Algumas considerações sobre o estádio do espelho

Geraldo José da Costa Piquet
Corpo Freudiano do Rio de Janeiro – Escola de Psicanálise


A relação humana com o mundo tem algo de profundamente, inicialmente, inauguralmente lesado.
Jacques Lacan

O conceito do estádio do espelho foi desenvolvido por Lacan a partir da experiência de Henry Wallon que, em 1931, descreveu como a criança vai aos poucos diferenciando seu corpo da imagem que observa no espelho. Segundo Wallon, isto se daria face a uma compreensão simbólica, por parte do sujeito, do espaço imaginário em que constitui sua unidade corporal. A “Prova do espelho”, como Wallon chamou sua experiência, demonstraria, assim, a passagem do especular para o imaginário e do imaginário para o simbólico.

Em 1936, em uma Conferência na Sociedade Psicanalítica de Paris, Lacan vai se utilizar do experimento de Wallon e de sua terminologia, para desenvolver seu conceito do Estádio do espelho, onde vai abordar um momento estrutural do ser humano, que ocorreria entre os seis e os dezoito meses de vida, quando ele se reconhece na imagem de um outro no espelho. A identificação com essa imagem vai lhe proporcionar uma ilusão de completude, antagônica à vivência de despedaçamento, referendada pelo seu momento pulsional auto-erótico.

Nesse mesmo ano, Lacan retorna ao tema, em uma conferência no Congresso Internacional Psychoanalitical Association (IPA) de Marienbad, texto que acabou se perdendo, sendo algumas anotações de Françoise Dolto suas únicas referências.

Em 1938, Lacan retoma a importância do imaginário na estruturação do sujeito, em um artigo para a Enciclopédie Française, a pedido de Henry Wallon, onde aborda a questão dos complexos familiares na formação do indivíduo.

O texto final do estádio do espelho é apresentado em sua versão definitiva em 17 de julho de 1949, no XVI Congresso Internacional de Psicanálise, em Zurique, com o nome de : “O estádio do espelho como formador da função do eu – tal como nos é revelada na experiência psicanalítica”.

Em seu seminário sobre os escritos técnicos de Freud, 1953/1954, Lacan aborda novamente o tema do estádio do espelho para, na parte intitulada “A Tópica do imaginário”, repensar os conceitos freudianos do Narcisismo, Eu ideal e Ideal de eu.

O texto do estádio do espelho tem sido, desde sua apresentação definitiva, em 1949, alvo de inúmeras leituras teóricas, demonstrando sua grande abrangência no campo da psicanálise. É nossa intenção, neste trabalho, abordarmos, de modo geral, os aspectos principais da teoria do estádio do espelho, desenvolvendo uma compreensão básica do tema.

Operação psíquica, onde o eu vai ser constituído a partir de uma identificação do indivíduo com um outro, o estádio do espelho vem suprir, imaginariamente, esse momento do nascimento do homem, caracterizado pela prematuração, vivificada pela falta de coordenação motora, comum nos primeiros meses de vida. Lacan vai usar o termo “infans’’ para se referir à criança neste momento de imaturidade biológica.

Ao se ver refletida no espelho, a criança percebe naquela imagem uma completude que lhe é estranha, uma vez que sua vivência corporal é a de um despedaçamento, corpo “morcélé”, como coloca Lacan. Esta imagem de um outro vai gerar na criança uma identificação com o que vê ,dando a ela um referencial de si mesma, origem da constituição de um eu- imaginário. Cabe ressaltar, aqui, que, apesar de usarmos no decorrer do texto a figura de “uma imagem no espelho”, a simples visão de um outro semelhante vai exercer na criança o mesmo efeito constituinte, como coloca Ogilvie:

“É todo e qualquer comportamento de um outro que lhe responda que desempenha aqui o papel de um espelho, e mesmo qualquer traço material que a criança deixe atrás de si, jato ou destroço, no qual ela se contemple como sendo a autora.” 1

Ao obter esse domínio imaginário de seu corpo, pela visão de sua imagem no espelho, o sujeito vai se conceber como um outro que não ele mesmo, concepção própria do ser humano, fundadora do campo da fantasia e garantia de uma certa exterioridade em nossa relação com nós mesmos.

Esse estranhamento, causado no sujeito por essa alienação especular, gera uma dialética de anulação entre o sujeito e o objeto, onde a existência de um vai se contrapor à do outro. A agressividade vai se fazer presente neste momento, intrínseca à relação especular, onde o sujeito ama aquilo com que se identifica e quer ser, e ao mesmo tempo, por ser outro, odeia. Deste modo, vamos ter aqui uma agressividade voltada para o interior do sujeito.

Ao perceber sua unidade, através de um objeto situado fora de si, o sujeito é tomado por uma sensação de despedaçamento, de não “adaptação fundamental”, que o lança numa errância característica de sua vida pulsional. Assim, ao mesmo tempo em que se constitui imaginariamente, o homem também é marcado por uma vivência de perda.

Em sua relação com a imagem do espelho, o sujeito vai se diferenciar do animal pela preexistência da matriz simbólica, campo a partir do qual o eu vai se formar. É esta matriz simbólica, que preexiste ao imaginário, que vai dar ao homem uma dimensão outra que não a do animal. Se este fica preso ao imaginário, no que isto diz respeito a atender mecanismos inatos que visam à preservação da espécie, no homem a articulação desse imaginário com o simbólico vai abrir um campo de possibilidades de investimentos na realidade.

Nesse momento da formação do eu, a realidade, que se apresenta para o sujeito, é caótica e indefinível quanto a qualquer juízo de existência. “A pura e simples realidade”, sendo esta imagem do corpo forma primeira assumida pelo sujeito, é que vai lhe permitir situar, dessa realidade, aquilo que vai ou não ser parte constituinte do eu.

É o simbólico que vem, com a possibilidade de nomeação dos objetos, dar alguma estrutura a esta percepção da realidade. Ao serem nomeados, os objetos ganham uma certa consistência, ao contrário de quando estavam inseridos na relação narcísica (imaginária) com o sujeito, onde a percepção deles era fugidia. Esta consistência dos objetos vai possibilitar ao sujeito vivências prazerosas, ou não, em relação aos mesmos, caracterizando o momento da formação do eu.

O eu, cuja existência para Lacan se resume até então ao funcionamento do aparelho nervoso central, com sua tendência a homeostase, vai se ver inscrito por objetos prazerosos, o que vai ocasionar uma divisão do eu entre aquilo que é prazeroso, “Lust-ich”, e o que causa desprazimento, “Unlust”.
Se o “Lust-ich” vai ser constituido pelos objetos que causam prazer ao eu, o “Unlust” , por sua vez, vai ser constituído a partir daquilo que é inassimilável, irredutível ao prazer, ganhando assim a dimensão de um “não-eu”, que vai se situar no interior do “eu primitivo”, sem no entanto ser absorvido por seu funcionamento homeostático.

Temos, assim, uma parte desse eu, que é puramente imaginária, formada por essas imagens dos objetos de prazer que compõem o eu, entre elas a própria imagem do sujeito no espelho, e uma parte que aponta para algo do real, naquilo que o real tem de inassimilável, irredutível ao eu.

O modo como o sujeito vai se posicionar estruturalmente em relação à realidade vai depender de sua articulação com esses dois registros, imaginário e real, o que só vai ser possível com a mediação do simbólico, representado no sujeito pela palavra.

Esta passagem de um estádio onde o eu é tomado como puramente imaginário para um momento onde ele já se vê articulado com o simbólico abre campo para a compreensão dos conceitos de eu-ideal e ideal de eu em Lacan.

Podemos associar as instâncias do eu-ideal e do ideal de eu aos dois tempos do narcisismo. Assim, o primeiro narcisismo vai ser associado a essa imagem real no espelho, o eu-ideal, que permite ao sujeito organizar de certa forma sua realidade, e o segundo narcisismo a essa identificação com a imagem do semelhante, o outro, ideal de eu, que, por sua vez, vai dar ao sujeito condições de situar, de modo mais preciso, sua relação imaginaria e libidinal com o mundo externo.

O desenvolvimento do eu vai se dar, justamente, a partir do momento em que passa a direcionar seu investimento libidinal para o ideal de eu, isto é, a estabelecer uma relação dialética com a realidade, estando a realização desse ideal diretamente ligada a satisfação do eu.

Se temos, assim, um eu-ideal formado no campo do imaginário, o ideal de eu vai se apresentar numa vertente imaginária e simbólica, uma vez que atravessado pelo campo da palavra proveniente do Outro.

É dessa formação do sujeito humano que a teoria do estádio do espelho vem tratar, sujeito do inconsciente, lugar da vacilação própria do homem em sua relação com a realidade.


Nota:

1 OGILVIE, 1988, p.111.


Referências Bibliográficas:

LACAN, Jacques. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.
_______. O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
_______. O seminário, livro 11: os quatros conceitos fundamentais da psicanálise. RJ, Jorge Zahar, 1990.
_______. “O estádio do espelho como formador da função do eu”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
FREUD, Sigmund. “Sobre o narcisismo: uma introdução”. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. 14.
OGILVIE, Bertrand. Lacan – a formação do conceito de sujeito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
RABINOVICH, Diana S. La teoria del yo en la obra de Jacques Lacan. Buenos Aires: Manatial, 1986.
ROUDINESCO, Elizabeth e PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.


Geraldo José da Costa Piquet
Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro — Escola de Psicanálise

* Este texto foi publicado em Documentos, n.13, ano VI, maio de 2000.

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