Parmênides:
sua criança vigorosa & sua teoria
do ser
Denise Maurano
Elogiando uma filosofia para a vida e não para o conhecimento erudito,
Nietzsche, em 1873, provavelmente por solicitação de Cosima Wagner,
e na base de seus cursos na Basiléia 1 redigiu seu livro A
filosofia na Idade Trágica dos Gregos, destacando a produção
maravilhosa de alguns velhos mestres da Antiguidade. Encontramos nele, observações
preciosas acerca de sua interpretação do pensamento de Parmênides
em sua teoria do ser o que se constitui no tema principal de nosso presente
ensaio.
Nietzsche
voltado ao regate da pespectiva trágica
que a seu ver permeia a produção
dos pré-socráticos, na qual
a verdade persiste em se furtar a revelação
tal como ocorria relativamente ao heroi da
tragédia ática, reconhece a
Parmênides como o menos trágico
desses filósofos quando, no segundo
período de seu pensamento, produziu
a teoria do ser dentro de um enfoque de pura
abstração 2.
Não
será tanto a relação
com a dimensão enigmática da
verdade que dissituará Parmênides
da tom trágico dos pré-socráticos.
Como assinala Beaufret, a verdade é designada
pelos gregos (e Parmênides não
se furta a isso) por uma expressão
privativa: alétheia, onde
a partícula inicial a vem
adicionar-se ao substantivo léthe do
qual não sabemos bem sua natureza,
mas nos parece indicar que é "como
se o silêncio fosse mais conveniente
a ela do que a palavra" 3,
o que nos aponta a ligação
entre o revelado por ela a uma não
revelação mais inicial, de
maneira que a não revelaçào
permaneça como o que há de
mais radical no que se manifesta, abrigando
o enigma no seio da verdade.
A obra principal
de Parmênides, o poema: Sobre a
Natureza, do qual nos resta apenas alguns
fragmentos, é dividida em duas partes:
o discurso Da Verdade e o discurso Da
Opinião. Ela se refere ao esforço
da distinção radical entre
o ser e o não-ser e é marcada
por essa singularidade da relaçào
dos gregos na abordagem da verdade. Para
Nietzsche, o que propriamente situará Parmênides
num lugar outro que não o da visão
trágica do mundo será esse
enfoque de pura abstração surgido
tardiamente em sua teoria do ser. A seu ver
ele prenuncia o tema da ontologia, postulando
um mundo extra-sensorial, distante da vida
e só acessível pelo pensamento,
inaugurando a perspectiva metafísica
que dominará a partir de então
a produção filosófica
e todo o pensamento ocidental.
Nesta pespectiva,
o momento que divide o modo de filosofar
de Parmênides que, como vimos, a princípio
não privilegiava a pura abstração,
divide igualmente , segundo Nietzsche, o
pensamento pré-socrático em
duas metades: a primeira é dominada
por Anaximandro, a segunda por Parmênides." 4
Nietzsche
acreditava que a segunda parte do poema de
Parmênides, aquela que, como citamos
se refere ao discurso Da Opinião,
correspondia a sua primeira filosofia, a
produção de sua juventude que
se encontrava bastante ligada aos ensinamentos
de Anaximandro.
Anaximandro
se perguntando sobre a maldição
do devir, desse processo que para ele indica
que se há a origem é porque
nesse mesmo ponto há a condenação
ao perecimento, conclui que o ente verdadeiro
deve "estar desprovido de propriedades
definidas, que conduzem a morte; e é por
isso que o seu nome é o 'Indefinido'.
O ser originário assim designado domina
o devir e garante, por isso , a eternidade
e o livre curso do devir" 5.
Desta forma, o Indefinido só poderia
ser designado de maneira negativa, sem que
se lhe atribua nenhum predicado condenador
e, de certa maneira seria equivalente, segundo
Nietzsche, a "coisa em si" de Kant. 6 Assim
Anaximandro distingue um mundo físico
de qualidades definidas, de um mundo metafísico
que seria o domínio da indeterminação
indefinível.
Nietzsche
acredita que Parmênides teve relações
pessoais com Anaximandro e que tal como Heráclito,
embora num perspectiva oposta a esse, tentou
responder as questões por ele suscitadas.
Se a hipótese
de Nietzsche é correta, num primeiro
momento, Parmênides refletindo acerca
das qualidades no mundo e comparando-as entre
sei julgou que não eram homogêneas
e que precisavam ser classificadas em duas
rubricas. Comparando, por exemplo o claro
e o escuro, percebeu a segunda como negação
da primeira e , desta maneira, distinguiu
qualidade positivas e negativas. Trabalhou
, desta forma, numa imensa categorização
de qualidades.
Pela utilização
desse método, Nietzsche já observa
a aptidão de Parmênides para
o procedimento lógico e abstrato,
uma vez que classificar , por exemplo, como
qualidades negativas o escuro, o pesado,
o denso, etc., implicava já uma resistência
a sugestão dos sentidos, porque por
eles, qual seria a razão de não
se reconhecer , por exemplo, a positividade
do pesado? Mas para Parmênides as qualidades
negativas exprimiam apenas a carência
das qualidades positivas e assim, ao invés
da designação 'positivo'e 'negativo',
preferiu empregar os termos 'ser ' e 'não-ser',
concluindo, portanto, contra Anaximandro,
que o nosso mundo contém ser, mas
também não-ser. 7
Desta forma,
afirma que para o devir contribuem o ser
e o não-ser, o positivo e o negativo,
e indo mais além alega que, via uma qualitas
occulta, que seria a propensão
mística que faz com que os opostos
se atraiam mutuamente e que em nome de Afrodite,
em nome do desejo, se unifique os opostos,
o ser e o não-ser, resulte o devir.
Neste ponto o desejo uma vez saciado permitiria
que o ódio e a contradição
voltem a separá-los. 8
Porém
um dia, segundo Nietzsche, depois de muito
haver ensinado essa sua filosofia física,
Parmênides , tomado pelo " estremecimento
glacial da abstração",
deteve-se no conceito de qualidade negativa,
de não-ser e se perguntou: "Será que
uma coisa que não é pode ser
uma propriedade?" Ou melhor: "Será que
uma coisa que não é, pode ser?" E
concluiu inexoravelmente por uma lógica
tautológica: "O que não é,
não é! O que é, é!" 9.
Avaliou então a sua produção
até aí como um monstruoso erro
lógico.
Num esforço
de abstração lógica,
Parmênides expõe seu discurso Da
Verdade,como revelado por uma deusa
que, conforme alerta Beaufret é a
própria verdade, "a própria
verdade aparece como sagrada e divina no
lugar que lhe é próprio, isto é,
no domínio da fortaleza onde não
pode atingi-la nenhum dos caminhos comumente
seguido pelo homens." 10 Esta
deusa não se dá a ver, pois
não é mais que uma voz, situando
a reserva inerente à verdade, característica
da perspectiva grega. Nas palavras de Beaufret:"Ater-se à verdade
não é pois ter moradia numa
luz sem sombra. É, ao contrário,
avernturar-se na luz do dia até a
secreta contra-luz da abstenção,
que se reserva para si e que ela nos impede
de sustentar.Mas sustentar a reserva de uma
tal abstenção não é recuar
diante do indizível. É antes
promover ao extremo o acabamento do dizer,
nunca podendo a palavra consumar-se num dito fiel
ao desdito do tácito, que
jamais termina de esgotar." 11
O discurso
da deusa difere também do discurso Da
Opinião, referido ao universo
dos dakounta, das próprias
coisas como elas se apresentam ao comum dos
mortais, na medida em que não se deixa
influenciar pelas evidências dos olhos
e do mundo do devir, mas se norteia e tudo
examina com a força do pensamento.
Como nos diz Parmênides:
"Não acreditais nesses olhos estúpidos". "Não
acrediteis no ouvido barulhento ou na língua, mas examinai tudo com a
força do pensamento!" Nietzsche recolhe aí a primeira crítica
ao aparelho do conhecimento, crítica importante, porém, segundo
ele, nefasta por trazer como consequência a dissociação brutal
dos sentidos, da capacidade de pensar abstrações, portanto da razão.
Solo de onde Platão irá colher a cisão entre o espírito
e o corpo. 12
O que é postulado
a partir de então é que o mundo
do devir que se apresenta aos sentidos não é senão
aparência e ilusão, cria-se
portanto, "um ódio contra esse
engano eterno dos sentidos, ao qual não
se pode escapar" 13 e que
quer nos fazer crer que o não-ser
existe e que o devir tem um ser.
Um fragmento
do poema nos diz:
" Jamais
poderá existir força de constrangimento
que faça ser aquilo que não é,
afasta tu, porém, o pensamento desta via da opinião
e faze com que o hábito nascido das muitas experiências dos
homens não te o obrigue
a dirigir para este caminho o olho que não vê, o ouvido ribombante
e a língua, mas unicamente com o pensamento examina e decide a muito
debatida questão
que por mim te foi dita. E permanece agora falando somente da via
que diz que é. Sobre esta via existe muitíssimos sinais;
não sendo gerado, é também imperecível,
porque é íntegro em seus membros e firme e sem um termo para
o qual tender.
Jamais foi e jamais será, porque é agora e simultaneamente
tudo em sua completeza
uno, contínuo. Que origem quererias procurar para ele?
Como teria nascido e de onde teria vindo? Do não ser não te
permito
dizê-lo, nem pensá-lo. Porque não há possibilidade
de dizer ou de pensar o que não é." 14
Desta forma,
o ser deve existir como eterna presença,
não se podendo dizer dele "era " ou "será".
Ele é alheio ao devir, não
pode ter surgido, dado que sempre foi. É tambem
indivisível, imóvel, completo,
equilibrado, perfeito e uno, uma vez que
não pode haver vários seres
mas apenas a unidade eterna.
Segundo Nietzsche,
o que aí é sacrificado é o "sangue
da realidade empírica", o filósofo
está agora imerso em abstrações 15.
Obsecado pela certeza vazia abre mão
do vigor da produção para a
vida, numa época em que o pensamento é ainda
mítico, móvel e abriga o fantástico.
A experiência não lhe ofereceu
este ser, mas por tê-lo podido pensar,
Parmênides concluiu sua existência,
o que vem para ele , afirmar o pensamento
como "órgão do conhecimento
que penetra a essência das coisas e é independente
da experiência" 16.
Referido a
lógica da oposição "o
que é , é ; o que não é,
não é " Nietzsche argumenta
que "posso muito bem dizer de uma árvore
'ela é ', quando a comparo com todas
as outras coisas, que 'chega a ser' quando
a comparo com ela mesma num outro momento,
ou que 'ela não e' , por exemplo,
'ainda não é uma árvore',
quando a observo em estado de arbusto".
E acrescenta: "Pelas palavras e pelos
conceitos, nunca atravessaremos o muro da
relações, nem penetraremos
em qualquer origem fabulosa das coisas".17 Isso
porque ele alerta que ser e conhecer são
as duas esferas que mais se opõem
e aponta a ingenuidade de Parmênides
que acreditava que a partir do conceito chegaria
a um ser-em-si , o que em nossa época,
depois de Kant, é impensável.
Porém,
para Parmênides e também para
Zenão, seu discípulo, são
os conceitos que desfazem o nó da
realidade. O mundo sensível não é mais
do que um objetivação do que é ilógico
e contraditório, e será através
dos conceitos verdadeiros e universalmente
válidos que teremos os critérios
decisivos acerca do ser. Desta forma , o
pensamento é idêntico ao ser.
Há uma vitória do pensamento
sobre os sentidos. Como nos diz o poema: "São
a mesma coisa o pensar e o pensamento que é 18".
Nesta perspectiva,
a realidade que acusa o tempo, o movimento,
o espaço não passa de aparência, é fruto
da fantasmagoria do Não-Uno que nossos
sentidos produzem. A realidade não
se refere portanto, a uma 'verdade eterna'.
Entretanto,
neste ponto, Nietzsche contra- argumenta: "Se
o pensamento conceitual da razão é real, é preciso
então que a pluralidade e o movimento
também sejam reais, pois o pensamento
racional é movimento, movimenta-se
de conceito para conceito, portanto no interior
de uma multiplicidade de realidades." E
acrescenta: "Se os sentidos só nos
dão enganos e aparências e se,
na verdade, só existe a identidade
real do ser e do pensar, o que são
então os sentidos?" "Como é que
eles enquanto irreais , podem iludir? O que
não é, nem sequer pode enganar-nos.
Portanto, a origem da ilusão e da
aparência permanece um enigma, uma
contradição."19 Para
Nietzsche, se o mundo se apresenta a cada
momento diferente, não se trata de
ilusão, pura aparência, mas
aponta um movimento eterno.
De qualquer
forma , podemos concluir que apesar de todas
as críticas, Nietzsche não
deixa de reconhecer a importância da
produção de Parmênides,
mesmo no que tange a essa parte do poema
destinada ao discurso Da Verdade,
embora deixe claro seu maior apreço
pelo pensamento que se articula na juventude
do pensador e que aparece na vertente do
poema dirigida ao discurso Da Opinião,
expressando um sistema de física que
por mais que Parmênides o situe como
um crime contra a lögica, não
deixa, ele próprio, de valorizar-lhe
a qualidade e a justeza. O que Nietzsche
considerará como "piedade paternal
para com a criança vigorosa e bem
proporcionada de sua juventude".20 Diríamos
nós, ponto onde a qualidade negativa,
a expressão do não-ser de sua
obra, apresenta-se paradoxalmente em plena
positividade na relaçào ao
mundo.
Alfenas,
6 de dezembro de 1993.
Notas:
1 BEAUFRET,
Jean - O POEMA DE PARMÊNIDES - in Os
Pensadores - SP - Ed. Abril Cultural - 1978
- pg.164.
2 NIETZSCHE, Friedrich - A FILOSOFIA NA IDADE TRÁGICA
DOS GREGOS - Lisboa - Edições 70 - 1987 - pg.57.
3 BEAUFRET,Jean -Op. Cit. pg.160.
4 NIETZSCHE, Friedrich - Op. Cit. pg.57.
5 Op. Cit. pg. 35.
6 Idem.
7 Op. Cit. 59|60.
8 Op. Cit. 61.
9 Op. Cit. pg. 65.
10 BEAUFRET, Jean - Op. Cit. pg.159.
11Idem.
12NIETZSCHE, Friedrich - Op. Cit. p. 67.
13Idem.
14PARMENIDES - Os Pensadores - SP - Ed. Abril Cultural
- 1973 - I - pgs. 148|149 in MONDIN, Battista - CURSO DE FILOSOFIA
- V. I - SP - Ed. Paulinas- 1981- pp.29| 30 .
15 NIETZSCHE, Friedrich - Op. Cit. p.67.
16 Op. Cit. p.70.
17 Op. Cit. p. 71.
18 PARMÊNIDES - Op. Cit. p. 30.
19 Op. Cit. p. 77\78.
20 Op. Cit. p. 58.
Denise Maurano
Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, e professora adjunta
da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF/MG). Tem doutorado em Filosofia
pela Universidade de Paris XII, e pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro. É autora de Nau do desejo: o percurso da ética
de Freud a Lacan (Ed. Relume Dumará, 1a. ed.1995, 2a. ed. 1999), A
face oculta do amor: a tragédia à luz da Psicanálise,
RJ/MG, Imago Editora, 2001, livro publicado também em versão
francesa pela Presses Universitaires de Septentrion, FR, 2000.