Escola de Psicanálise
Instituição Membro de Convergencia • Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana


No além do fálico
A/ Mulher e o analista

Denise Maurano


É verdade que no discurso do analista, nesse modo muito particular de laço social, trata-se da lógica da ação empreendida pela operação analítica, na qual pretendo destacar agora o papel fundamental da ação do corte. Tem-se aí dois termos essenciais dessa operação: o laço da transferência, outro nome do amor no qual vigora o apelo ao sentido, e o corte introduzido pela interpretação analítica, que em último termo, aponta o não-senso. Como se sabe, o tratamento permite a localização da função do Nome-do-Pai nesse ponto onde essa função, responsável, como já vimos, pela regulação do sujeito a seu desejo, não teve possibilidade de se realizar. Mas quero destacar aqui que a cura visa também um mais além do que gira em torno dessa função simbólica por excelência..

Sabemos que é a partir do Outro que o sujeito fala e deseja. Esse Outro, alteridade radical, que não é a mãe, o pai, ou qualquer semelhante, qualquer partner imaginário; marca o lugar da linguagem, que permite ao sujeito humano situar-se diante do sexo e das gerações. Isto situa a via de introdução do registro simbólico no psiquismo e por conseqüência, da castração. O Nome-do-Pai é justamente esse significante que no Outro, na alteridade, é o significante do Outro enquanto lugar da lei, do limite onde o sujeito encontra sua delimitação, sua nomeação. Mas cabe lembrar que a questão do sujeito diante do Outro não se resume a tomar esse Outro apenas como lugar da lei.

Na perspectiva mais radical o Outro remete ao que está além de toda regulação possível. A libido organiza-se, regula-se tomando o phallus como símbolo da plena potência vital. No entanto, o que quero ressaltar aqui é a dimensão do Outro que ultrapassa a referência fálica. A inscrição fálica articula o gozo às leis do significante, leis da linguagem, mas a noção de gozo Outro proposta por Lacan, aponta um gozo fora da linguagem, fora do sexo, fora da possibilidade de ser apreendido por representações. Entretanto, é na medida em que estamos todos dentro da referência fálica, referência de linguagem, que também a partir dela que podemos sentir os efeitos de um mais além. É essa sinalização de um mais além do fálico que permite a Lacan sublinhar, em relação aos humanos, não propriamente a difundida dualidade dos sexos, mas uma outra dualidade, frente a qual o sujeito é dividido — a dualidade de gozos: gozo fálico e um gozo Outro, sempre visado.

Diante da limitação do gozo sexual, gozo fálico, dependente do órgão, esse gozo Outro coloca-se como visado, da mesma maneira que se imagina sempre a galinha do vizinho como a mais saborosa, mais ainda..., como sugere o título do seminário. É nessa perspectiva que o sexo feminino é qualificado como Outro em relação ao phallus, tanto para os homens quanto para as mulheres, porque enquanto sujeitos falantes, as mulheres estão também no registro fálico, e assim, não estão inteiramente no domínio do feminino.

Esse gozo Outro, designado também como gozo feminino, não tem relação com a castração e conseqüentemente nem com a função do Nome-do-Pai. Não é o caso, nesse momento, de depreender todas as implicações dessa noção de gozo Outro. Deixarei esse trabalho para uma próxima oportunidade. O que esttá me interessando agora é a indicação de um paradoxo na cura analítica. Porque se o que é visado no trabalho analítico é o acionamento da função do Nome-do-Pai naquilo em que esta mostrou-se deficitária para a regulação simbólica, a cura mesma pretende entretanto, levar o sujeito a poder dela se passar, ou melhor ainda, a poder ultrapassá-la, isto é, tocar esse registro que está para além do domínio do phallus. Isso implica um certo encaminhamento em direção ao Real, em direção ao furo no saber, em direção à perda da esperança de suturar a falha no saber, o que se articula a essa suposição de um gozo Outro que aquele do domínio da representação. É a indicação de Freud da inexistência de representação do sexo feminino no inconsciente que permitiu a Lacan qualificá-lo como Outro em relação ao phallus, e a tudo o que se organiza em torno deste .

Assim esse Outro, A/ mulher, “só se pode escrever barrando esse A, esse artigo definido para designar o universal” 1. Não há universalidade possível quando se trata de mulher. Ela situa-se no lugar do enigma absoluto, lugar de um buraco radical, o que assinala um mais-além da castração, porque não está em relação ao phallus. Tanto para os homens, quanto para as mulheres, na dimensão empírica dessas, A/ mulher é o ponto mais extremo de toda análise. Toda análise, na medida do possível, conduz em direção a A/ mulher. Diria que esse é o ponto limite do saber, do sentido, da representação, que está em uma relação de vizinhança com o Nada, ao qual chega o herói das tragédias, para ir até o fim com seu desejo. Ir até o fim com seu desejo significa ultrapassar a ancoragem do sentido, da delimitação, para tocar um Nada que mostra bem seu valor efetivo. Não há mais aí nenhum véu de Maya, véu de ilusões, para esconder a evanescência do desejo, ponto radical da nossa destinação.

Entretanto, não é à toa que, a propósito da distinção entre o herói e o homem comum, Lacan alerta que “em cada um de nós há a via traçada para um herói, e é justamente como homem comum que ele a efetiva” 2. Assim, o Nada ao qual se endereça uma análise, apesar de ser um Nada pleno de positividade, porque é no final das contas, tudo o que nós temos, não é algo de fácil acesso, mesmo porque implica risco. Em uma certa dimensão, poder passar sem a função do Nome-do-Pai implica um outro modo de relação com a lei, donde também decorre uma outra posição frente a culpa. Lacan lembra que “a única coisa da qual se pode ser culpado, ao menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo” 3. Ou seja, ter se afastado, em nome de qualquer boa intenção, da articulação própria que suporta o tema inconsciente e nos enraíza em uma destinação particular. Mas se nesse campo onde se ancora a direção ética da psicanálise, tem-se a vantagem de reencontrar alguma orientação mais efetiva da ação, para nele se chegar é preciso que se pague o preço do acesso ao desejo. O desejo, definido como metonímia de nosso ser, não é apenas o que se modula pela cadeia significante, mas é também o que corre debaixo, “que é, propriamente, o que somos, e também o que não somos, nosso ser e nosso não-ser” 4 . Então é preciso pagar o preço do não-ser, o preço da perda da ilusão de encontrar uma consistência pela via da relação de objeto, que não é senão o objeto a.

Assim, o fim da análise implica isso que chamei da queda do pai, que nesse contexto é elevada à potência de um certo ultrapassamento da própria função do Nome-do-Pai. Essa confrontação com a perda de garantia muda conseqüentemente a relação do sujeito ao apelo ao objeto; ela modifica sua posição demandante. Transforma a relação ao objeto, ou a isso que se espera dele como espelho do ser, espelho para o que haveria de essencial em nós mesmos. Disso resulta que o que há de impossível acerca do objeto que é o que indica a inconsistência do ser encontra na psicanálise uma outra abordagem, na qual o objeto não se impõe mais como única via de sustentação da existência.

O trajeto analítico vale-se de alguns recursos, para que seja possível chegar a esse ponto tão despojado. Pela via da ação do dispositivo da palavra através da associação livre que, já sabemos, não é tão livre assim, este trajeto se instrumentaliza com a música que lhe diz respeito. O sentido que se compõe com a sonoridade da voz vem povoar o vazio da existência, tecer uma rede sobre esse vazio. Nessa mesma operação, pela via da transferência, pelo manejo do apego ao objeto, o analista se vale do véu da beleza, para levar o sujeito mais longe em seu processo. Através da relação do amor à beleza, o sujeito é encaminhado, não em sua expectativa de fazer Um, mas na queda dessa esperança. O amor é abordado como o que se afirma na celebração da atividade de um dom. Trata-se do dom ativo do amor, onde a tônica não é a demanda de ser amado, demanda de ser objeto de amor, mas a afirmação da ação de amar através do objeto, passar pelo furo que ele tem em seu seio.

Empreender uma análise não é fácil porque a incidência da destruição do objeto marca essa hiância que há entre o desejo e o gozo, e é nesse lugar que também a angústia se situa. A angústia que pode ser paralizante, aniquilante, fonte de um niilismo radical, uma vez franqueada indica o ponto onde o desejo constitui-se. Daí a ênfase não se situa mais na negatividade da falta, mas na afirmação da atividade desejante, na celebração da busca. Aqui temos a via pela qual o amor faz o gozo ceder ao desejo. A queda do herói na tragédia interessa à psicanálise na medida em que, por essa imagem plástica, pode-se tocar o valor efetivo desse Nada que ele se torna.

Grosso modo poderíamos dizer que se o sujeito busca a psicanálise sofrendo porque sente que para ser efetivamente, algo lhe falta, o percurso da análise, o esgarçamento da rede de sentidos que deslizam pela cadeia de significantes que ele utiliza para com seu discurso tentar fazer consistir o seu ser, vai revelar que enquanto humano ele só existe na falta-à-ser. Assim o que ele encontra no final de sua análise é a falta, o nada, a dimensão do irrepresentável que a noção psicanalítica de A/ Mulher tenta contornar. Mas é bom frizar que o nada aqui referido não é aquele de uma pespectiva negativa, nihilista, mas o que introduz uma outra lógica: Se é o nada que encontramos, então esse nada é tudo que temos, e portanto não nos falta nada para a satisfação que nos é possível. Cabe portanto celebrá-la ao modo como nos diz o poeta, saudoso Quintana:

Só o desejo inquieto, e que não passa,
faz o encanto da coisa desejada.
E terminamos por desdenhar a caça,
pela louca aventura da caçada.

Notas:

1 _____, Sém, Encore, pg.68.
2 _____, Sém. Ethique, pg. 368.
3 _____, Op.Cit.
4 _____, Op.Cit., pg 371.



Denise Maurano

Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ, Doutora em Filosofia pela Universidade de Paris XII, Prof. da Universidade Federal de Juiz de Fora, autora dos livros Nau do Desejo, RJ, ed. Relume Dumará, 1995 e La face cachée de l’amour, FR, Presses Universitaire de Septentrion, 2000.

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