Escola de Psicanálise
Instituição Membro de Convergencia • Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana


Nau do desejo: o percurso da ética de Freud à Lacan

Denise Maurano


RESUMO: Posicionando a Psicanálise como um enigmático campo do saber que não se conforma nem à Filosofia, nem à Ciência, embora delas se avizinhe, o presente artigo que esboça as idéias contidas no livro de minha autoria Nau do Desejo, aborda a questão da ética da psicanálise apreendida nas entrelinhas de Freud e no texto de Lacan.

PANORAMA GERAL DO LIVRO

Vivemos em busca de alguma coisa, não importa muito o que, especificamente. Para cada um o ponto de fisgamento, o chamariz que promove o reconhecimento da coisa desejada, se expressa de uma forma peculiar. Se julgamos encontra-la, lá estamos nós correndo atrás de outra. Parece que o que nos coloca em movimento e faz zarpar nossa vida psíquica, não é senão o reconhecimento disso que nos falta, e por nos faltar nos coloca em busca. Essa busca indomável que ganha o nome de desejo e que segundo Freud, inaugura nosso psiquismo1 , fazendo de nós sujeitos de desejo, para além e para aquém de sermos sujeitos biológicos, políticos, sociais, e sabe-se lá mais o que, encontra seu reverso na perspectiva mesma de estancamento de toda busca, que a saciedade viria produzir.

Neste ponto controvertido está estampado um paradoxo: o tão esperado encontro da coisa desejada, aquilo pelo o que, a primeira vista, lutamos tanto, se situa na direção mesma do que viria emudecer o desejo, e portanto, silenciar a vida psíquica. Essa busca minada pelo horror do encontro situa o conflito fundamental que dá o compasso da alma, regula os afetos e os atos que ela comanda num movimento de avanço e retirada, promovendo os desvios necessários para o prolongamento de um percurso prenhe de zigue-zagues.

Forças psíquicas antagônicas, chamadas pela teoria psicanalítica pulsões de vida e pulsões de morte 2, encontram-se amalgamadas nesse complexo processo que constitui a nossa existência. Tais forças não podem ser caracterizadas como boas ou más, apenas expressam exigências psíquicas que convocam a união ou a separação, o movimento ou o repouso, a construção ou a destruição, e por aí vai. Na perspectiva da vida psíquica, a relação à morte se traduz por tendências que, promovendo a disrupção da ordem, destruindo o que já se encontra constituído, tem como efeito não apenas a geração do caos, mas também a possibilitação do novo, do inusitado, e em última instância, paradoxalmente, da criação. As pulsões de vida, e pulsões de morte, expressando forças eróticas e tanáticas, intensidades de amor e de ódio, se conjugam num amoródio (hainamoration, termo criado por Lacan, psicanalista francês, sucessor de Freud), que mantém a tensão indispensável à manutenção da vida.

Dessa forma, à idéia acalentadora de que o psiquismo, regido exclusivamente por Eros em sua ampliação de laços amorosos, evoluiria de forma a eliminar tensões, exterminar o ódio, promover a paz e abolir a destruição na construção de um mundo ideal, se interpõe uma problematização: a chama que acende nossa vida psíquica, o que faz com que ela se anime, ou seja, ganhe alma, e ilumine a nossa existência, é aquilo mesmo que a faz arder e que a consome. Somos o efeito da luta dessas forças e da peculiaridade dos recursos que constituímos para nos posicionarmos diante de sua incidência.

O desejo, motor do psiquismo, nascido nesse entrecruzamento de forças, relança sempre para mais adiante o encontro do objeto desejado, objeto faltoso, por excelência, mas que nem por isso, deixa de ser prenhe de positividade, dado que nos aciona. Esse objeto perdido desde sempre, tal como Freud o qualificou é relançado sempre mais à frente, em uma série de objetos substitutivos que lhe dão um corpo, ainda que evanescente. O que justifica o dito popular: 'Se não tem tu, vai tu mesmo'.

O que vem possibilitar que se tome uma coisa por outra, que se entre no jogo das substituições, é a capacidade que temos de simbolizar. Tal capacidade nos faculta o acesso ao universo da linguagem, da fala. Na ausência da coisa, lá esta algo que a presentifica, um traço, um significante, permitindo que essa falta possa ser operante. O campo das substituições que contornam o objeto perdido é regido por essa marca, esse significante que advém em seu lugar. Assim, a estrutura de linguagem delineia um contorno ao vazio deixado pelo objeto perdido, supostamente complementador.

Mas, como a linguagem flutua no campo das ambigüidades, já que estamos sempre a meia medida do que queremos dizer, uma vez que o sentido último do que quer que seja é sempre vacilante, pode sempre remeter a outros sentidos, o reconhecimento da coisa desejada sofre da possibilidade do equívoco, do mal entendido. É nesse contexto que Lacan afirma que o Inconsciente se constitui como os efeitos da fala sobre o sujeito.

Se se pode extrair disso alguma reflexão acerca da condição humana, essa vai na direção que indica que enquanto sujeitos desejantes não somos assegurados por nada. As leis morais, os imperativos tentam, pela linguagem, indicar a ação correta, aquela que estaria conforme a realidade. Tentando garantir em bases 'sólidas' a almejada felicidade. Mas, se todo o universo simbólico se constitui exatamente nesse ponto em que nos confrontamos com o real como impossível, uma vez que o tal objeto é mesmo perdido, o que quer que seja que advenha, simbólica ou imaginariamente em seu lugar, nada garante. Essa Coisa perdida, desde sempre inapreensível bem poderia identificar-se ao que Kant denominou noumenon 3 indicando aí um vazio impossível de ser preenchido. Quando elegemos um objeto para tentar preenchê-lo, nem mesmo temos a certeza de que o que queremos é mesmo o que desejamos, dado que podemos querer algo por interesses outros de, por exemplo: acomodação, bem-estar, que não a fidelidade ao desejo sempre mais inquietante. Entre o saber ao qual se pode ter acesso e a verdade do desejo inconsciente existe uma fenda intransponível.

Certa vez, quando perguntado por um belga, a propósito da incompatibilidade entre saber e verdade, Lacan responde que nada é incompatível com a verdade, a questão é que ela é um lugar de passagem, lugar “de evacuação do saber, como do resto” 4, e acrescenta que a verdade é antes de tudo sedução para engrupirnos, por isso é bom que o psicanalista se acautele, porque se por seu saber, ele está noivo da verdade, não pode entretanto casar-se com ela. “Para não se deixar pegar, é preciso ser forte”5 Um analista é penetrado por sua disciplina, que lhe atesta que “o real não é, antes de mais nada, para ser sabido.” O real “é o único dique para conter o idealismo” 6 .

A psicanálise não recua frente a inexorabilidade dessa impossibilidade que incide no seio não só de sua teoria, mas também de toda intervenção clínica rigorosamente psicanalítica. Um analista não pode dar o que não tem, não pode prometer, não pode garantir, não pode vender ilusões, o que não o impede de respeitá-las e de trabalhar com elas. Aí está a ética da psicanálise, que se encontra orientada não pelo Bem como ideal a se atingir, num estado onde tudo se harmonizaria, mas está dirigida para os efeitos do Real sobre o sujeito. O Real da impossibilidade do encontro com a Coisa. O Real das exigências pulsionais que se orientam pelo desejo, diferentemente da perspectiva objetiva da relação instinto/necessidade. Isso toca à dimensão trágica da psicanálise. Para a psicanálise, nós podemos até viver nas nuvens, na medida em que nosso acesso a dita realidade é sempre discutível, mas nem por isso o mundo é cor-de-rosa. Não há aí nenhum convite a estagnação, ou a prostração, até porque diante dessa impossibilidade, é imprescindível que o sujeito possa descristalizar antigas amarras e rearranjar seus recursos para reposicionar-se em sua vida psíquica.

O curioso disso tudo é a diferenciação entre o que se constitui para nós como um bem, promovendo ilusões de asseguramento, e o que se descortina na direção do desejo, que encontra seu último termo na morte, no anseio de descansar em paz. Por isso, ir em direção ao desejo comporta insondáveis riscos. O herói encontra-se nessa perspectiva, guiado por seu desejo ele avança sem temor ou piedade, e paga o preço dessa ousadia. Quanto a isso, Lacan afirma que em cada um de nós há a via traçada para um herói, advertindo entretanto, que é só como homens comuns que podemos efetivá-la 7.

Assim, psicanálise não é para todo mundo, e nem deve se estender infinitamente, tem indicações e tem limites que cabem ao analista avaliar, e que fundamentalmente não estão circunscritos a condições intelectuais ou sociais de quem o procura. A confrontação com a dimensão de uma existência desejante onde, em última instância, não se está assegurado por nada, não é algo que se possa suportar tão facilmente. Todo o aparato de bens aos quais a cultura conclama, erigindo virtudes, aquisições e posses, visam nos defender dessa falta de garantia. Mas aí não estamos mais no território do desejo, e a pior das culpas incide por termos nos afastado dele.

Porém, ainda outro recurso se descortina: aquele que é propiciado pela relação que se pode estabelecer com o belo. Este parece não nos afastar tanto da radicalidade do vazio no centro da constituição humana, uma vez que sua transitoriedade, sua fugacidade, tem por função, como diz Lacan, apresentar a morte em sua dimensão resplandecente. O belo vem funcionar como senha de entrada na região perigosa do desejo, propiciando com seu brilho, o ofuscamento necessário para intermediar a relação de horror e fascinação que a morte nos provoca, e que tão bem se localiza na expressão: lindo de morrer. Da confrontação com o vazio, com o nada, o belo como criação, deve advir em seu lugar. Numa relação essencial, a psicanálise promove a beleza descortinando uma dimensão estética no seio da ética psicanalítica, já que não há o que nos cure da dor e da delícia de sermos humanos.

Notas:

1 FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Buenos Aires: Amorrortu, 1988, Vol.V, pg.557/558.
2 ________. Além do princípio do prazer. Buenos Aires: Amorrortu, Vol.XVIII, 1988.
3 KANT, I. Crítica da razão pura, Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1987, p. 170
4 LACAN, J. Seminário, livro XVII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, pg. 176.
5 ________. Idem.
6 ________. Idem, pg.178.
7 ________. Seminário, livro VII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p.383.

BIBLIOGRAFIA

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos, Vol. V. Buenos Aires: Amorrortu, 1988.
______________. Além do princípio do prazer, Vol.XVIII, Buenos Aires: Amorrortu, 1988.
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura, Col. Os Pensadores. São Paulo:Abril Cultural, 1987.
LACAN, Jacques. Seminário, O avesso da psicanálise, livro XVII, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
_____________. Seminário, A ética da psicanálise, livro VII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.



Denise Maurano

Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ Doutora em Filosofia pela Universidade de Paris XII, Prof. do Depto. de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, Prof. Convidada no Mestrado em Psicologia e Psicanálise do CES – Centro de Ensino Sup. de Juiz de Fora, autora do livro Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud a Lacan, RJ, Ed. Relume Dumará, 1995; La face cachée de l’amour: investigation philosophique de la tragèdie à la lumière de la psychanalyse, France, Presses Universitaires de Septentrion, 2000, e A face oculta do amor: a tragédia à luz da psicanálise, RJ, Imago Editora/ Editora da UFJF,2001.

*Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1a. edição: 1995. 2a. edição:1999. 179p.

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