos os outros a loucura
de Hamlet é somente estratégia
política - “a política
do herói moderno... Ele se faz de
louco porque ele sabe que ele é o
mais fraco” 60 A
ressonância metafísica do
herói moderno revela que algo para
ele mudou em sua relação
ao destino. Como já mencionei, é a
questão da abordagem do saber que
expressa essa mudança.
Ofélia é o barômetro da posição de Hamlet
em relação ao desejo 61. Ofélia, este personagem
perturbador, de uma simplicidade e “de uma pureza que não
conhece o pudor” é “esta imagem justamente da fecundidade
vital, esta imagem, para resumir, que de todas as maneiras nos ilustra mais
que nenhuma outra criação, eu creio, a equação
que citei em meus cursos, a equação (girl)=phallus” 62.
Curioso a respeito da origem do nome: Ofélia, Lacan encontrou em um
artigo de Boissacq, no Dicionário Etimológico Grego, uma
indicação. Ofélia é omphalos, ou seja, “umbigo”,
e mais freqüentemente, “centro”, “meio”.
Também tem a lembrança de ter encontrado a palavra ophelio,
em Homero, no sentido de “fazer engordar”, “inflar”,
empregada para indicar a “fermentação vital”,
que implica “deixar algo mudar” ou “se espessar”.
No dicionário citado, encontra ainda a referência direta ao phallus,
pela proximidade significante 63, no caso, a proximidade sonora
das palavras: Ofélia e phallus.
É muito provável que Shakespeare não dispusesse de dicionários
desse tipo, mas Lacan se justifica, dizendo que a confusão de Ofélia
e phallus é tal dentro da estrutura da peça, que não
há necessidade de dicionário para observá-la. Tenta demonstrá-la
através da análise dos diferentes tempos da relação
de Hamlet à Ofélia. Nesta perspectiva, coloca em evidência
a posição problemática de Hamlet em relação
ao desejo, ou seja, em relação a isto que se coloca neste lugar,
o phallus.
Lacan distingue na trama os três tempos da relação de objeto,
que nos expõem o processo de decomposição dos termos do
fantasma 64. Primeiramente, no encontro de Hamlet com Ofélia.
Logo depois de seu encontro com o fantasma (ghost), nosso herói
aparece como alguém absolutamente perturbado - o gibão desfeito,
sem chapéu, pálido, e assim por diante... Ele se aproxima e se
afasta de Ofélia, apresentando uma vacilação ante este
objeto ao qual até então merecera de sua parte todos os seus
esforços de exaltação suprema. Esta vacilação
constitui o primeiro tempo, onde se encontra a alienação do sujeito
com todas as dimensões do pathos, da reviravolta, da estranheza
que concerne à alienação, dado que o sujeito se reconhece
ali onde ele não está.
Este tempo é experimentado como a irrupção de uma desorganização
subjetiva. Qualquer coisa, que até então estava muito bem instalada,
e em conseqüência, velada pelo esplendor do fantasma, vacila, deixando
aparecer justamente, os componentes daquele fantasma. Nós estamos, então,
perante uma experiência de despersonalização que modifica
os limites imaginários entre o sujeito e o objeto. O caráter
estranho dessa experiência impõe-se quando algo do fantasma estabelece
uma comunicação íntima com a imagem que lhe vem do outro,
e então nós temos uma ocasião de ver nesta imagem do outro
nosso próprio Eu (moi). Tem-se aí o sentimento do próprio,
como o que é estrangeiro. Evidencia-se a possibilidade do ponto de partida
da crise, de uma certa ruptura, porque isto que se apresenta somos, e não
somos, nós mesmos. Então, neste momento da peça, temos
um Hamlet em crise, angustiado com a cobrança de se afastar disto que
aparece como o objeto de seu desejo.
Remeteria aqui ao texto de Freud, chamado Das Unheimliche 65 (O
estranho). O autor quer saber qual é o núcleo , o sentido
essencial e próprio que nos permite discernir, no que nos angustia,
a coisa que é antes de tudo unheimliche, ou seja, sinistra,
inquietante, que traz mal-estar, mas que é, a meu ver sobretudo suspeita.
Freud assinala que heimliche em alemão é o antônimo
de unheimliche, e significa íntimo, secreto, familiar, o que
indicaria, portanto, que o sinistro nos inquieta exatamente porque não é familiar.
Entretanto, ele sublinha que o novo não é necessariamente causa
de inquietação. Para que isto aconteça, para que ele se
torne sinistro, é preciso que a este novo se acrescente algo.
Segundo Freud, o bom achado desta palavra - unheimliche - na língua
alemã, é abrigar nela a indicação do que nos causa
inquietação no sentido mesmo do familiar. Isto aponta a ambivalência
do familiar, em que o heimliche coincide com sua antítese unheimliche.
Creio que toda a questão do pathos, do patológico está em
jogo neste ponto. Há aí algum tipo de irrupção
do inconsciente que produz, como diz Lacan, um desequilíbrio no fantasma,
nessa coincidência entre o mais íntimo e o mais estrangeiro.66
Quando o objeto de amor, que anteriormente era Ofélia, objeto que estava
integrado ao quadro narcísico de Hamlet, aparece como imagem do outro,
e desta forma fora dele - ponto em que ele encontra paradoxalmente o sentimento
do próprio em alguma coisa que pode ser perdida - há então
a irrupção do unheimliche. Este objeto passa a ser o
alvo da sua rejeição. Este objeto toma o lugar do que não
pode lhe ser dado, objeto ao qual ele não pode ter acesso, senão
ao preço de um sacrifício dele mesmo, do que ele toma como seu
ser. Então é preciso o rejeitar com toda a força, e isto
que é rejeitado não é senão o phallus,
na medida em que ele aparece como de fora e exatamente em razão disso.
O phallus, ponto onde o sujeito tenta apreender sua referência,
se revela como exterior, e é necessariamente por isso que é preciso
que se rejeite este objeto que é o suporte deste unheimliche,
deste mal-estar.
E eis que nosso Hamlet expõe esta posição no momento em
que rejeita Ofélia. É ainda pior quando a submete a todo tipo
de humilhações: Diz-lhe que ela não é mais o objeto
de seu amor, questiona sua honestidade. Esta circunstância tem um caráter
central na peça, pois estamos aqui diante do omphalos, do umbigo.
Nesta rejeição Lacan distingue o segundo tempo da relação
de objeto.
Lacan encontra outras indicações da significação
fálica, em jogo em relação a Ofélia. Um exemplo
aparece no momento da play scène. Diante de sua mãe,
e justamente por estar ali face a ela, Hamlet responde ao seu convite para
sentar-se a seu lado: “Não, querida mãe; eis aqui um
metal melhor imantado” 67, e se dirige a Ofélia,
pedindo-lhe que coloque sua cabeça entre as pernas dela, nesta região,
como Lacan o sublinha 68. Para melhor compreender isto, remeto à indicação
de Freud a respeito do phallus, em seu texto de 1927, Fetichismo 69.
Ele designa o phallus, muito precisamente como o pênis do qual
a mãe é suposta ser portadora no fantasma infantil. O fetiche
vem justamente evitar a desaparição deste pênis suposto à mãe.
Se presta mesmo a substitui-lo, ou seja, funciona como a denegação
da castração. Então, evidencia-se que a imantação
que atrai Hamlet e que, em um momento dado, faz irromper a dimensão
perversa que se coloca em sua relação com Ofélia vem justamente
deste caráter de fetiche que ela toma neste contexto. 70
Nota-se ainda uma outra indicação da relação fálica
do objeto do desejo, no nome das flores, em meio às quais Ofélia
se afoga - os “dead men’s fingers” - dedos de homens
mortos, conforme destacado por Shakespeare. Isto o faz lembrar a maneira grosseira
com a qual as pessoas simples designam aquilo de que se trata, a saber, a dimensão
do phallus. Este segundo tempo da relação, distinto
exatamente pela rejeição do objeto a partir do momento em que
ele evidencia o phallus como isto que está alhures, expressa
a denegação da castração, a tentativa de escapar
de sua incidência. O horror da feminilidade ganha toda a força,
porque se expressa como o caminho que nesta via complexa o reenvia à castração.
Mas, se a castração aponta a emergência da falta, por onde
o sujeito pode constituir seu desejo, então essa tentativa implica um
enfraquecimento de forças no campo do desejo. “Bestial esquecimento”,
negligência, covardia, são as palavras-chave que Hamlet toma para
se designar. 71
Ofélia se torna “o símbolo mesmo da rejeição
como tal de seu desejo” 72. A esta altura se dá o
clímax do recuo de Hamlet em relação ao desejo. Depois
da play scène, quando Hamlet parte para a Inglaterra e reencontra
as tropas valentes de Fortimbrás, ele se volta sobre si mesmo e mede
a dimensão de sua covardia. Diferentemente dele, os homens daquelas
tropas, em troco de nada conseguirem de concreto, apenas em nome da honra,
estão prestes a se arriscarem a morrer.
O movimento do sujeito dirigir-se ao desejo implica sempre a entrada em um
campo de risco, campo onde se sai de si mesmo em direção à alteridade,
para reencontrar-se em uma dimensão na qual o Outro, que era suposto
assegurador, não oferece nenhuma garantia. Entretanto, é neste
movimento que o sujeito pode ter alguma dimensão efetiva de satisfação,
proporcionada pelo sentimento de honra. Isto Lacan propõe que seja definido
como o dom de estar engajado em sua palavra.73 A experiência
psicanalítica mostra que não existe determinação
concreta, apreensível, para a exploração da cadeia inconsciente.
Desse modo, é preciso tentar percorrer a cadeia, seguindo as pistas
do desejo, indicadas pelos curtos-circuitos imaginários que acometem às
relações de objeto.
O desejo é o ponto inapreensível da verdade do sujeito. Ponto
cujo termo é identificado à morte mesma do sujeito, esta hora
da verdade como se costuma referi-la. A chegada desta hora é qualquer
coisa de fatal. Vale lembrar que se diz - é chegada a sua hora,
tanto para anunciar a morte de alguém, como para referir o momento do
nascimento, o momento do parto. Todas as ações que fariam com
que Hamlet se engajasse com a hora da verdade, ele as adia o mais que pode.
Mas, de repente, como nós o sabemos, Hamlet retoma de maneira vigorosa
o caminho de seu desejo. O objeto readquire para ele sua presença e
seu valor. Aqui, Lacan distingue o terceiro tempo da relação
ao objeto. Trata-se da cena do cemitério, onde ele luta com Laërte
dentro da cova de Ofélia. Ele está com ciúmes do luto
de Laërte. Lacan observa que, quando o objeto se torna um objeto impossível,
ele pode ser resgatado como objeto do desejo. Isto indica uma coisa que já está na
estrutura dos fundamentos do desejo, onde se encontra uma dimensão de
impossibilidade. Desvela-se o recurso pelo qual o objeto toma o valor essencial
de significante desta impossibilidade 74. Mais adiante, neste mesmo
seminário, o autor dirá que, na dialética do sujeito com
o objeto de seu desejo, quando o objeto desaparece, pela via do luto, por exemplo,
esta desaparição deixa entrever, no relâmpago de um instante,
o que lhe corresponde no sujeito, a saber, as aparições do phallus,
as phallosphanies 75.
No
luto do atrelamento narcísico ao
phallus, a ascensão do desejo
No luto, o
objeto é de uma certa forma incorporado
pelo sujeito, como Freud já tinha
assinalado. Ocorre no luto uma relação
de identificação, da qual Lacan
observa a necessidade de seu esclarecimento
pela distinção das diferentes
categorias que reencontra no funcionamento
psíquico, ou seja, o simbólico,
o imaginário e o real. 76
Ele explica: a perda, uma perda verdadeira, provoca um buraco no real. Há aí algo
de intolerável e de insuperável. Este buraco é o ponto
de partida, tanto do luto, como de uma rejeição, verwerfung,
mecanismo no qual se apóia a defesa psicótica. Este buraco oferece
o lugar onde se projeta este significante faltoso, essencial à estrutura
do Outro. Este significante atribuído ao Outro, como a única
coisa capaz de responder ao enigma do sujeito, é o significante que
eqüivale ao phallus, e aí, de súbito, ele perde
seu suporte, o que torna o Outro impotente. Esta impotência subverte
a referência do sujeito, a referência da subjetividade enquanto
tal, que abrigava uma esperança de consistência. É por
causa disso que há algo de perturbador no luto, que se aparenta à psicose.
Mas Lacan assinala também uma relação inversa entre esses
dois processos - o luto e a psicose. Para demonstrá-lo, ele recorre à explicação
de Freud, em seu texto de 1894, Psiconeuroses de defesa 77 sobre
o mecanismo da psicose, onde a alucinação pode ser interpretada
como o processo no qual “isto que é rejeitado no simbólico
reaparece no real” 78. No luto, não se trata de
uma aparição no real: ao contrário, é preciso que
se faça uma incorporação a todo custo deste significante
que faz falta. Tal incorporação é feita por meio de um
grande esforço do jogo simbólico, no qual o rito funerário
ganha toda a sua importância. É preciso convocar todas as forças
deste universo simbólico para tentar cobrir com significantes este furo, é preciso
atribuir uma função ao não-senso da morte. Se este trabalho
não se realiza, há então “a colocação
em marcha dos fantasmas e das larvas, no lugar deixado livre pelo rito significante”,
e eis aí a “tragédia do mundo subterrâneo” 79,
que pode ser apontada como uma nova dimensão da tragédia de Hamlet.
O luto não é apenas o que aparece no primeiro plano desta tragédia,
com a morte do rei, mas sobretudo o que continua em toda a trama, com a série
de mortes que se acumulam. A presença deste morto-vivo que é o
pai fantasma, demonstra que Hamlet não realizou seu luto. Da mesma forma,
a elisão do rito funerário à memória de Polônios,
o cadáver ofendido pelo jogo sarcástico de Hamlet, que o esconde
a seu bel prazer, apesar da inquietação de todos, tem sobre Ofélia
os mais graves efeitos: a loucura e a morte suspeita. Esta morte, da qual Hamlet
teve conhecimento apenas no momento do rito funerário, tem o poder de
lhe apresentar esta marca de impossibilidade, que se coloca sobre o objeto
no desejo. Ofélia toma o valor de significante desta impossibilidade,
e readquire seu estatuto de objeto privilegiado do desejo.
Assim, correlativamente à ascensão do luto, tem-se também
a ascensão do desejo, o que projeta Hamlet no domínio do risco,
em que o medo é deixado de certa forma para atrás, pois não
há mais nada a perder. Em última instância, este luto é o
luto do phallus. O que quer dizer que, enquanto o sujeito, de certa
maneira, visa o phallus como esta “coisa” que tem a potência
de ser, a falta que ilumina o desejo não tem nenhuma eficácia
para fazer deslanchar ações nesta direção. O que
a psicanálise denomina como o complexo de castração é a
operação pela qual o luto do phallus permite ao sujeito
passar do plano da demanda, da reivindicação impotente, ao do
desejo.
Na trama, nós estamos no momento em que Hamlet aceita o duelo proposto
por Laërte apesar de saber do risco. E, na cena ensangüentada deste
duelo, temos a expressão máxima da efetividade dos atos de conclusão
que tocam aqui o extremo da vida, e se estendem à vida de todos. A rainha
bebe o vinho envenenado que o rei havia destinado a Hamlet. Hamlet fere Laërte
e é também ferido pela espada maldosamente envenenada deste.
E, depois de ter se apercebido do envenenamento de sua mãe, ele finalmente
atinge o rei com a mesma espada que havia sido ferido.
A função do narcisismo é essencial em toda a extensão
dessa operação. De um lado a referência da completude imaginária
faz recuar todo engajamento que coloca em risco o phallus, posição
primeira de Hamlet; e de outro lado, face à perda inelutável, é preciso
em nome de uma proteção que afinal não é senão
narcísica, mudar o estatuto do phallus. Mas aí este,
em lugar de ser o totem de adoração, a referência de completude,
torna-se indicador da medida da relação do sujeito ao objeto,
ponto de partida das trocas humanas.
Deste modo, o sujeito como tal é qualquer coisa de realmente privado.
Entretanto, para abordar esta privação, não é suficiente à psicanálise
indicá-la como uma nadificação que o sujeito humano introduz
na vida, no real que é sempre pleno. Lacan observa que é preciso
fazer intervir o termo castração, escrito como -φ,
para marcar a introdução de um símbolo negativo nisto
que indica o essencial, no homem, de sua relação ao Logos. Este -φ não é o
Nada. O escrever desta maneira pretende indicar sua relação ao
objeto a do desejo, tal como ele opera no fantasma.
Então, “é este objeto que sustenta a relação
do sujeito a isto que ele não é: ...a isto que ele não é,
dado que ele não é o phallus” 80. Assim
delimita-se a proximidade e a distância da psicanálise em relação à filosofia
tradicional e existencialista, em sua abordagem da negatividade ou da nadificação
do sujeito existente. Desta maneira, a problemática do Nada não é experimentada
pelo homem, senão através de sua avaliação na relação
ao phallus: ela não é, verdadeiramente, primária.
O objeto pequeno a não é o phallus,
mas a indicação de seu reflexo ao nível do objeto. Aí encontra-se
por vezes a phallosphanie, nas aparições em ‘flash’ do phallus.
Contudo, pode-se compreender que Lacan assinale que é nesta alienação
ao phallus, quando o sujeito aparece no nível radical de sua
privação, ou seja, no nível de não ser o phallus,
que ele pode ser ele mesmo, isto é, um objeto negativo.81 Esta
posição radical o autoriza tornar-se efetivamente sujeito do
desejo. Há nela algo que está para além do que se passa
com o sujeito tanto quando ele aparece em sua relação imaginária
ao objeto fálico, ao nível da castração como a
marca do significante faltoso, quanto quando aparece ao nível da frustração
imaginária, imposta pelo Outro ao qual ele demanda um símbolo
de seu amor.
Segundo Lacan, o desenrolar da tragédia de Hamlet mostra o caminho desta
posição de privação, em que o desejo pode ser assumido
ao preço de uma mudança na relação ao phallus. 82 Este “algo” que
está podre no reino da Dinamarca 83, mencionado pelo soldado
Marcelo, sinaliza o ponto de partida desta mudança. Tanto a exaltação
idealizadora do pai pecador, quanto a depreciação lançada
sobre Claudius têm a aparência de uma denegação.
O crime possibilitou a Claudius encarnar o phallus com todo seu peso
de glória, mas também de derrisão. Por isso Hamlet tem
pesar em efetuar sua ação. Atingir Claudius é, num mesmo
golpe, atingir esta outra coisa que está lá, o phallus,
nesta manifestação enigmática do significante do poder
enquanto tal, ao qual Hamlet estava atrelado em seu narcisismo. Foi preciso
dar um passo para além do narcisismo para que ele uma vez mais próximo
do nível radical da privação real, imposta primeiramente
pelo luto provocado pela morte de Ofélia, e depois por seu próprio
ferimento mortal, pudesse então atingir Claudius.
Não seria fora de propósito afirmar que Lacan evoca o sacrifício
do atrelamento narcísico ao phallus, como a démarche
que insere o sujeito no caminho de seu desejo e libera a ação
para o abordar. Isto é válido não apenas para a tragédia
de Hamlet, mas também para toda experiência analítica.
Se, em relação à Antigüidade o termo tragédia
está ligado ao sacrifício de um bode, me parece que o bode imolado
na psicanálise é, em uma certa dimensão, este atrelamento
narcísico ao phallus. Disse em uma certa dimensão,
porque n&ati