Desdobramentos
da "Face oculta do
amor" entre Freud ,
Lacan e Nietzsche
Denise Maurano
PREÂMBULO
Temos sempre
uma relação problemática
com nossas ações. Nunca sabemos
se elas estão verdadeiramente corretas
e vacilamos quanto a seus objetivos. Facilmente
desconfiamos daquilo que fazemos de nossas
vidas. Temos freqüentemente uma certa
impressão de que poderíamos
fazer melhor, ou de forma mais feliz, o que
nos faz deslizar irrefletidamente rumo à posição
muito íntima de suplicantes. Isto
porque estamos sempre em defasagem em relação à quota
de gozo que acreditamos que nos pertence,
mas não sabemos como agir para obtê-la.
A ética, que implica uma reflexão sobre o agir humano, foi situada
pela tradição filosófica em relação a um
ideal a se atingir. Na abordagem psicanalítica, visa-se focalizar não
um ideal, mas os impasses, os conflitos, e sobretudo a desmedida que vigora
na relação do homem com sua ação. Isso é o
que fará Lacan afirmar que “é na dimensão trágica
que as ações se inscrevem e que somos solicitados a nos orientar
em relação aos valores.” 1. Tendo já dito,
anteriormente que “a filosofia de Freud é fundamentalmente
anti-humanista, conclui que “Freud deve ser situado numa tradição
realista e trágica, o que explica que é à sua luz que
podemos hoje compreender os trágicos gregos” 2.
Estas foram apenas algumas das pistas que me levaram a querer investigar a
relação entre a Psicanálise e a arte trágica. Estes
dois campos, embora não constituam nenhuma visão totalizante
do mundo, levantam reflexões fundamentais acerca da condição
humana, as quais evidenciam uma proximidade estrutural importante entre eles.
Resolvi buscar na obra de Freud e de Lacan, elementos para a construção
de uma concepção psicanalítica de trágico que pudesse
servir à elucidação da ética da intervenção
analítica, tanto no que diz respeito à clínica, quanto
no que se refere à intervenção do pensamento psicanalítico
na cultura.
Tal pensamento, longe de se encaminhar para a apologia do homem e de seus feitos,
revela o pathos, o espanto que surge na confrontação
com o limite humano, confrontação com o limite do que pode ser
visto ou sabido acerca da condição humana, ponto que pode ser
designado pelo termo grego Até, muito freqüente nas tragédias.
Esse termo, segundo Lacan, designa o móbil da verdadeira ação
trágica, que aponta para uma certa calamidade fundamental, frente à qual
o herói, movido pelo desejo, não se detém, malgrado o
risco que sua ultrapassagem comporta. Não se trata, para a Psicanálise,
de abordar esse limite enquanto um erro, um equívoco removível,
como pensava Aristóteles. O que intervém tanto na tragédia,
quanto na Psicanálise aponta algo bem mais radical que isto.
Tocado por esta problemática, Freud, em 1920, em Além do
princípio do prazer 3, levando em conta a insistência
do mal-estar na vida, formula sua teoria da pulsão de morte. Esta, juntamente
com a pulsão de vida, compõe a dualidade de forças que
disputam a regência do psiquismo. Assim, enquanto a pulsão de
vida faz apelo ao universo das identificações, da representação,
da ordem e do prazer, a pulsão de morte subverte as coisas e endereça-se
ao universo da disrupção, da separação, da destruição.
As idéias de Freud vem no rastro de seu tempo e neste, entre uma certa
euforia, que levou o século XIX ao retorno ao tema da tragédia,
e o pessimismo de Schopenhauer, encontramos a posição original
de Nietzsche, evidenciada desde sua produção de O Nascimento
da Tragédia. Não pretendo fazer um entrecruzamento entre
a interpretação nietzscheana da tragédia e a abordagem
psicanalítica. Porém, ao longo da pesquisa 4, da qual
decorre este artigo, recorri a Nietzsche, porque em diversos momentos, suas
posições muito me ajudaram a melhor compreender as proposições
de Freud e de Lacan, os quais suponho que por vezes se basearam de fato em
Nietzsche, mesmo que isto tenha se dado sem as devidas citações.
Lacan aborda as implicações da pulsão de morte para nelas
enfatizar não tanto uma forma de maldade humana original, que impele à destruição,
mas a dimensão da intervenção de um campo situado além
daquilo que pode ser apreendido pela representação. Ele visa
apontar para o vazio em torno do qual a representação se constitui,
para nele assinalar a fonte do caráter de insatisfação
presente na demanda do sujeito. Tal demanda expressa-se na clínica psicanalítica
como demanda de amor. Esta, enquanto articulada em linguagem, sofre de uma
limitação na apreensão dessa dimensão do mais além,
que é visada pela pulsão de morte. É por esse viés
que proponho que a tragédia traz à luz a morte como “a
face oculta do amor”.
Como buscarei explicitar mais adiante, este vazio, ao qual me referi, ou este
Nada, se assim se preferir designá-lo, não tem em psicanálise
a mesma condição que na filosofia existencialista. Nesta, ele é designado
sob a forma da negatividade ou da nadificação do Ser na existência 5.
A respeito disso, Lacan afirma: “nós chamamos a isto, - ?,
isto é o que Freud indicou como sendo o essencial da marca sobre o homem
de sua relação ao Logos, isto é, a castração,
aqui efetivamente assumida sobre o plano imaginário.” 6 Então,
este ‘- ?‘,
este signo que indica um a menos em relação ao phallus,
este ponto de incidência da negatividade, não é uma nadificação
que o sujeito humano introduz no real que é sempre pleno porque é o
que é, mas, designa, sobretudo, o essencial da marca sobre o homem do
que ele pode apreender de sua relação ao Logos.
Pretendo aqui trazer uma contribuição para o esclarecimento da
razão pela qual a psicanálise aborda as coisas dessa maneira,
e de que forma a tragédia de Édipo, mais particularmente, e,
também todas as outras, servem para colocar em relevo os elementos estruturais
que sustentam a psicanálise como uma teoria que traz importantes reflexões
acerca da condição humana. Será em sua aproximação
ao pensamento trágico que ela encontra afinidades a meu ver essenciais
com o pensamento nietzscheano.
A TRAGÉDIA
COMO QUEDA
Enfatizo a
idéia de que o sentido da tragédia
implica sempre a queda de um valor fundamental.
Entretanto, enquanto expressão teatral,
a tragédia oferece a oportunidade
de experimentar esta queda de uma maneira
artística. O homem inventou o sentido
para manter e assegurar a existência.
Estão aí presentes todas as
dimensões de avaliação,
dimensões de valores. Então,
se acontece a experiência da queda
desses valores, isto implica perda de garantia,
ou seja, possibilidade de sofrimento. Expor
a público, de forma artística,
o nível mais íntimo deste sofrimento,
através desta expressão teatral,
implica em promover uma transfiguração
do lado derrisório desta queda, para
o lado exultante que ela pode ter.
Para compreender as implicações dessa queda no campo dos valores,
aspecto de perda simbólica, a psicanálise nos apresenta elementos
importantes. Reconhece a pesquisa antropológica acerca da universalidade
da interdição do incesto em toda sociedade organizada, e trabalha
com suas conseqüências éticas. Ou seja, é em torno
deste tabu, no qual a mãe enquanto mulher intangível, é colocada
em posição de Bem Supremo que as estruturas de parentesco organizam-se.
Neste contexto a função do pai é convocada para manter
este interdito e ao mesmo tempo, para evocar esta perda inicial como causa
do desejo, o que coloca o sujeito em uma posição de busca sempre
renovada dos traços disso que foi irremediavelmente perdido. Nos encontramos
portanto, no domínio das substituições, no domínio
simbólico onde o complexo de Édipo toma seu valor de metáfora
sublinhando a relação entre o desejo e a lei.
No seminário O Avesso da Psicanálise, Lacan retomará a
questão do pai e por decorrência, a questão do Édipo,
para dizer que a morte do pai é aquilo com que a psicanálise
lida; morte essa que não nos libera da lei, muito pelo contrário. “A
morte do pai, na medida em que faz ressoar esse enunciado como centro de gravidade
nietzscheano, a esse anúncio, a essa boa nova de que Deus está morto,
não me parece — longe disso — talhado para nos liberar.” 7 A
experiência vem mostrar que se Deus está morto, isso tem como
conseqüência o alastramento da interdição. A morte
do pai é mesmo o que interdita o gozo, ou melhor dizendo, apropria-se
do gozo do sujeito, intervém nele, como mostra o mito da horda primitiva.
Nesse ponto, notem que na verdade, a questão não é apenas
a morte do pai, mas seu assassinato, o que traz implicações cruciais
para o gozo do sujeito. “O mito de Édipo, no nível
trágico em que Freud se apropria dele, mostra precisamente que o assassinato
do pai é a condição do gozo.” 8 Em
seguida Lacan acrescenta:
Tal como se enuncia, não mais no nível do
trágico, com toda a sua leveza sutil, mas no enunciado
do mito Totém e Tabu, o mito freudiano é a equivalência
entre o pai morto e o gozo. Eis o que podemos qualificar com
a expressão operador estrutural.
Aqui o mito se transcende por enunciar, na qualidade de real — pois este é o
ponto em que Freud insiste ? que isso aconteceu realmente, que é o real,
que o pai morto é aquele que tem o gozo sob sua guarda, é de
onde partiu a interdição do gozo, de onde ela procedeu. 9
O OCASO DO
PAI
No primeiro
capítulo do Mal-estar na cultura 10 Freud
afirma que a religião é um
recurso do homem para prolongar a proteção
que a criança espera de seu pai. Pela
religião o pai, simples mortal, é substituído
por Deus-Pai, é tornado divino, o
que visa a apaziguar a condição
de desamparo, em que o homem está instalado
desde seu nascimento prematuro, se comparado
aos outros animais.
De toda forma, a relação ao pai na organização
da cultura ocidental, possui sempre um valor de referência ordenadora,
seja ela divina ou não. Desde Homero pode-se verificá-la na maneira
pela qual todos os personagens são identificados em função
de seus pais. O pai é neste contexto, fonte de identidade, ponto de
partida para que o sujeito tome seu lugar no mundo. É mesmo pelas elaborações
míticas que a função do pai marcou sua presença
na psicanálise. Freud localizou as figuras parentais, sobretudo aquela
do pai, nas noções de destino e de providência. Por esta
via pode-se ver a dimensão simbólica desta invenção
do pai.
Eu digo invenção do pai para assinalar o caráter
não natural desta função, se a compararmos à da
mãe. Em vista disso, Lacan propõe chamá-la função
do Nome-do-Pai, e mais tarde vai designá-la no plural, função
dos Nomes-do-Pai. Nosso autor observa que pelo poder da metáfora de
criar sentidos novos, uma pluralidade de coisas podem fazer desta função
um fator de estabilização da relação entre o sujeito
e o mundo. Eis aqui o domínio da invenção humana no campo
da articulação entre um sentido e uma função, domínio
simbólico por excelência. O objetivo é de fugir do caos;
evitar a morte, encontrar uma proteção diante do peso do real
e diante da profusão desmedida das produções imaginárias.
Uma rede de sentido que se ancora nesta função, é necessária
para ordenar alguma coisa na existência.
Nietzsche no Nascimento da Tragédia 11 propôs
que a tragédia coloca em cena o sofrimento que Dioniso viveu com sua
dilaceração. Neste mito, Dioniso, filho de Zeus e de Semele,
nasceu duas vezes. Quando sua mãe foi fulminada por ter querido admirar
Zeus em todo o seu esplendor, este último arranca o bebê das entranhas
da mãe e o guarda em sua coxa até o momento de seu nascimento.
Dioniso foi então tirado da sua mãe, e veio a nascer de seu pai,
contra a natureza. Manifesta-se sob diversas formas: leão, touro, serpente.
Um dia, por ordem de Hera, os Titãs partiram-no em pedaços, colocaram-no
em um caldeirão e foi sua avó, Rhea, que reunindo seus membros
dispersos, o reanimou 12.
Para Nietzsche, todos os heróis trágicos são representações
de Dioniso. Assim, Prometeu, Édipo e todos os outros, são apenas
máscaras desse proto-herói, Dioniso. Quando o deus surge nas
tragédias, assemelha-se ao indivíduo que comete erros, deseja,
sofre, adquire uma forma individual. Não está aí na condição
de unificado ao misterioso Uno-Primordial, ao qual Nietzsche se refere.
Sofre da individuação 13, esta condição
de estar em um mundo dilacerado em indivíduos.
Na perspectiva de Nietzsche, quando a tragédia culmina na queda e morte
do herói, que não é senão Dioniso no estado de
indivíduo, isto que cai, isto que encontra seu termo, é a individuação
mesma, considerada como a causa primeira do mal 14. A morte do herói
torna-se a esperança de um restabelecimento da unidade perdida.
Freud está de acordo com a idéia de que o herói deve padecer.
No texto Totem e Tabu 15, Capítulo IV, alega que
mesmo hoje em dia, este fato constitui o essencial de uma tragédia.
Mas diferentemente de Nietzsche, assinala que sobre o herói pesa uma
culpabilidade trágica da revolta, em geral contra uma autoridade divina
ou humana, e o coro acompanha o herói com um sentimento de simpatia
e de pesar. Freud, como a maioria dos intérpretes da tragédia,
interroga-se sobre a significação desta culpabilidade trágica.
E ele mesmo responde que o herói deve sofrer porque encarna o pai primordial,
aquele cujo assassinato efetuado pelos irmãos reunidos, constitui o
quadro do mito da origem da cultura, tal como nos é proposto no texto
acima citado.
Freud interpreta a culpabilidade trágica como a tarefa que o herói
deve assumir para descarregar o coro de sua própria culpa.
O coro representa o grupo de irmãos que outrora mataram o pai, e o herói
trágico metamorfoseia-se em redentor da culpabilidade do coro. Diz também
que esta susceptibilidade do coro, seu pesar face ao sofrimento de Dioniso,
a quem os membros do coro identificam-se, era o conteúdo mesmo da representação.
E deixa visível sua compreensão de que a Idade Média faça
reviver essa mesma questão em torno da Paixão de Cristo 16.
Quando faz referência a Dioniso como o herói da tragédia,
pode-se ver em Freud uma presença da interpretação nietzscheana,
que, entretanto, não aborda o tema da culpabilidade trágica.
O mesmo se dá em sua alusão a um fragmento de Anaximandro, o
qual relata que um crime cometido nos tempos primordiais destruiu a unidade
do mundo, e que tudo o que surgiu depois deve suportar o sofrimento 17.
Acrescenta que na doutrina órfica que assimilava o culto a Dioniso Zagreus,
os homens são os descendentes dos Titãs que mataram e esquartejaram
o jovem deus, e que pesa sobre eles o peso deste crime.
Freud trabalha com todos esses dados para fundamentar sua associação
da origem da cultura à função do pai, esta função
simbólica que tenta estabelecer uma ordem na selvageria, na dimensão
indomada da natureza. Curiosamente, pode-se constatar que nesta perspectiva,
a cultura começa por um crime. Um crime que é a expressão
da reação dos irmãos diante de um pai primordial selvagem
que teria livre acesso para gozar de todas as mulheres. Um pai odiado e admirado
ao mesmo tempo, e também fonte de identificação, sobretudo
após sua morte. Em conseqüência, frente a seu lugar vazio
após sua morte, é preciso a invenção de leis para
que se o mantenha desocupado, a fim de que esta figura selvagem não
seja substituída por uma outra. Esta invenção implica
instituir neste lugar o Nome-do-Pai, enquanto um nome substitutivo do significante
fálico, significante do gozo sexual.
O Nome-do-Pai tem uma relação com a exceção fundadora
? o pai primitivo, esse Um o qual se supõe poder gozar livremente ?
disto que regula a relação ao phallus. O phallus é então
o que é preciso, e isso que faz falta para os sujeitos. Em um único
movimento faz-se a instituição da lei e de um elemento que enquanto
excluído e interditado, funda um objeto causa de desejo. Este Nome-do-Pai
vem no lugar do Outro inconsciente, de onde deriva a fórmula lacaniana: o
desejo do homem é o desejo do Outro. Este desejo prescrito pelo
Outro dá a forma da alienação, e do que se chama a dívida
simbólica. O que o sujeito deve ao Outro de seu desejo é também
a fonte de toda culpabilidade. Nesta mesma operação, alienação
e separação conjugam-se. Assim, se a lei simbólica produz
seu efeito de pacificação da selvageria, resta ainda, apesar
de tudo, uma certa autoridade que permanece selvagem, e impele o sujeito a
ir mais além do princípio do prazer. Refiro-me ao Supereu, termo
introduzido por Freud em 1923 no O Eu e o Isso, para designar a instância
psíquica que interioriza as leis. Ela intervêm enquanto instância
judiciária de nosso psiquismo, e goza com a vigilância que exerce
sobre o sujeito em nome de se propor como “a voz” do acordo entre
a consciência e o real, entendido aqui como aquilo que coincidiria com
o necessário. Estamos aqui portanto, bem distantes do diz respeito ao
desejo inconsciente. Este testemunha uma fenda imposta a este acordo. Eis portanto,
o aspecto proscrito do desejo em relação ao Supereu.
A psicanálise supõe que das vicissitudes da relação
ao pai, nasce a cultura. A ordem que esta impõe para limitar a vontade
desmedida de poder dos homens, tem o preço do mal-estar na cultura.
Paradoxalmente, o Supereu, goza deste mal-estar na tentativa de fazer colar
o sistema simbólico sobre o real. Ele promete o atingimento da correção
da ação sobre um plano universal. O Supereu tem por objetivo
fixar o movimento da economia libidinal, de maneira a fazer equivaler o custo
e o benefício, na esperança de colocar a ação humana
ao abrigo do dinamismo do desejo. Como Freud assinalou, ele é o herdeiro
do complexo de Édipo, dado que mantém a relação
ao mito, diante do qual o sujeito permanece sempre endividado, em falta, frente às
exigências que lhe são endereçadas. Isto é o que
o coloca no centro da questão moral.
A TRANSFIGURAÇÃO
DO HORROR
Mas qual é o
papel da arte trágica no que foi exposto
acima? Já vimos que na interpretação
psicanalítica da tragédia,
o valor heróico que tomba é o
atribuído ao pai e, se a cultura sustenta-se
sobre esse valor, como pode a tragédia
engajar-se na cultura? Como pode até beneficiá-la,
dado que se encontra na origem mesma da fundação
de uma cidade? Como a queda do pai, ou a
queda do sentido, por ele sustentado, não
traz de volta a selvageria? Como a arte trágica
não é a apologia da crueldade?
E, nesse contexto, em que sentido o trágico
interessa a psicanálise?
Em primeiro lugar, numa única resposta: diria que é por causa
da magia que a arte promove. A arte tem o poder de banhar-se na grande caldeira
da natureza selvagem, e de aproveitar essas forças para transfigurar
o horror desta selvageria em algo de belo. A proposta freudiana de situar a
sublimação como um processo psíquico responsável
pela criação artística que dispensa o recalcamento das
pulsões e utiliza-se das forças pulsionais fazendo apenas um
desvio na finalidade destas, assinala aspectos da presença da natureza
na arte. Através da criação artística as forças
da natureza, traduzidas em forças pulsionais, encontram no mundo humano
uma expressão que não é imediata, como aquela do acasalamento
sexual, por exemplo, e que também não é recalcada, mas
transfigurada em algo que goza dos efeitos do belo.
Recordo-me da história que me contou um grande artista brasileiro, Rubens
Corrêa, a quem dedico este livro, e que se tornou célebre por
representar magnificamente personagens trágicos. Ele era uma pessoa
muito doce, amável, e um dia, no começo de sua carreira, foi
convidado a fazer o papel do Marquês de Sade. Diante da perversidade
deste personagem, ele, que nada parecia ter a ver com a perversidade, a violência,
interrogava-se se seria capaz de desempenhar este papel. E eis que de súbito,
foi pego por uma lembrança infantil da fazenda de seus pais. A cena
do abate de um bezerro lhe vem à cabeça, e nela reencontra, estupefato,
seu estranho gozo diante da beleza da vivacidade do vermelho do sangue deste
animal que escorria sobre a relva verde. Diante disso, apreendeu sua possibilidade
de extrair do horror a grandiosidade da beleza.
A referência ao belo no presente estudo, articulada ao que expus anteriormente
em meu Nau do desejo 18, apoia-se na abordagem de Lacan,
que de sua parte, segue as pistas dadas por Freud em “A transitoriedade”.
Como já vimos, o belo é proposto como o último véu
sobre a morte, e esta não é senão a pura natureza desprovida
de sentido. Este último véu torna possível o máximo
de proximidade à morte e, ao mesmo tempo, enquanto véu, deixa
ver o que esconde. Mas opera de modo a extrair seu lado exaltante.
Pela via da criação artística, pode-se ver uma relação
preciosa entre o sublime e o belo. Não pretendo entrar no domínio
de Kant, mas seria interessante para a psicanálise verificar as conseqüências
de uma relação entre o sublime como representação
da quantidade da grandiosidade e potência da natureza, e o belo como
representação da qualidade, algo que diz respeito à forma,
a uma referência de delimitação 19.
Kant distingue arte de natureza 20 . Os produtos da primeira são
considerados como obras (opus), e os da segunda são considerados
como efeitos (efféctus). Entretanto acrescenta:
A natureza era bela quando ela tinha intensamente a aparência
de arte, e a arte não pode ser chamada de bela senão
quando nós estamos conscientes de que se trata certamente
de arte, mas que toma para nós a aparência da
natureza...as belas-artes devem revestir a aparência
da natureza, embora se tenha consciência de que se trata
de arte. 21
DO SUBLIME À SUBLIMAÇÃO
O caminho do conceito de sublime ao conceito de sublimação não é evidente,
o que não quer dizer que eles não tenham relação.
Em Freud não há uma teoria constituída da sublimação,
já que ele destruiu um ensaio que escreveu sobre o assunto. Mas, ainda
assim podemos ainda assim situar algumas referências. A questão
da sexualidade está aí implicada. A sublimação é sempre
ressaltada como um processo psíquico inconsciente, que se utiliza das
forças da pulsão sexual para substituir a satisfação
esperada de um objetivo sexual por uma outra, não sexual, sem perder
sua intensidade. Esse processo é fundamental à cultura, uma vez
que está na origem de muitas atividades sejam elas artísticas,
ou de natureza científica, intelectual, atividades que aparentemente
não teriam nenhuma relação com a vida sexual.
Na Introdução ao Narcisismo 22, Freud ressalta
que a sublimação não é nenhum tipo de idealização,
na qual a tônica se encontra na superestimação do objeto
sexual. Diria que ela é a possibilidade mesma de escapar ao agarramento
ao objeto, porque privilegia sobretudo a própria atividade e não
o seu objetivo. Nesta operação não é preciso obturar-se
o vazio irremediavelmente deixado pela falta do objeto, uma vez que a criação
artística possibilita um contorno deste. A angústia diante deste
vazio é tornada operacional: eis a idéia destacada por Lacan
na Ética da psicanálise. A satisfação
obtida por esta atividade criativa é comparável à visada
no exercício direto da sexualidade. Por sua capacidade plástica,
a pulsão sexual obtém sua satisfação de uma atividade
cujo objetivo não é diretamente sexual. Por exemplo, a atividade
intelectual será pensada como uma transformação da curiosidade
sexual infantil.
Embora a concepção freudiana da sublimação não
seja submetida à categoria do sublime na estética filosófica,
não posso deixar de observar as possíveis relações
de se estabelecer entre elas. Traçando uma composição
com a concepção kantiana do sublime, diria que o processo da
sublimação opera com algo de grandioso para além de toda
comparação, algo que está em desproporção
em relação às faculdades sensíveis do homem. Mas,
acrescentaria ainda que este processo transfigura essa desmedida ameaçadora,
através de um ato que faz vibrar a “nobreza da alma”. Um
ato que leva em conta o que se apresenta como desproporção e
mostra o limite da natureza física do homem, para faze-lo experimentar
um tipo de elevação que o faz provar um modo de independência
diante desta natureza física. Este ato coloca em evidência para
o sujeito uma certa independência face à sujeição à satisfação
obtida através do objeto, o qual começa a apresentar-se para
o sujeito como sendo seu próprio corpo, expressão elementar de
alteridade. Ao mesmo tempo, a sublimação possibilita que haja
um certo resgate parcial ao nível também do objeto enquanto fruto
de criação. Pode-se ver claramente que existe aí algo
que muda a questão problemática da relação sujeito/objeto.
Sabemos que o mundo natural, o do império dos instintos, é bastante
distinto da vida pulsional. O universo simbólico intervém e promove
um desvio, que faz de todos os objetos da necessidade, objetos de dons. Objetos
que testemunham o amor do Outro e que, conseqüentemente, têm para
o sujeito valor simbólico 23. Entretanto, o pulsional e o
instintual tem uma relação um com o outro.
Repete-se freqüentemente a proposição de Freud do conceito
de pulsão, como situado no limite entre o somático e o psíquico.
No seminário Ética da psicanálise, Lacan faz alusão
a este limite como “o horizonte de nossa experiência, um campo
onde o sujeito, se ele subsiste, é incontestavelmente um sujeito enquanto
ele não sabe, em um ponto de ignorância limite, senão absoluto”.
E acrescenta: “Isto é o nervo da investigação
freudiana.” 24 É mais precisamente a propósito
da pulsão de morte que Lacan faz essas afirmações, mas
pode-se pensar que estamos aí no ponto de origem de toda a vida pulsional.
Lacan interpreta a pulsão de morte como a sublimação
criacionista de Freud, uma sublimação concernindo o “instinto
de morte” 25. Em meu livro Nau do desejo, assinalei,
nas observações de Lacan, a distinção de dois níveis:
o nível do puro instinto, perdido na natureza, e o nível das
pulsões, onde “à natureza substitui-se um sujeito” 26.
Assim, mesmo que a pulsão de morte indique a existência de um “mais-além” da
organização simbólica, “mais-além” da
articulação significante, “eu vos mostro a necessidade
de um ponto de criação ex-nihilo do qual nasce o que é histórico
na pulsão”. Lacan diz ainda:
No começo era o Verbo, o que quer dizer, o significante.
Sem o significante no começo, é impossível
articular a pulsão como histórica. E isto é suficiente
para introduzir a dimensão do ex-nihilo na estrutura
do campo analítico. 27
O ex-nihilo não está aqui sem relação
com a natureza, uma vez que esta como tal, não é acessível à possibilidade
de articulação significante. Nesta perspectiva, a sublimação
surge como o ponto entre esta natureza inapreensível e o “verbo”,
no sentido de criação humana. Desta maneira, esta natureza enigmática é capturada,
seduzida pelos laços do significante e participa, com sua potência,
da construção da obra do homem. E é a promoção
desses laços o que designa em sentido amplo, o domínio do sexual
na psicanálise.
Freud ressaltou que a pulsão de morte é silenciosa e que esta,
para fazer-se representar, vale-se do barulho que pode fazer ressoar através
de seu amálgama com a pulsão de vida, pulsão sexual. Pode-se
ver portanto, a participação dos dois elementos pulsionais na
sublimação, processo responsável pela criação.
SOBRE A METAFÍSICA
DA ARTE
De uma maneira
diferente da de Freud, mas na qual se pode
ver alguma proximidade, Nietzsche pensou
o desenvolvimento da arte como ligado à duplicidade
da expressão de duas pulsões:
a apolínea e a dionisíaca,
e comparou-o à dualidade dos sexos,
onde intervêm reconciliações
periódicas. Construiu sua metafísica
da arte e propôs Apolo e Dioniso como
deuses da arte. Eles indicariam a oposição
existente entre a arte figurativa do universo
plástico e a arte não-figurativa
da música 28. Para Nietzsche “a
arte não é apenas uma imitação
da realidade natural, mas um suplemento metafísico
desta realidade, colocado ao lado dela a
fim de a superar” 29.
Há aí uma transfiguração
metafísica.
Nietzche alega que a arte vem curar o horror e o absurdo do ser. A arte torna
a vida possível através de dois tipos de representação.
Ele diz: “Quero falar do sublime, onde a arte doma e domina o horror,
e do cômico, onde a arte permite à náusea do absurdo de
se descarregar.” 30 Parece que não estamos aí muito
distantes do processo denominado por Freud sublimação. Vale lembrar
que Nietzsche, com essas observações, está ressaltando
uma expressão específica da arte: a tragédia grega.
Segundo ele, a tragédia é engendrada pelo acasalamento da obra
de arte apolínea com a dionisíaca. É uma manifestação
da vontade grega e suas raízes são puramente religiosas. Origina-se
de uma transformação do ditirambo dionisíaco, um tipo
de canto coral desenvolvido nas florestas por um cortejo de adoradores de Dioniso,
onde Sátiros, Sileno, Pan, Aristeu, as Menades e Príapo — filho
que Afrodite lhe deu — dançavam extasiados em sua homenagem. Nietzsche
comenta que, no ditirambo, “o homem é levado ao mais alto
degrau de todas as suas faculdades simbólicas...é a essência
da natureza que deve aqui se exprimir simbolicamente.” 31 A
tragédia vem conjugar a categoria desse êxtase místico,
no qual a música tem um papel fundamental, com a dimensão da
visão, da plasticidade, da beleza do mundo apolíneo de imagens.
Para ele, a tragédia nasceu do espírito da música que
lhe é essencial.
Apesar de ter feito muita auto-crítica à sua obra O Nascimento
da tragédia (evidentes em seu Ensaio de autocrítica),
apontando nela a influência negativa de Richard Wagner e do pessimismo
romântico de Shopenhauer, o autor não é contra o que desenvolveu
acerca da representação de Dioniso. Essa representação
ganha ênfase com seu demônio dionisíaco, que é seu
querido personagem Zarathoustra, o dançarino, o que ama saltar
e rir 32 com a celebração da alegria mesmo no sofrimento.
Não se trata de forma alguma de resignação. Em função
dessa alegria, em função de seu “casamento com a vida” que
comporta todas as dimensões, portanto também as do sofrimento,
Zarathoustra será proposto como a verdadeira expressão trágica
porque é um herói feliz. É por esta via que Nietzsche
se designa o primeiro filósofo trágico 33, em seu
livro Ecce Homo.
Ao fim do Crepúsculo dos Ídolos, uma obra mais tardia
em sua vida, Nietzsche mantém sua crítica ao pessimismo de Shopenhauer,
mas faz, explicitamente, um retorno ao O Nascimento da tragédia.
A origem da tragédia foi minha primeira transmutação
de todos os valores, para aquela senda retorno eu, o último
discípulo do filósofo Dioniso, eu, o mestre do
eterno retorno, me coloco no terreno onde cresceu meu querer
e cresceu meu saber. 34
Novamente valoriza o dionisíaco como um excedente de força e
em sua relação ao orgiástico. Segundo ele, a orgia exprime
a realidade fundamental do instinto helênico, sua vontade de viver.
Pelos mistérios do êxtase, mistérios da sexualidade, eles
procuravam a afirmação triunfante da vida, vencedora da morte,
sobre o limite onde a dor opera como estimulante. É o eterno retorno à vida. “Por
isso o símbolo sexual (o phallus) era para os gregos o signo venerável
por excelência, o verdadeiro sentido profundo de todo orgulho antigo.” 35
Em sua concepção do trágico, a música é um
elemento essencial para promover este êxtase que dá outra dimensão
ao horror da dor e da morte na afirmação da vida. Ele não
faz muitas referências ao belo, mas em uma passagem do livro que acabo
de citar, afirma que o julgamento do belo é o orgulho da espécie,
uma vez que o homem, sem nenhuma garantia, toma a si mesmo como medida de perfeição
no belo 36. Em seguida acrescenta:
Nada é belo, somente o homem é belo, toda a estética repousa
nesta simplicidade, tal é sua primeira verdade. Acrescentamos em seguida
a segunda: Nada é feio a não ser o homem que degenera, com o
qual fica circunscrito o domínio dos juízos estéticos. 37
Acrescentar essa segunda proposição sem excluir a primeira, coloca
em evidência a queda da dicotomia de valores. O belo e o feio, assim
como o bem e o mal, não têm, para a afirmação de
um, a necessidade da anulação do outro. É em função
dessa paradoxalidade que o sofrimento participa da alegria.
Lacan, em sua interpretação da tragédia, privilegia a
função do belo em seu caráter de ultrapassamento da relação
de oposição. O deslumbramento provocado pela beleza é o
que faz vacilar todo juízo crítico. O belo não tem relação
com a verdade. Não é senão uma aparência, uma ilusão.
Mas por não se propor a nada além disso, o belo não nos
engana.
Através da função do belo, a morte torna-se ainda mais
tangível para o homem, mas aparece na dimensão de esplendor que
a expressão “lindo de morrer” bem o demonstra.
O belo é indicado como um tipo de participação de tudo
o que é mortal, no endereçamento à imortalidade. Permite
transpor fronteiras difíceis, permite que se toque as proximidades da Até,
ponto de fixidez, para além do qual nada pode ser visto. Ponto onde
se ancora o desejo “puro”, puro desejo de morte. É aí que
a forma do corpo humano é indicada como limite das possibilidades do
belo. Sobre a vulnerabilidade do corpo, a “falta a ser” revela-se
evidente, mas ao mesmo tempo, a fascinação do belo impede a visão
desse limite. E eis o phallus, elemento que se diferencia dessa imagem
do corpo e toma o valor de objeto privilegiado.
ENTRE O VISÍVEL
E O INVISÍVEL : O BELO PHALLUS
Da imagem
do corpo, não sem motivos, como vimos,
a psicanálise destacará este
elemento desde sempre diferencial: o phallus,
que ganha valor de objeto privilegiado. No
seminário A transferência Lacan
explicita:
A relação do corpo próprio com o phallus
tem um caráter central. Ela condiciona a relação
com os objetos mais primitivos. Seu caráter de objeto
separável, possível de se perder, sua colocação
em função de objeto perdido, todas essas características
não se apresentariam da mesma maneira se não
houvesse, no centro, o objeto fálico, emergindo como
de um plano à frente da imagem do corpo. 38
E, num outro momento, neste mesmo seminário, já havia indicado:
o phallus como signo do desejo se manifesta como objeto do desejo, como objeto
de atração para o desejo. É nessa base que reside sua
função significante, e é assim que ele é capaz
de operar nesse nível, nesta zona, neste setor, onde devemos, ao mesmo
tempo identificá-lo como significante e compreender aquilo que ele é,
assim, levado a designar. 39
O phallus será, portanto, o que resta subjacente aos objetos
do desejo, colocados em função de certas equivalências
eróticas. Nesse sentido, ele é a unidade de medida onde o sujeito
acomoda a função dos objetos de seu investimento que, por sua
vez, sempre aparecem em defasagem com o objeto real, modulado pelo poder de
sedução que é determinado pelo caráter negativo
ou incluso da aparição do phallus. O phallus não
está para nós meramente referido como órgão da
copulação, mas funciona paradoxalmente em sua relação
ao desejo, como significante da falta. Ou seja, é aquilo que aponta
a impossibilidade da acomodação do sexo ao significante, embora
seja apenas pelo significante que o homem, aprisionado na linguagem, acede
ao sexual. Mas, nem por isso, o sexual restringe-se a isso.
O phallus investido portanto, como único e verdadeiro objeto,
irá ocupar função pivô em relação
ao desejo, sendo, dessa maneira, o suporte que permite situar a série
dos múltiplos objetos que intervém na fantasia. A incidência
do phallus como significante da falta é o que permite instaurar
toda a dinâmica do desejo, no jogo das substituições. É desse
jogo que se destaca a função central do que é denominado
na teoria lacaniana como objeto a, objeto perdido na inauguração
da função desejante e que, por ser perdido, promove toda a engrenagem
que visa seu reencontro. Porém, tal reencontro, se fosse possível,
não seria senão o estancamento da função desejante,
a morte do desejo. Nesse sentido, na relação com o objeto encontra-se
a função do objeto a, que consiste em interrogar os
objetos que se apresentam nas profundezas do seu ser, buscando em seus recônditos
a dimensão enigmática do phallus que ele comportaria.
Nisso situa-se a dimensão em que o phallus, como objeto do
desejo, "se encarna justamente naquilo que falta à imagem" 40 e
nessa perspectiva, "essa presença invisível dá ao
que se chama de beleza o seu brilho." 41
Lacan havia destacado anteriormente, um outro elemento que, tal como o belo,
porém a seu modo, opera como barragem ao que se situa além da
possibilidade de articulação significante. Esse elemento é o
pudor. O pudor é articulado, como o que conserva a apreensão
direta do que está no centro da conjunção sexual. 42 Ora,
o que está no centro da conjunção sexual é o que
se evidencia como a falta de adequação do objeto de satisfação,
a inadequação da libido ao objeto, na medida em que o homem não é comandado
por um instinto que o guiaria estritamente na via da necessidade. Dessa forma,
o pudor indica essa dimensão de impossibilidade, como o que deve ficar
velado, o que não deve ser exposto por ser vergonhoso. É nesse
contexto que se situa a referência ao phallus. E nessa direção
em particular, o homem, pela linguagem, pelo recurso simbólico, é convocado
a prestar contas do que ele não é.
Aludindo a uma certa dimensão de pudor, na referência que as tragédias
fazem à morte de Antígona e Édipo, Lacan toma certos aforismas
heraclitianos que, comentando os cortejos dionisíacos, fazem-no pensar
que Heráclito teria interpretado o êxtase, presente em tais cortejos,
como referência ao Hades, porque senão tais cortejos
seriam "somente uma odiosa manifestação fálica,
objeto de nojo". 43 Com isso, apresenta-se a questão: “Hades
e Dioniso, não são eles uma única e mesma coisa?" 44
Essa relação entre Hades e Dioniso não é explicitada
mais extensamente. Entretanto, por uma breve digressão, através
da articulação de alguns elementos, tentarei indicar a sua pertinência.
As dionísias eram festas gregas em honra a Dioniso. Este, conta o mito,
era filho de Zeus com Sêmele. Juno, esposa de Dioniso, ciumenta desta
união, condenou o menino a viver longe do Olimpo. Assim, ele cresceu
nas florestas, instruído pelas Musas e por Sileno. Este último, é o
sábio referido por Nietzsche 45 que, quando perseguido e
interrogado pelo rei Midas, sobre o que seria mais desejável para o
homem, respondeu que o mais desejável era impossível ao homem,
porque seria não ter nascido. Mas, tendo nascido, o preferível
seria logo morrer. Dioníso, denominado — deus do vinho — foi
instruído por vias bastante diferentes das que vigoravam no Olimpo.
Talvez sua maior diferença seja essa de deter um saber sobre a morte,
não recuar diante desse saber e reconhecer a fascinação
que a morte, a desmedida e a embriaguez exercem sobre o homem. Ele, como um
deus estranho ao Olimpo, retorna reivindicando o seu reconhecimento. Isso,
pelo visto foi obtido, uma vez que, em Atenas instituiram-se as Grandes
Dionísias, festas urbanas em honra a Dioniso. "Nelas tiveram
origem o ditirambo, poesia entusiasta e a tragédia, ou 'canto do bode’',
de tragos,'bode’ e de ode, 'canto'; nessas festas imolava-se um bode,
porque esse animal come os renovos da vinha" . 46
Conta ainda a mitologia 47, que de uma transitória união
de Afrodite e Dioniso nasceu Priapo, e que Juno, invejosa de Afrodite, fez
com que a criança viesse ao mundo com terríveis deformidades.
Afrodite, envergonhada de seu rebento, mandou-o para outra cidade. Nessa cidade,
ele tornou-se o terror dos maridos e se viu obrigado a fugir. Uma peste começou
por assolar os habitantes dessa cidade e eles acreditaram ser isso um castigo,
pelo mau tratamento que deram ao filho de Afrodite. Dessa forma, o fizeram
voltar e o tornaram objeto de veneração, representando-o pela
imagem do phallus e instituindo festas em sua honra, nas quais o povo
se entregava a todo tipo de libertinagens.
Retomando o texto de Lacan, Dioniso portanto, tem a ver com o phallus,
pela conjunção operada por sua relação com Afrodite,
que não é senão a deusa da beleza. Assim, embora o fruto
dessa união tenha sido Priapo, objeto de vergonha, trazendo à cena
o obsceno, algo de sua bela ascendência permanece. O phallus,
como foi indicado acima, não está meramente referido ao órgão
da copulação. Ele situa-se como o elemento que advém no
lugar da impossibilidade de adequação perfeita da conjunção
sexual, que aqui creio poder denominar a conjunção da Beleza
com a Morte, levando em conta que Dioniso tem mesmo a ver com esta última.
Mas, se há algo aí a ser velado, por outro ângulo o phallus,
enquanto presença, enquanto símbolo, é investido como
esse impossível objeto do desejo, em uma dimensão bela digna
de glorificação.
A tragédia apresenta o herói na situação de fim
de linha, ou seja, na condição de estar diante de um saber
sobre sua morte, e não recuar frente a isso. O que viria franquear essa
passagem difícil, no misto de atração e horror que a morte
provoca, refere-se à função do belo. É nesse contexto
que o phallus, em sua relação com o belo, funciona como
essa unidade de medida, onde o desejo é ancorado, possibilitando um
franqueamento na impossibilidade de acesso ao objeto perdido do desejo. Nesse
sentido, a referência a Dioniso não é propriamente indicadora
de uma liberação, mas de uma ultrapassagem de limite 48,
um não recuo frente à questão da morte, onde o phallus,
em sua dimensão bela, e como herdeiro de Dioniso, opera como elemento
apaziguador. Se o desejo se aferra à evanescência de uma imagem,
a bela imagem, é para que ela paradoxalmente permita um certo tipo de
acesso e, ao mesmo tempo, faça barragem ao que na função
do desejo, permanece numa certa relação com a morte. É nessa
região limite que o homem toca o termo do que ele é e do que
ele não é. A direção de uma psicanálise
situa-se nesse contexto. É realmente nele que se pode dimensionar o
alcance do mito do Édipo.
Se estivermos de acordo com Nietzsche sobre o dionisíaco indicar o eterno
retorno à vida, então creio que se pode perceber que esse eterno
retorno à vida indica a eterna presença da morte na vida. O mérito
do dionisíaco é não negar a morte, e aguçar as
forças nessa luta perene entre a vida e a morte. A morte está sempre
lá, Dioniso o testemunha, seja através da concepção
primeira da dissolução do herói, do indivíduo,
para a afirmação da vida em sua totalidade, seja através
do eterno retorno à vida. Penso que a associação do dionisíaco
ao phallus deixa entrever sua conjunção com a beleza,
conjunção com uma forma simbólica que funciona como unidade
de medida para os objetos do desejo, cujo brilho sempre ofusca a possibilidade
de bem visualizá-lo.
O phallus indica a impossível acomodação do sexo
ao significante, mas designa entretanto o que há de mais próximo.
Por isso, é investido como este impossível objeto do desejo,
tributário de uma beleza digna de glorificação.
Em seu seminário A identificação, Lacan aborda
o phallus como o que simboliza a emergência do rochedo autoerótico. “ilha
em cume banhada pela espuma de Afrodite, falsa ilha pois para além disso,..., é uma
ilha sem amarras, uma ilha que vai-se embora à deriva.” 49 O
autor salienta que esta imagem da identificação “marca
a barreira onde a transferência encontra seu limite e seu pivô.” 50 A
transferência, esse dispositivo que age na clínica e inaugura
a possibilidade do processo psicanalítico, apoia-se sobre uma suposição
de saber atribuída ao Outro, no caso referido ao analista, mas tem como
efeito o amor. De seu manejo depende o tratamento analítico, porque
funciona tanto como resistência quanto como motor do trabalho.
Propus em um trabalho anterior 51 que o amor em sua relação
ao belo traz consigo um dos elementos transfiguradores do horror do vazio,
do horror do perigo da nadificação que se abre diante do ultrapassamento
das identificações alienantes do sujeito. Na psicanálise
toca-se uma dimensão do amor que não se sustenta pela identificação,
que não tenta obturar o abismo que permanece entre o sujeito e o que
ele recorta como seu objeto. À afirmação do sujeito, buscada
na identificação alienante, opõe-se um efeito de dessubjetivação
visado pelo processo psicanalítico. Podemos relacioná-lo talvez à queda
do herói trágico. Entretanto, no que concerne à psicanálise,
não se trata de dissolução no Uno Originário, embora
haja aí algo da individuação que cai por terra.
O DESTINO
DO PHALLUS: A CASTRAÇÃO
O destino
do phallus está implicado
no efeito de dessubjetivação
visado pela psicanálise. O phallus não é mais
o que se atribui à algum vivente, à algum
pai vivente, não é mais atributo
do ser, mas permanece como o que circula
na vida que existe entre o sujeito e o Outro,
entre o sujeito e o que está para
além. Resta como esse elemento de
troca, essa moeda libidinal, significante
do gozo. Pelo recurso de sua beleza, nossa
humanidade participa do que é divino,
do que é eterno. Não se trata
mais, absolutamente, nem de ser o phallus,
nem de tê-lo, mas de ter a possibilidade
de aceder a seus representantes simbólicos,
de participar do domínio das trocas
de dons. Para aí chegar-se, é preciso
o desapego ao phallus como objeto de identificação
narcísica, logo, é preciso
a castração.
Em um de seus últimos seminários, no Momento de Concluir, Lacan
faz referência à psicanálise como uma magia. Ele diz:
A análise é uma magia que só tem suporte
no fato de que, seguramente, não existe relação
sexual, mas que os pensamentos orientam-se, cristalizam-se
sobre o que Freud imprudentemente chamou Complexo de Édipo.
Tudo o que ele pôde fazer, é encontrar no que
se chamava tragédia, no sentido em que esta palavra
tinha um sentido, o que se chamava tragédia lhe forneceu,
sob a forma de um mito, algo que articula que não se
pode impedir um filho de matar seu pai. Quero dizer com isso
que Laios enganou-se bastante ao afastar esse filho sobre o
qual uma predição havia sido feita, isso não
o impediu entretanto, e eu diria tanto mais, de ser morto por
seu próprio filho. 52
Num seminário anterior, O sintoma, Lacan observou que a mitologia
cristã propõe na relação do pai ao filho, a idéia
de um redentor. Isso é o protótipo do que o leva ao neologismo:
père-version, feito a partir do jogo de palavras— perversão,
pai-versão, versão do pai. Vê-se aí uma tentativa
de transgredir limites. Freud tentou desprender-se desse sadomasoquismo, através
de algo que é mais antigo do que esta mitologia cristã. Este “algo” é a
castração. É assim que diante da questão do complexo
de Édipo, abordada ainda pelo poder que se atribui ao pai, é preciso
que se articule uma outra referência, a do complexo de castração
e seu mais além, seu “descomplexo”.
A castração é a transmissão manifestamente simbólica
do phallus. Sua dimensão simbólica deve-se ao fato de
que o phallus, transmitido de pai para filho, comporta nesta operação
algo que anula o phallus do pai, antes que o filho tenha o direito
de o portar. 53 É óbvio que nesta noção
psicanalítica de castração, não se trata absolutamente
de referência à mutilação de fato. As idéias
fantasmáticas de desmembramento, de emasculação, ou de
seccionamento, indicam que a castração simbólica não
funcionou direito.
O complexo de Édipo nos remete a uma dimensão da temática
teísta. Lacan salienta no seminário Os problemas cruciais da
psicanálise, que os argumento ateístas são muito freqüentemente,
mais teístas que os outros. Em Freud, a noção de divino
ultrapassa todo pensamento ateísta que o precedeu, simplesmente porque
ele o substitui.
Quanto à temática paterna, se ele nos diz que está nela
o suporte de uma crença em Deus, é para lhe dar certamente uma
diferente estrutura, e a idéia do pai não é a herança,
nem o substituto do pai, dos pais da igreja. 54
Como sabemos, o pai original aludido por Freud é uma referência
primordial fundamentalmente mítica, fonte da constituição
da identificação na dimensão mais idealizante, dado que é a
partir da mesma que se estrutura a função psíquica do
que chama de ideal do eu.
Lacan lembra que a referência primordial desta função faz-se
sobre a evocação do corpo, de onde advém a importância,
nos primeiros estágios da relação libidinal, do processo
de incorporação. “A articulação referendável
etnologicamente da refeição canibal (refeição
em que os filhos comem o pai que mataram) está no ponto inaugural
do surgimento da estrutura inconsciente.” Assim a “teologia
freudiana” toma a “forma de materialismo radical, no qual
o suporte não é como se diz, biológico, mas o corpo.” 55
A referência mítica, etnográfica, presente no ato de consumir
a vítima primordial, o pai desmembrado, é designada pelo objetivo
de assimilar “o que no corpo se apresenta como o mais inapreensível
do ser que nos reenvia sempre à essência ausente do corpo”.
Por essa via tenta-se assimilar “no corpo precisamente o que não
morre, o que faz com que o corpo, antes de ser o que morre e o que passa pelos
canais da reprodução sexuada é algo que subsiste em uma
devoração fundamental que passa de ser a ser.” Visa-se
então “essa transmissão de uma libido em si mesma imortal.” 56
As outras formas de identificação, como a identificação
ao objeto de amor, ou a da identificação ao desejo do Outro,
são secundárias a essa que opera pela incorporação,
tanto na história da cultura, quanto na história do sujeito.
A identificação ao objeto de amor instaura-se pelo efeito da
dialética da frustração e da demanda. É somente
quando o sujeito se dá conta de que algo lhe falta, que esse objeto,
do qual sente-se frustrado, marca a inauguração de todas as relações
de objeto, porque é apenas aí que este é distinguido pelo
sujeito, e se torna o ponto onde a demanda se apoia. Assim, a identificação
ao objeto ocorre na medida em que esse se torna objeto da frustração.
Essa perspectiva apresenta-se no texto de Freud Psicologia das massas e
análise do eu, como a alternância entre o “ser” e
o “ter”. Lacan comenta:
O sujeito advém então de não se ter
o objeto da escolha, e os termos de sujeito e objeto são
colocados aqui na balança, articulados expressamente
por Freud, mas nos diz também que há aí para
ele um mistério, que nós nos encontramos aí diante
de uma perfeita opacidade. 57
Freud localiza aí o ponto de parada da experiência analítica.
Designa-o como rochedo da castração.
Na operação analítica onde a demanda conjuga-se à transferência,
o sujeito faz a experiência da falha, vive a experiência dessa
fenda que é preciso integrar na experiência analítica.
A frustração diante da demanda é inevitável. Não
porque o analista perversamente o quer, mas porque a demanda articula-se ao
desejo, e este é sobretudo desejo de desejo. O desejo traz em si um
elemento indestrutível, incapturável, mesmo que se faça
o erro de tentar responder à demanda. Enquanto humanos, não paramos
de demandar, somos todos suplicantes. Mas há algo que pode mudar na
posição do sujeito diante de sua própria demanda. É possível
não se estar aprisionado na demanda. Não responder à demanda
do analisante não tem o objetivo de frustrá-lo, mas de enviá-lo
a outro registro da falta, o registro da castração, onde a questão
não é a impotência de alguém diante de seu objeto
de escolha, mas a impossibilidade do acoplamento do sujeito ao objeto. Eis
aí outra forma de dizer que a relação sexual é impossível.
A perspectiva ética da psicanálise trabalha nesta direção.
Assim, a questão da castração está inteiramente
inserida na direção do tratamento analítico e, mais estritamente,
a castração implica “que o sujeito realiza que ele
não tem, que ele não tem o órgão do que eu chamaria
de gozo único, unário, unificante. Se trata propriamente do que
faz Um gozo na conjunção de sujeitos de sexo oposto...” Lacan
ressalta “que não há realização subjetiva
possível do sujeito como elemento, como partner sexuado no que se imagina
como unificação no ato sexual.” 58
Mas se a questão da castração é fundamental na
psicanálise, Lacan lembra o que se esconde aí dentro, a saber,
que na dupla relação da transferência e da demanda, o que é velado é a
posição da privação que não é senão
a privação do phallus. É na função
radical da privação que se encontra a articulação
lógica das três posições subjetivas em relação à falta:
castração, frustração, privação.
Esses são três modos de se experimentar a falta do objeto. Nesse
contexto, é preciso também não esquecer que o sujeito,
nessa forma essencial da privação, é “ininstituível”, “é impensável
fora dessa pulsação bem figurada por essa oscilação
do zero ao Um que se verifica como sendo necessária para toda abordagem
do número, para que o número seja pensável.” 59
O SUJEITO
: SOMBRA DO NÚMERO
Com a introdução
do número, Lacan quer acentuar a relação
primeira entre esta posição
zero do sujeito e o nascimento do um que
tem duas funções: uma de miragem,
que é de confundir o um com
o indivíduo; e outra é a
do um da numeração,
por onde a diferença e a alteridade
se introduzem. A questão da alteridade
do Outro deve ser remetida ao nível
dessa repetição do um que
o institui em sua heterogeneidade essencial.
Reconhece-se então, diversos um.
Assim é de um zero inicial,
onde a realidade do sujeito encarna-se na
pura falta ou no vazio, se o preferir, que
o sujeito instaura-se como esse zero ao
qual falta preenchimento; é aí que
se coloca em jogo a bipolaridade entre o
objeto que ele pode ter e o objeto que ele
pode ser.
A experiência analítica nos mostra ... que
na operação da qual se trata há sempre
um resto, que na divisão do sujeito entre o zero e o
um, nenhum preenchimento do um, nem ao nível da demanda
do ter, nem ao nível do ser da transferência,
não reduz totalmente essa divisão; que o efeito
da operação não é jamais um puro
e simples zero. 60
E na lição seguinte, Lacan acrescenta que “o sujeito
situado em alguma parte entre o zero e o Um, se manifesta tal qual ele é,
permita-me fazer a imagem: a sombra do número.” 61
Pode-se ver implicada na direção da cura analítica uma
certa dimensão de morte por conta da operação de dessubjetivação
que o desgarramento narcísico do phallus engendra. Pode-se
compreender a morte do herói analisante como o resultado desse desapego
ao phallus. Trata-se da morte desse indivíduo, dessa miragem,
como o sacrifício que a psicanálise faz operar no trabalho analítico,
para que o sujeito do desejo possa se efetivar. Já mencionei que a tragédia
antiga era herdeira de um culto onde cantando e dançando imolava-se
um bode em homenagem a Dioniso; ora, na psicanálise, o bode imolado
me parece ser esse apego narcísico ao phallus. O que é inteiramente
diferente da imolação ao phallus. Isso porque do acesso
simbólico do phallus depende a verdadeira possibilidade das
trocas humanas. O phallus é assim a ausência presente, o qual
vai impelir o desejo mais longe na vida.
Não se trata de mergulhar nosso herói analisante em um Uno
Originário, ou em qualquer sentimento oceânico de comunhão
com a totalidade. No primeiro capítulo do Mal-estar na cultura,
Freud respondeu a propósito do sentimento oceânico que, se existe, é secundário, é uma
tentativa de escapar do desamparo que é fundamento de toda concepção
religiosa. Não há então possibilidade de se fazer Um com
o que quer que seja, outro sexo, outro sujeito, ou a totalidade da vida. Mas
as sombras dessa visada fazem suas incidências. O phallus, esse
símbolo da plena turgência vital, testemunha-o enquanto o que
empresta seu brilho singular a todos os objetos, ou melhor, a todas as fantasias
do desejo. Mas é preciso sublinhar que ele está lá como
o que empresta o brilho, e não como o que faz consistir algo.
A ORDEM ROTATÓRIA
ENTRE O SEXO E A MORTE
Sabemos que
o sexo é muito precisamente ligado à morte
do corpo, o que força a reprodução.
Em uma passagem do seminário Os
não-enganados-erram, Lacan aborda
a relação da morte ao princípio
da verdade. Argumenta:
como trata-se da morte — é mesmo por isso
que temos apenas a verossimilhança, porque essa morte,
princípio da verdade, essa morte no ser falante enquanto
ele fala, é apenas pretensão — a morte,
verdadeiramente, para que se a tenha diante de si, não
está ao alcance da verdade. A morte impele a verdade.
Para tê-la diante de si, para lidar com a morte, isso
só é possível através do belo,
onde aí isso faz a liga. 62
Se na perspectiva psicanalítica a morte não traz nenhuma totalidade
como consolação, talvez seja porque não há necessidade
de consolação. Não há, ao menos no que toca a Freud
e Lacan, uma proposição da vida como vencedora da morte. Diria
que aqui se está no ultrapassamento da dicotomia mesmo desses dois valores:
a vida e a morte. Isso não implica negar sua heterogeneidade, nem negar
o conflito entre as duas pulsões que fazem o movimento da vida psíquica.
Mas não há primazia no nível dos valores que atraem o
desejo, de uma sobre a outra.
O desejo é atraído tanto pela morte quanto pela vida. Ele circula
com seu movimento de “eterno retorno” a seu ponto de inauguração:
o objeto perdido. Diria que o desejo é a encruzilhada onde a heterogeneidade
desses dois valores se articulam. O que se sabe é que enquanto há vida,
há amálgama de pulsões, pulsão de vida e pulsão
de morte na expressão do desejo, e há também gozo, ou
seja, satisfação paradoxal, na tentativa de ultrapassamento do
desejo com a busca de fazer equivaler a vida e a morte para atingir a imobilidade
do movimento pulsional. Diria que necessariamente se tem aí algo de
orgia no sentido de superabundância de valores. Lacan propõe que “o
Real é mesmo três, a saber, o gozo, o corpo, a morte, na medida
em que eles estão amarrados, que eles estão amarrados apenas,
bem entendido, por esse impasse inverificável do sexo.” 63
Para os seres falantes a morte participa da vida tanto quanto a vida participa
da morte. Há aí uma relação de participação
que faz um tipo de partição que marca uma heterogeneidade, mas
sem propor nenhuma exclusão nesse nível. Se em termos gerais,
os sintomas são defesas na vida do sujeito ante o irrepresentável
da morte com todo o seu peso de horror e atração, a relação
do processo analítico com a morte deve-se também ao fato de os
sujeitos buscarem a análise por causa de uma perturbação
na estabilidade da economia pulsional que antes fazia o sucesso dos sintomas
de defesa.
Já salientei anteriormente que a morte implica privação
radical, relação ao Nada. Mas esse Nada, tão caro à perspectiva
existencialista, introduzido para os seres falantes no real sempre pleno, Lacan
propõe notá-lo como esse símbolo, -?,
ou seja, isso que o sujeito deve ao phallus, o que lhe falta da plena
turgência fálica. De qualquer forma, para abordar a morte é preciso
um símbolo, mesmo que ele esteja lá em negativo, com um signo
de menos.
Assim, com Lacan vimos que para lidar com a morte é preciso que o belo
faça a liga. Há “uma certa ordem rotatória” 64 ,
onde sobre esse corpo que está no lugar da morte, da degeneração,
o belo promove uma transfiguração que vem resultar na glorificação
do corpo. O que aí se encontra é o princípio do gozo.
E eis que a arte o ilustra através da produção de uma
população inumerável de corpos gloriosos da qual o cristianismo
aproveita-se para ilustrar o gozo eterno. Nisso o barroquismo exerce aí a
sua função. Então esse corpo, que é a morada da
morte, das doenças, das dores, é também a glorificação
da vida. Há aí um círculo. Os crânios e os esqueletos
freqüentemente apresentados nos quadros onde os artistas retratam personalidades
ilustres e poderosas lembram o ciclo do corpo que bascula entre o dejeto e
a glorificação.
Com um certa dose de irreverência, ousarei associar este círculo à imagem
da serpente que morde sua própria cauda, presente no Zaratoustra de
Nietzsche. Essa serpente serve para representar tanto a repetição
que leva ao niilismo passivo, girando entre a vontade de nada e o nada de vontade
que conduz à morte, se ela é uma serpente que rasteja, quanto
a vontade de potência que faz a afirmação do eterno retorno,
ou seja, o eterno retorno à vida, se ela voa enroscada no pescoço
de uma águia. A questão que se coloca aqui é que a confrontação
com a mesma coisa pode produzir o fracasso absoluto, ou ao contrário,
pode ser experimentada enquanto uma prova de força que estimula o vigor.
Tudo depende da posição onde se está instalado.
Acho curioso que a serpente seja associada no imaginário popular a uma
das representações do phallus. Na relação
ao phallus, ela toma diferentes funções conforme a posição
onde opera no sujeito. Há que se notar uma grande diferença entre
o apego narcísico ao phallus enquanto fonte de alienação
estagnante, e a função simbólica do phallus enquanto
elemento essencial para atrair o desejo. É importante sublinhar que
estar numa ou noutra posição não depende evidentemente
de uma afirmação da consciência do sujeito.
O percurso de uma posição à outra exige uma certa dose
de sacrifício de um tipo de relação ao phallus,
para que se possa aceder a um outro tipo de relação a ele. Como
já foi visto, o conceito psicanalítico de castração
indica esse descolamento narcísico como condição indispensável
para a celebração da atividade desejante que se apóia
na relação simbólica ao phallus. É dessa
forma que ele não é algo que possa pertencer a alguém,
mas circula fazendo o brilho dos objetos atraentes para o desejo, onde a tônica é dada
antes ao desejo do que ao objeto. Isso implica na perda radical do objeto.
Delineia-se assim a direção do processo psicanalítico,
com a castração como a operação que designa uma
relação produtiva à falta do objeto enquanto complemento
do sujeito.
NO ALÉM
DO FÁLICO, A/MULHER E O ANALISTA
A libido organiza-se,
regula-se tomando o phallus como
símbolo. No entanto, por ora o que
quero ressaltar aqui é a dimensão
do Outro que ultrapassa a referência
fálica. A inscrição
fálica articula o gozo às leis
do significante, leis da linguagem, mas a
noção de gozo Outro proposta
por Lacan, aponta um gozo fora da linguagem,
fora do sexo, fora da possibilidade de ser
apreendido por representações.
Entretanto, é na medida em que estamos
todos dentro da referência fálica,
referência de linguagem, que também
a partir dela que podemos sentir os efeitos
de um mais além. É essa sinalização
de um mais além do fálico que
permite a Lacan sublinhar, em relação
aos humanos, não propriamente a difundida
dualidade dos sexos, mas uma outra dualidade,
frente a qual o sujeito é dividido — a
dualidade de gozos: gozo fálico e
um gozo Outro.
Diante da limitação do gozo sexual, gozo fálico, dependente
do órgão, esse gozo Outro coloca-se como visado, da mesma maneira
que se imagina sempre a galinha do vizinho como a mais saborosa, mais ainda...,
como sugere o título do seminário. É nessa perspectiva
que o sexo feminino é qualificado como Outro em relação
ao phallus, tanto para os homens quanto para as mulheres, porque enquanto
sujeitos falantes, as mulheres estão também no registro fálico,
e assim, não estão inteiramente no domínio do feminino.
Esse gozo Outro, designado também como gozo feminino, não tem
relação com a castração e conseqüentemente
nem com a função do Nome-do-Pai. Não é o caso,
nesse momento, de depreender todas as implicações dessa noção
de gozo Outro. Deixarei esse trabalho para uma próxima oportunidade.
O que está me interessando agora é a indicação
de um paradoxo na cura analítica. Porque se o que é visado no
trabalho analítico é o acionamento da função do
Nome-do-Pai naquilo em que esta mostrou-se deficitária para a regulação
simbólica, a cura mesma pretende entretanto, levar o sujeito a poder
dela se passar, ou melhor ainda, a poder ultrapassá-la, isto é,
tocar esse registro que está para além do domínio do phallus.
Isso implica um certo encaminhamento em direção ao Real, em direção
ao furo no saber, em direção à perda da esperança
de suturar a falha no saber, o que se articula a essa suposição
de um gozo Outro que aquele do domínio da representação. É a
indicação de Freud da inexistência de representação
do sexo feminino no inconsciente que permitiu a Lacan qualificá-lo como
Outro em relação ao phallus, e a tudo o que se organiza
em torno deste.
Nessa dimensão que se situa na tragédia como queda do pai, perda
de garantia onde é tocado o registro do que está para além
do domínio do phallus. Ponto onde se localiza A mulher, no
sentido de enigma absoluto para os homens (e também para as mulheres
em sua dimensão empírica), no sentido da alteridade absolutamente
radical, que assinala um mais-além da castração exatamente
por não estar em relação ao phallus. Sobre o
uso do artigo definido para designar o universal (A mulher), Lacan
propõem que incida uma barra (A), já que não
há universalidade possível quando se trata de A mulher.
A introdução desse conceito A/ mulher, por referência
ao que é Outro em relação ao phallus, encontra
na tragédia Les Coûfontaine Paul Claudel sua melhor ilustração.
Nela o desejo de pensamento que promoveu toda a construção do
edifício filosófico e que está na base da relação
da cultura ocidental com o saber, na qual o saber apresenta-se como aquilo
que posso focalizar à luz do pensamento, do logos, da razão,
sofre uma operação de torção com a personagem de
uma mulher cega chamada Pensée, da última peça da trilogia.
Ao ser figurado pela imagem dessa mulher bela e cega, que convoca ao amor, à desrazão,
o pensamento é encampado, possuído pelo desejo. Isso não
pode deixar de trazer conseqüências para as tentativas de abordagem
da verdade.
A mulher como elemento operador dessa torção no logos e
de sua relação com a verdade, aparece de forma semelhante na
obra de Nietzsche. No Prólogo de Além do Bem e do Mal,
ele parte da suposição de que a vida seja uma mulher, o que explicaria
a insuficiência do dogmatismo filosófico para abordá-la.
Ali assevera que a seriedade e a desajeitada insistência com que os filósofos
aproximaram-se da verdade, “foram meios impróprios e inábeis
para conquistar uma dama” 65 . Essa articulação
entre a mulher e a verdade, parece encontrar sua extensão em Assim
falou Zaratustra, onde Nietzsche deixa entrever ainda, uma equivalência
entre a mulher e a vida, que, traiçoeira, remete a riscos. Daí o
conselho da velhinha: “Vais ter com as mulheres? Não esqueça
o chicote” 66. Decorre que, no ‘casamento’ com
a vida, o herói Zaratustra não deve esquecer o chicote para faze-la
dançar e gritar, apontando uma certa dimensão de antinomia entre
a mulher-vida, e o saber, no comentário: “Naquele tempo, contudo,
eu gostava mais da vida do que algum dia gostasse de toda a minha sabedoria.” 67
Se prosseguirmos com as implicações dessa relação
da mulher com o logos, creio que podemos alinhar, de um lado, o saber
racional, o logos, a vinculação do homem à civilização,
e do outro, a verdade, o enigma da vida e a mulher. Obviamente não estou
aqui fazendo referência a uma mulher, ou às mulheres na dimensão
empírica de sua existência cotidiana. Também não
estou buscando fórmulas que pretendam generalizar as mulheres (como
se isso fosse possível), mas estou aqui fazendo referência à possibilidade
de expressar alguma dimensão de diferença radical, que esse Outro
sexo tem, indicando encantos situados além da falicidade, do poder do
sentido.
Assim, pode-se dizer que toda análise, tanto para homens, quanto para
mulheres, na medida do possível conduz em direção a A/
mulher. Diria que esse é o ponto limite do saber, do sentido, da
representação, que está em uma relação de
vizinhança com o Nada ao qual chega o herói na tragédia,
para ir até o fim com o seu desejo. Ir até o fim com seu desejo,
na Psicanálise, significa ultrapassar essa ancoragem do sentido, da
espaçosa subjetividade, para tocar um Nada que mostra bem seu valor
efetivo, dado que é tudo o que resta.
DAS IMEDIAÇÕES DO HORROR AO AMOR FACT
A fascinação
e o horror suscitados na peça por
Pensée, parecem provir da mesma fonte.
O temor da morte, repelida pela aspiração
de se fazer grandes feitos, estes que visam
a posteridade, desvela entretanto sua face
de amor pela morte, via o efeito transfigurador
que a beleza de Pensée opera, promovendo
a ultrapassagem da barreira que impedia esse
amor terrível de ser visto. Aqui chega-se
mais perto da verdade dessa força
psíquica, a qual Freud no Além
do Princípio do Prazer, nomeou
de ‘pulsão tanática’,
que encontra expressão em seu feliz
amalgamento com as pulsões eróticas.
O paradoxo iluminador que vigora nesse embricamento
fica evidente no texto de Claudel e em tantas
outras tragédias onde a temática
do amor aparece ligada à morte.
Nesse ponto, reporto-me a Nietzsche, na leitura que faz da atração
pela morte em O Nascimento da Tragédia. Conforme anunciado
na verdade de Sileno 68 que diz que o melhor para o homem seria
não ter nascido, não ser, nada ser, mas, sendo isso impossível,
então é preferível logo morrer. Porém, se essa
verdade é impossível de ser suportada, os gregos teriam inventado
a tragédia para que, pela beleza da música que nela era elemento
preponderante, a referência à morte perdesse sua potência
depreciativa e ganhasse um poder de celebração, trazendo por
conseqüência, o encorajamento.
Assim é preciso criar recursos de transfiguração para
se poder suportar nas tragédias, essa relação com a morte,
de forma a não recusar, não rejeitar essa dimensão da
condição humana, de aproximação à região
das trevas, onde se apresenta corte radical. Ressalto que dois elementos contribuem
para essa transfiguração: a música cantada pelo coro,
tal como já referida por Nietzshe e a beleza das ações
e da cena. É assim que entendo que os efeitos de júbilo, de celebração,
provocados pelas tragédias decorrem da aceitação do sofrimento,
graças à operação desses recursos transfiguradores.
Na experiência psicanalítica tocamos de perto esse saber de Sileno,
que aparece como um buraco na trama do tecido que confecciona a fantasia fundamental
que sustenta cada um de nós. E eis que o domínio do horror faz
também sua incidência na psicanálise. Mas, retomando a
questão, quais são os recursos tranfiguradores da psicanálise
para que possa sustentar essa confrontação?
Proponho que a convocação a dizer não importa o quê,
regra fundamental da psicanálise que privilegia o significante em relação
ao significado, desvela a musicalidade própria a esse campo. Desta forma,
o não-senso radical é contornado por essa sonoridade que, ao
não se fechar num sentido, funciona como fonte de toda significação
possível. É nesse ponto que creio poder situar a noção
lacaniana de significante puro, no qual o universo simbólico
finca suas âncoras. Assim, pode-se entrar na região das trevas
desde que se possa falar dela.
Essa relação do significante à música é sugerida
por Lacan nas metáforas que utiliza para falar do discurso do psicótico
no seminário As psicoses 69. Também sobre
essa relação, remeto o leitor à Alain Didier-Weil, que
desenvolve sua teoria da sideração. Através do que conceitua
como commandement siderant ressalta a presença da dimensão
sonora, musical, na entrada do sujeito no universo da linguagem. 70
Porém como sabemos, uma psicanálise não se sustenta apenas
pelo acionamento do universo do significante. É preciso ainda uma outra
coisa que anime este universo. A palavra a ser empregada aqui é justamente
animar, ou seja, dar alma, dar vida a esta experiência. E nessa perspectiva,
temos no manejo do achado do amor na transferência, a dimensão
de beleza que concerne a psicanálise, e que funciona como seu outro
elemento de transfiguração. O amor — domínio do
demônio — onde, ao invés da ênfase sobre a plenitude
dos deuses, tem-se antes a confrontação com a falta, impõe
uma busca que, como Platão sublinhou no Banquete, não é senão
a busca do belo.
É verdade que numa de suas perspectivas, o amor é meio de elisão,
forma de mascarar a falta-a-ser, colocando-se na direção de um
Bem-Supremo. Contudo certamente esta perspectiva diverge muito da ótica
psicanalítica. O amor em psicanálise deve operar como o que não
visa algo da ordem dos bens, da ordem do ter, mas aponta a relação
ao ser e por conseqüência, à sua falta. Porque o ser reconhece-se,
delimita-se justamente face a isso que ele não é, ou seja, face à sua
falta. Pela beleza, por esse amor ao belo, obtém-se a ajuda para franquear
os limites da ordem dos asseguramentos e marchar em direção ao
desejo. Ele é o meio de transporte que deixa entrever a participação
do que é mortal, perecível, na ordem do eterno, ilimitado.
Dessa forma, o que está em jogo no amor que preside a experiência
psicanalítica, é sua relação a algo que para além
de todos os objetos situa-se em uma perspectiva sem limites. É aí que
se encontra a função metonímica do desejo. Isso mostra
que nenhum objeto totaliza a resposta à busca que o desejo aciona. Mas
isso não impede que certos objetos possam funcionar como chamarizes
para regozijar o desejo. Porque supõe-se que esses objetos parciais
abrigam uma preciosidade escondida, um agalma, que os promove à dignidade
do divino. É em torno desse ponto que gira a vida amorosa do sujeito
e por isso é preciso que na experiência analítica se possa
cernir isso que funciona como agalma.
Pode-se entrever a operação da catharsis por meio da
musicalidade dos significantes e da beleza do amor no manejo da transferência.
Esta, tal como é proposta por Lacan, tem o sentido de meio de purificação
do temor e da piedade, que são as paixões que detêm o sujeito
em sua caminhada em direção ao desejo. Lacan lembra que “a única
coisa da qual se pode ser culpado, ao menos na perspectiva analítica, é de
ter cedido de seu desejo”. 71 Ou seja, ter se afastado,
em nome de qualquer boa intenção, da articulação
própria que suporta o tema inconsciente e nos enraíza em uma
destinação particular. Mas se nesse campo onde se ancora a direção ética
da psicanálise, tem-se a vantagem de reencontrar alguma orientação
mais efetiva da ação, para nele se chegar é preciso que
se pague o preço do acesso ao desejo.
Mostra-se o malogro da salvação nas tragédias, não
para difundir um sentimento depressivo, mas para promover uma celebração
da vida em todas as suas perspectivas, e com toda a sua intensidade, mesmo
a do sofrimento. Aqui vigoram todos os riscos que em sua perspectiva de expansão
e não de conservação, a vida comporta. O amor fact nietzscheano
parece ter aqui toda sua pertinência, dado que não se elimina
da vida nenhum de seus aspectos, mesmo os mais difíceis de serem afirmados.
Isto não é uma posição pessimista, e nem eu diria
que seja realista, porque as tragédias mostram que este real visado
pelo realismo é impossível de ser apreendido pelo homem. Estamos
bem mais próximos portanto, da posição trágica,
do trânsito entre os extremos. Contudo quanto a isso, ao articular a
psicanálise à tragédia, nunca é demais lembrar
o alerta que nos faz Lacan quando diz que é apenas como homens comuns
que podemos trilhar a via traçada para o herói que existe em
cada um de nós”. 72
Notas:
1 LACAN, Sem.,
livro 7, L’étique de la
psychanalyse, pg.376.
2 ______ , Sem., livro 3, As psicoses,
pg.273
3 FREUD, Além do Princípio do
Prazer, XVIII, 1920.
4 MAURANO, Denise, La face cachée de
l’amour, FR, Presses Universitaires de Septentrion,
1999.
5 SARTRE, l’Être et le Néant,
France, Gallimard, 1943, pg.57.
6 LACAN, Sem., livro 6, Le désir
et son interprétation, pg.364, inédito.
*Os textos inéditos de Lacan, ou cuja tradução em português
ainda não tenha sido publicada, serão alvo de uma tradução
livre.
7 LACAN, Sem., livro 20, Encore,:pg.138.
8 _____, Sem, livro 17, pg. 113 — Ed.
franc.:pg. 139.
9 _____, pg. 116 —Ed. franc.: pg 143.
10 FREUD, Sigmund, Malestar na Cultura,
Vol. XXI, pg.57.
11 NIETZSCHE, Friedrich, O Nascimento da tragédia,
pg. 69 — La Naissance..., pg. 83/84.
12 JULIEN, Nadia, Dictionnaire de Mythes,
Belgique, Marabout, 1992, pg. 203/204.
13 NIETZSCHE, Friedrich, Op. Cit.
14 Op. Cit., pg. 70 — pg. 84.
15 FREUD, Sigmund, Tótem e Tabu,
Vol. XIII, pg. 103
16 ______, Op. Cit, Vol. XIII, pg. 157/158.
17 REINACH, 1905-12, 2, pg.76, in FREUD, S., Op.
Cit., pg.155.
18 MAURANO, D., Nau do desejo: o percurso da ética
de Freud a Lacan, RJ, Ed. Relume Dumará, 1995.
19 KANT, Emmanuel, Critique de la faculté de
juger, Paris, Gallimard, 1985, pg.182/183.
20 ______, Op. Cit., pg. 256.
21 ______, Op. Cit., pg.260/261
22 FREUD, S., Introdução ao Narcisimo,
Vol.XIV, pg. 65.
23 LACAN, Jacques, Sem., livro 4, As
relações de objeto, cap. XI.
24 _____, Sem., livro 7, A ética...,pg.
260 — L’éthique..., pg.252.
25 _____, Op.Cit,. 260/261— Ed. franc.:Op.
Cit.
26 _____, Op. Cit, pg.260.— Ed. franc.:Op.
Cit.
27 _____, Op. Cit. pg. 261 — Ed. franc.:Op.
Cit..
28 NIETZSCHE, Friedrich, Op.Cit., pg..29 — Ed.
franc.:Op. Cit.pg. 41.
29 _____, Op.Cit., pg. 140 — Ed. franc.:Op.
Cit. pg. 152.
30 _____, Op.Cit.,pg. 56 — Ed. franc.:Op.
Cit. pg. 70
31 _____, Op.Cit., pg. 35 — Ed. franc.:Op.
Cit. pg.49
32 _____, Ensaio de autocrítica,
pg.23 — Essai d’autocritique, pg.34.
33 _____, Ecce Homo.
34 _____, Crepúsculo dos Idolos,
pg.126.
35 _____, Op.Cit., pg. 125.
36 _____, Op.Cit., pg. 93 - Item 19.
37 _____, Op.Cit., pg. 94 - Ítem 20