Prefácio
de:
Sobre as manipulações
irreversíveis do corpo, de Paola
Mieli
Rio de Janeiro: Coleção Janus, Corpo Freudiano do RJ/ Contracapa,
2002.
Denise Maurano
HABLA UN BUSTO DE JANO
Nadie abriere o cerrare alguna puerta
Sin honrar la memoria del Bifronte,
Que las preside. Abarco el horizonte
De inciertos mares y de tierra cierta.
Mis dos caras divisan el pasado
Y el porvenir. Los veo y son iguales
Los hierros, las discordias y los males
Que Alguien pudo borrar y no ha borrado
Ni borrará. Me faltan las dos manos
Y soy de piedra inmóvil. No podría
Precisar si contemplo una porfía
Futura o la de ayeres hoy lejanos.
Veo mi ruina: la columna trunca
Y las caras, que no se verán nunca.
Jorge
Luis Borges
Publicado em "El oro de los tigres", 1972
Vocês
certamente já devem ter ouvido falar
de JANO. Filho de Apolo, esse deus romano caracterizado
por ter duas faces e por ter construído
um reino pacífico na chamada Idade
do Ouro, idade de desenvolvimento das
artes, é aquele que preside as aberturas
e os fechamentos, como Borges o indica nesse
belo poema. Foi assim que abrindo e fechando,
fechando e abrindo, ao melhor modo do ritmo
pulsátil do inconsciente e da vida,
o Corpo Freudiano do Rio de Janeiro - Instituição
Membro de Convergencia, Movimento Lacaniano
para a Psicanálise Freudiana -
resolveu selar com esse deus a coleção
que o presente livro inaugura.
Essa escola, comprometida com a formação e transmissão
da psicanálise e que já conta, há alguns anos com a publicação
do periódico Documentos 1, alarga agora com a nova
coleção, sua interlocução com a comunidade, seja
ela psicanalítica, ou leiga, buscando contribuir cada vez mais, com
transmissão do discurso psicanalítico.
Bem sabemos que a difusão da psicanálise, não contribui
necessariamente para a sua transmissão. Nem é preciso ter muita
intimidade com o texto freudiano para se ter conhecimento das inúmeras
atrocidades que a ele foram feitas. Para além dos problemas de tradução,
os desvios, omissões, deturpações, são uma constante
quer por ignorância, quer por má fé. É nesse sentido
que o retorno lacaniano ao texto freudiano, proposta que inaugurou os estudos
de Lacan, e que também nos move em nosso trabalho, não revela
um rigorismo de conservadores, mas sim o empenho de depreender todas as conseqüências
possíveis da fecundidade dessa invenção que é a
psicanálise.
Tal fecundidade para além de pulular na quantidade volumosa de estudos
deixados pelo legado freudiano, que encontra-se ainda muito longe de ter sido
esgotado em seu poder de enunciação, é atestada quotidianamente
pelos efeitos da prática clínica decorrente dessa invenção.
Tal prática, encontra-se comprometida com uma ética muito particular
que certamente não promete facilidades. Não vende a idéia
de que viver é fácil, mas aposta no encorajamento promovido pelo
não recuo frente ao desejo, por mais oneroso que este seja.
É a partir dessa ética que um ato analítico se faz, dentro
ou fora do setting clínico estrito-senso. Seus efeitos se fazem
notar nas intervenções psicanalíticas que dia a dia, se
estendem pelo campo social.
Este livro, Sobre as manipulações irreversíveis do
corpo, primeiro de nossa coleção, testemunha a delicadeza
e rigor com que Paola Miele, psicanalista italiana que atua em Nova Iorque,
articula o pensamento clínico psicanalítico com questões
concernentes ao campo social, mostrando o quanto que essa ética inspirada
no reconhecimento do que há em nós de precário, de não
sabido, longe de apontar par uma visão pessimista da condição
humana, celebra justamente essa mesma humanidade. Celebra a falta e o não-senso
como a abertura necessária à invenção da particularidade
de nossa existência.
Paola, que é também doutora em Filosofia, iniciou sua formação
em Milão, sua terra natal, e a desenvolveu em Paris, trabalhando anos
a fio com Jacques Leclercq, autor há muito tempo prezado pela comunidade
analítica brasileira. Justamente com ele desenvolveu o projeto que culminou
no livro do qual é Co-editora: Being human - the technological extensions
of the body, Agincourt/Marsilio, New York, 1999. É também
Co-autora de Actualité de l'hystérie, Érès,
Paris, 2001, além de autora de inúmeros artigos publicados na
Europa e na América, alguns dos quais reunidos neste volume.
Sempre voltada para preocupações concernentes à formação
dos analistas e ao desenvolvimento do discurso psicanalítico, interessou-se
desde cedo pelas ligações da psicanálise com o campo social.
Voltou-se para a interlocução com a ciência e com as artes,
dedicou-se à reflexão sobre questões jurídicas.
E foi nesse movimento que instalada em Nova Iorque desde 1985, veio a fundar
em 1987 a instituição Après-Coup Psychoanalytic Association,
da qual é presidente. Esta é uma associação pioneira
na criação de uma comunidade psicanalítica lacaniana em
NY, e que obteve recentemente o reconhecimento formal do Estado americano de
sua atividade de formação.
Psicanalista engajada na comunidade internacional, Paola é ainda.membro
do Le Cercle Freudien (Paris), da Lacanian School of San Francisco e da School
of Visual Arts (Nova Iorque). A particularidade de residir na América,
exige ainda mais da autora - a sustentação de um trabalho crítico
de importância fundamental no contexto no qual atua. Como ela observa
em um de seus trabalhos, a “existência da ‘realidade
material’ da psicanálise, em nada garante a existência do
verdadeiro discurso psicanalítico”. Bem sabemos que a grande
difusão da psicanálise nos U.S.A. contou, por diversas razões,
com uma enorme deturpação das propostas de Freud, que vão
desde vis interesses mercadológicos de manutenção da prática
psicanalítica ao domínio restrito dos médicos, até contaminações
desta prática advindas do estilo pragmático americano (american
way of life), e dos efeitos das guerras sobre a nação americana,
.
Para melhor esclarecer ao leitor esse contexto, introduzirei algumas importantes
reflexões produzidas recentemente em um Colóquio organizado em
Montpellier, na França, pelo movimento Convergencia, que contou dentre
outras instituições, com a organização do Corpo
Freudiano do Rio de Janeiro e do Après-Coup Psychoanalytic Association.
Nele, a questão da psicanálise nos Estados Unidos foi extensamente
trabalhada, motivada sobretudo pela discussão em torno do modo pelo
qual esta nação abordou os efeitos traumáticos decorrentes
dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.
Neste Colóquio, o trabalho de Mark Stafford, membro do Après-Coup
sublinhou a maneira particular como a nação norte-americana,
recuando da experiência da perda, diante do ataque catastrófico
que fez cair por terra as torres gêmeas matando alguns milhares de americanos
e causando um trauma incomensurável, voltou-se o mais rápido
possível, para um trabalho de restituição.
Essa questão foi também abordada pelo americano Richard Ledes,
confirmando a dificuldade dessa nação de viver seu luto. Dificuldade
de se dar tempo para os procedimentos da perda. Ele indicou as conseqüências
disso, na verificação do desenvolvimento de novas patologias,
que por exemplo revelam a depressão como a revanche
de um luto que não pode se realizar, não pode ser concluído.
Pela depressão, este luto reivindica reconhecimento.
Muito rapidamente depois do atentado o próprio presidente Busch declarou
o fim da lamentação. Como se o luto, que inclui a lamentação
pelo perdido, pudesse ser impunemente estancado por injunções
governamentais.
Parece que na impossibilidade de acolher a participação da morte
na vida, impossibilidade de acolher a participação da destrutibilidade
e do não senso no centro de nós mesmos, a morte, ou seus efeitos
diante desta rejeição, retornam de fora e reclamam reificações.
E neste momento, não há Prozac ou medidas de segurança
que sejam eficazes para detê-la. Isto porque o que é rejeitado
retorna sempre ainda mais forte.
Em uma análise mais extensa, Ledes assinalou a diferença entre
a maneira pela qual Freud fez sua abordagem do trauma, da violência e
da destrutividade humanas considerando-os como elementos constitutivos da subjetividade
e o modo como o trauma é tratado dentro da perspectiva norte-americana,
sobretudo pelo governo e pela mídia. Nesta perspectiva o inimigo está sempre
na exterioridade, e o risco de sofrer um ataque é sempre iminente. Sem
terem noção do dano que com isso eles se auto infligem.
O modelo do trauma, traduzido pelo trauma da guerra ofereceu a possibilidade
de promover um esquecimento do perigo interno. Este esquecimento parece ter
afetado também a psicanálise que se expandiu nos Estados Unidos,
justamente depois da II Grande Guerra, acabando por dar suporte
ao desenvolvimento da psiquiatria, reconhecida então como nova psiquiatria.
A psicanálise se difundiu imensamente aí, porém ficou
comprometida pela psiquiatria e pelo ideal pragmático do american
way of life, como mencionei acima.
Os colegas americanos mostraram como nesta perspectiva, trata-se de recuperar
o mais rápido possível, não propriamente o sujeito que
sofre, mas sobretudo sua capacidade de trabalho, para que ele não deixe
de produzir e saia do campo de batalha, seja esta a batalha da guerra, ou da
vida moderna.
O slogan: NY precisa de nós fortes!,
difundido depois do atentado, em consonância com o Projeto Liberdade,
projeto que surgiu como oferta de aconselhamento gratuito para todo nova-iorquino
em sofrimento devido a perdas causadas pelo ataque de 11 de setembro, articula-se
com um outro slogan que apareceu muito tempo atrás, na Semana
de Saúde Mental. Este conceito de saúde mental, ganha
corpo no início dos anos 50, no período do pós-guerra,
momento em que uma legião de neuróticos de guerra era uma verdadeira
epidemia no país, quando então exibiram o slogan: Construa
você a Saúde Mental: um direito de nascença das nossas
crianças, a força de uma nação!
Vejam que a questão da força – `NY precisa
de nós fortes e as crianças, a força de uma nação’– denuncia
a mesma, como a palavra de ordem do pensamento norte-americano, pensamento
este que funciona, de uma certa maneira, como paradigma da contemporaneidade.
Podemos pensar que a força que interessa é no final das contas,
a força do Ego, ou do eu como o designou
Freud antes da tradução inglesa tê-lo revestido de termos
eruditos latinos, para restringir o acesso de leigos à psicanálise.
Todos os investimentos dirigem-se para encontrar meios de tornar o eu o
mais forte possível.
Ora, bem sabemos que o eu é privilegiadamente identificado à consciência,
e que no ato fundador da psicanálise, foi justamente a pretensa soberania
da consciência no centro do psiquismo, que caiu por terra com os achados
freudianos dos poderes do inconsciente.
Assim é dentro deste contexto bastante inóspito que Paola Mieli
promove um resgate do rigor da ética freudiana atestado no presente
volume pela forma como trabalha seu texto. Na estrutura de seu texto, através
de um evidente trabalho de pesquisa depurada e de leitura atenta, a autora
tece o rigor da sincronia entre o texto freudiano e a palavra de Lacan. Diferentemente
daqueles que defendem a perspectiva de uma ruptura que Lacan teria promovido
em relação à Freud, a autora colhe achados de Freud, que
o leitor jura que teriam sido ditos por Lacan. Creio que podemos dizer que
a autora mostra o quanto de fato, Freud “fala lacanês” ou
ainda melhor, aponta a fidelidade de Lacan ao texto freudiano. Obviamente,
não se está com isso, negando as contribuições
originais de Lacan, mas apenas enfatizando o quanto exprimem a conseqüência
de um compromisso radical com a ética depreendida da invenção
freudiana.
A exemplo disso, temos aqui presente o texto Os tempos do trauma,
no qual com a delicadeza de um crochê de linha fina e pontos firmes Paola
entrecruza as reflexões de Freud acerca da fantasia originária,
com a abordagem lacaniana da dimensão estrutural mítica da experiência
subjetiva. Pela pista de Lacan, sublinha a noção freudiana de
traços de percepção Waharnehmungszeichen, constituição
de um primeiro ciframento que aparece como marca do real, como aquilo que Freud
pode encontrar de mais próximo do conceito de significante, quando a
lingüística ainda não o tinha trazido à baila.
Com base na investigação acerca do trauma, com uma visão
muito mais estrutural do que histórica da obra freudiana, a autora resgata
em Freud a noção de gozo, normalmente destacada por referência à obra
de Lacan, revelando com nitidez a fonte dos achados lacanianos. Ela nos faz
ver que ainda que nós saibamos que Lacan tenha designado seu campo de
investigação como campo do gozo, faz-se evidente a incidência
do gozo e não apenas do desejo na própria fundação
do psiquismo, dado que ele atua na celebração da constituição
do traço de percepção, que revela-se como a primeira estratégia
do sujeito de responder ao real que o acossa. Este, apresenta-se como traço
comemorativo da experiência traumática, que fixa uma inscrição
inconsciente, à qual sempre se retorna. Não para repetir propriamente
o mesmo gozo, mas para comemorar sua irrupção.
Afinal frente ao traumatismo, ou ao troumatisme, neologismo de Lacan
para enfatizar a dimensão terrificante da confrontação
com o trou, buraco em francês, confrontação com
o despreparo absoluto do humano de dar conta das exigências do real,
qualquer traço é lucro. Frente a esse real inassimilável à elaboração,
extrair dele um traço ao qual se possa retornar é portanto motivo
de comemoração e conseqüente fundamento da persistência
de um gozo que necessita repetição. Como o real é o que é inapreensível,
inassimilável, não se tem com representá-lo, resta sonda-lo
como aquilo que jaz por trás da repetição.
Como a autora diz:
Freud sustenta até o final de sua vida que nenhum ser humano escapa às
experiências traumáticas. O trauma não é apenas
algo da ordem do acidente, ele possui uma função estrutural na
articulação da subjetivação humana. Segundo Freud,
ele está intrinsecamente relacionado com a dependência do sujeito
ao Outro, com a natureza da pulsão, com a sexuação do
ser humano, com o recalcamento primário como mecanismo constitutivo
da estrutura psíquica. A noção de trauma implica uma concepção
particular da temporalidade em ato na causalidade psíquica e, nesta,
da função da fantasia.
Participando de um debate extremamente em voga na sociedade americana dado
a quantidade de processos que chegam aos tribunais, citando sobretudo pais
e professores como suspeitos de terem cometido abusos sexuais, Paola retorna
a discussão freudiana acerca do papel desempenhado pela fantasia e pela
realidade no trauma. A autora enfatiza o quanto que para além dos acidentes
que podem se acumular na história de cada um como dando corpo ao trauma,
a experiência traumática não é dependente de uma
contingência mas funciona como uma necessidade psíquica. A referência
ao trauma é buscada quer na realidade quer na fantasia, e segundo o
postulado por Freud e o que a clínica nos revela, no final das contas
o resultado é o mesmo.
Esta, é apenas uma das temáticas ressaltadas nesse livro, rico
em diversidades. Os textos O que significa ser lacaniano para um psicanalista? e
do Fins, referem-se mais particularmente a experiência da autora
em Nova Iorque, relativa ao enfrentamento de condições não
favoráveis ao desenvolvimento do discurso psicanalítico. Algumas
dessas condições desfavoráveis, não encontram-se
também tão distantes de nossa experiência aqui, o que faz
com que questões levantadas por ela, sejam pertinentes para refletirmos
acerca, por exemplo, da atual discussão que anda tramitando em nosso
meio e que já até chegou até no Congresso Nacional, sobre
a regulamentação da psicanálise como profissão.
Em um dado momento ela se pergunta:
Como conciliar o discurso subjetivo do qual o analista é guardião
na prática, o discurso da singularidade, da diferença,
com a demanda de um discurso coletivo que pretende regulamentar
a formação analítica, uniformizar sua
prática, tal como ocorreu outrora, e como é ,
cada vez mais, o caso em vários contextos sociais?
A experiência lhe revela que o analista confronta-se com a tensão
existente entre, por um lado não cessar de sustentar uma ética
do precário, do reconhecimento de que há uma falta intransponível
no campo do saber, e por outro lado, a exigência social que demanda estabilidade,
asseguramento, sem comprometer as condições que permitem o ato
analítico. Ato que implica uma certa suspensão do sujeito da
certeza e o confronto com uma falta que não é contingente mas
inerente à condição humana.
Por essa mesma via na qual trabalha com a inexorabilidade de falta, Paola discute
com as feministas num dos artigos reunidos nesta coletânea A feminilidade
e os limites da teria, no qual reconstrói passo a passo a noção
freudiana de feminilidade.
Destacando o conceito de falo, que como sabemos, funciona na teoria psicanalítica
como o símbolo de uma plenitude, de um gozo que não pode ser
alcançado e que por isso mesmo instaurador de uma relação
com a satisfação sempre parcializada, ela esclarece:
Quero enfatizar aqui um ponto simples, com freqüência
mal compreendido (por exemplo, por certa crítica feminista):
se o falo é um puro significante, o símbolo da
falta no Outro, ninguém o “tem”, mas todos
podem ter acesso a ele, independentemente de seu gênero.
Recorre à Pierra Aulagnier que observa que “feminilidade é o
nome dado pelo sujeito do desejo ao objeto, quando esse objeto ‘não
pode ser nomeado porque está faltando’”. E argumenta
que o preconceito quanto à feminilidade que está enraizado na
conotação negativa do faltando, tem uma qualidade sintomática.
Assim se pergunta: “Por que a palavra falta teria inevitavelmente
conotações negativas, se não fosse pela ilusão
de uma completude existente?”
A falta de objeto associada à feminilidade na verdade revela a natureza
efetiva do desejo, que para existir pressupõem a dita falta, e que portanto
refere-se a qualquer um dos sexos. Aqui, encontro no texto de Paola uma profunda
afinidade com o que está na direção do que venho enfatizando:
Se a psicanálise visa que o sujeito se manifeste enquanto sujeito desejante,
então o remetimento à essa falta, e portanto à feminilidade é o
que marca a finalização do tratamento analítico.
Muito ainda poderia ser dito acerca não apenas da riqueza teórico
clínica deste livro mas também quanto a vivacidade e a maneira
autoral com a qual essa psicanalista faz sua transmissão, mas não
vou me estender muito para que possam passar rapidamente ao prazer da leitura
de seu trabalho.
Antes porém de finalizar, a exemplo do caráter autoral do trabalho
de Paola, quero apenas comentar o texto que deu nome à esse livro, Sobre
as manipulações irreversíveis do corpo. A autora,
contextualizada em seu tempo, reflete sobre estas manipulações
no corpo, tais como as prática de tatuagem, da cirurgia plástica
e da cicatriz, a partir da forma como aparecem em sua experiência clínica,
que acabam por destacar certos elementos de estrutura úteis para uma
reflexão mais ampla sobre sua função em diferentes grupos.
Remetendo-se à instável relação do sujeito com
sua própria imagem, ponto angular na constituição de uma
identidade subjetiva, a autora quanto às tais intervenções
voluntárias que se impõe como necessárias, supõe
serem uma “tentativa de dar estabilidade a uma forma que oscila;
ela intervém por exemplo, na cirurgia plástica, para integrar
ou excluir um traço físico particular, vivido sob o signo do “em
excesso”ou do “excessivamente pouco”.”
Marcando novamente sua crítica aos Estados Unidos, Paola observa que “a
extensão do fenômeno da tatuagem entre as jovens gerações
americanas...poderia ser vista como impulso que visa a restabelecer formas
de identificação coletiva e rituais coletivos de passagem, em
uma sociedade na qual o extremo individualismo econômico e legal perverte
toda forma de reconhecimento”.
Curiosamente reconhece em tais manifestações uma tentativa de
ancoragem simbólica em um contexto onde vigora uma verdadeira crise
da função paterna. Chama de punctum, o lugar no corpo
sentido pelo sujeito como o ponto onde o olhar do Outro o embaraça,
o que me lembrou a idéia de mau-olhado, ou de olho mau introduzida por
Alain Didier-Weill, e usa o termo landmark, para designar a intervenção
promovida pelo sujeito para invocar esse “corte” como apelo simbólico
que “dá forma definitiva a um contorno flutuante”. Reconhece
no landmark algo da função da construção aludida
por Freud.
O texto de Paola é assim, para além de ser rigoroso, crítico
e calcado nas enunciações de Freud e Lacan, guarda a característica
de ser vibrante, prenhe de boas idéias além de articular uma
rica experiência clínica com uma aguçada observação
do mundo no qual está inserido. Sem mais, convido-os portanto a passarmos à ele.
Nota:
1 Publicação
periódica dirigida por Nadiá de
Paula Ferreira, que conta com artigos,
resenhas e palestras, de membros e amigos da
Escola, e encontra-se em seu 8o. ano.
Denise Maurano
Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, e professora adjunta
da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF/MG). Tem doutorado em Filosofia
pela Universidade de Paris XII, e pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro. É autora de Nau do desejo: o percurso da ética
de Freud a Lacan (Ed. Relume Dumará, 1a. ed.1995, 2a. ed. 1999), A
face oculta do amor: a tragédia à luz da Psicanálise,
RJ/MG, Imago Editora, 2001, livro publicado também em versão
francesa pela Presses Universitaires de Septentrion, FR, 2000.
