Escola de Psicanálise
Instituição Membro de Convergencia • Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana


O motoboy e as motobobagens ou o sujeito não é um poste

Denise Maurano


Há dias somos metralhados pela mídia com as inúmeras reportagens sobre o motoboy que assassinava mulheres no Parque do Estado em São Paulo. No centro da discussão sobre o maníaco do Parque, como vem sendo chamado, situa-se a questão: Ele é doente ou não? E, com a resposta dessa questão, pretende-se aferir a responsabilidade do rapaz, pelos atos hediondos que praticou. É claro que a complexa discussão sobre o que doença, sobretudo a dita mental, não comparece nem de longe. Em prol da objetividade busca-se objetivar o sujeito, abordá-lo como coisa e aí todo tipo de bobagem é permitida. Mas, vamos a nossa questão.

A professora de Direito Penal e ex-juíza Sheila Bierrembach, que em sua experiência atinou que o importante não é se estudar o crime, mas o sujeito criminoso, nos esclarece que pelo Direito, se considerado doente mental, o rapaz será tomado como inimputável. Ou seja, ele não será culpado, porque não pôde entender o caráter ilícito de seus atos ou não pôde determinar-se de acordo com o entendimento que possa ter tido deles. Nesse caso, o sujeito não poderá então sofrer uma sansão por um ato do qual não foi responsável. O réu será absolvido, e o juíz lhe imporá a internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico. Pretende-se que lá ele fique seguro da sociedade e a sociedade segura dele. Ficará sem prazo determinado para sair e sua alta dependerá de avaliação médica.

Sabe-se também que esse sujeito poderá ser considerado semi-imputável. Eu diria, semi-doente, ou seja, embora doente teria alguma possibilidade de determinar-se, ou teria algum entendimento e não pode exercê-lo no momento do crime. Dessa forma, o sujeito poderá permaner no convívio social, numa modalidade de regime semi-aberto e fará seu tratamento em estilo ambulatorial.

A outra possibilidade é a que afere sua capacidade de culpabilidade, ou seja, o sujeito será considerado perfeitamente capaz de entender o que estava fazendo e de determinar-se a partir disso, e não o fez porque não o quiz.

Na dúvida: é doente ou não é? é responsável ou não? O Direito Penal pede socorro à Medicina, em geral a Psiquiatria dado que elegeu o critério biopsicológico para aferição da inimputabilidade. O sintoma funciona na Medicina como o sinal da doença a ser localizada e tratada. Porém, quando se trata de Psiquiatria a questão se complica. O sintoma delineia-se como comportamentos que seriam sinais de uma doença que não é senão suposta para justificar tais atitudes.

Daí então ouve-se de tudo. Desde que a causa de seus atos decorre de situações de abuso sexual na infância, ou de contingências da nossa sociedade, ou até de infecção no Sistema Nervoso Central. Nas reportagens muitos falam, os pais, os promotores, os advogados, os psiquiatras, etc., etc., e quem quase que não se ouve é o tal Francisco de Assis Pereira, o motoboy.

Vocês podem porém perguntar: Escutar o rapaz prá que? Basta ir aos fatos, ver o que ele fez, olhar as provas. É verdade, inspirada certamente no velho positivismo, a atual perspectiva do Direito não valoriza a palavra do sujeito, sua confissão, mas a averiguação de fatos, provas, evidências. O psicanalista francês Jacques Lacan, no texto em que fala das funções da psicanálise na criminologia enfatiza a ocorrência desse deslocamento da confissão ao fato. Com isso, desloca-se da valorização da escuta à prevalência da visão, marca registrada de nosso mundo contemporâneo. Na pretenção de se tocar o “real”, pensa-se: As palavras são arbitrárias e os fatos não mentem, vamos a eles. E pelo visto, no caso, os fatos não dão margem à dúvida, mesmo! Aqui as dúvidas recaem sobre o sujeito e sua possibilidade de responder pelo que fez. E o curioso é que ainda assim, mesmo quando se vai então abordar o sujeito, não é sua palavra que se busca. Tenta-se explicá-lo reduzindo-o ao que está na ordem dos fatos: o abuso sexual sofrido na infância, a infecção no Sistema Nervoso Central, uma lesão “BYZ” no lobo “T”, ou quem sabe uma frustração amorosa com a namorada, e por aí se vai, numa larga querela entre o que lhe seria inato, o que teria sido adquirido por isso ou aquilo, o que a sociedade, a mãe, a tia lhe teriam feito... E tenta-se a superação do “ou” na busca de uma afirmação que responda de uma vez por todas.

Esquece-se que mesmo as doenças mais “objetivas” quando incidem, acometem a um sujeito que a significa a seu modo. O sujeito não é um poste, suporte passivo de uma rede de energia que lhe é absolutamente alheia. O sujeito não é alguém que sofre a doença e ponto. Ele está na doença, seja ela gripe, aids, úlcera, alergia, câncer ou o que quer que seja. Ele serve-se dela. Esta torna-se parte constitutiva dele. Se bobear ele pode até mesmo reduzir-se a ela, tipo: sou aidético; sou canceroso; sou psicótico; etc.

Porém de uma forma geral, trata-se a questão como se a relação do sujeito com o vasto universo de seus atos, mesmo os doentios, pudessem se reduzir à fatos, à eventos ocorridos, num esforço caduco de fazer corresponder a uma causa, um efeito e com isso definir um homem, mesmo que esse homem seja uma besta humana, um “mixed” entre bicho e gente, como tão bem o aborda o texto de mesmo título, de Lia Amorim, psicanalista que coordena na Letra Freudiana, estudos preciosos sobre a relação psicanálise e criminologia.

Lia nos mostra que por mais bicho que o matador em série seja, ele ainda assim fala. Como humano, deslocou-se do mundo das coisas para o do palavra. A história da Torre de Babel, não a da novela, mas a mítica, existe para nos mostrar o quanto a fala, torna complexa as coisas do mundo humano. Parece-me que não precisamos temer a complexidade e com isso apelar ao primitivismo das explicações, mesmo que envelopadas em sofisticados atestados de cientificidade que só rendem contas a uma objetivividade obtusa.

No que tange a nós, humanos, bons, maus, corretos, safados, não importa, não há determinismo estrito. Como Lacan o observa, “o homem é tão livre quanto determinado”. Verificar até onde vai a margem de uma coisa e da outra é um trabalho que não poderia prescindir de uma escuta apurada da verdade do sujeito. Para abordá-la não basta o discurso por ele emitido nas declarações conscientes, seria preciso escutá-lo na entrelinhas, nos seus lapsos, nos seus sonhos, ou seja, em tudo que testemunhasse tanto seu desejo inconsciente, quanto sua relação com o gozo e com a própria morte.

Em que fantasia esse sujeito se localiza? Como agencia seu prazer? Como modula seu gozo? De que modo lida com a possibilidade da própria morte? Em suma, como a lei simbólica que organiza o mundo humano, se inscreveu psiquicamente nesse sujeito? Tais questões não são nem de longe efetivamente abordadas. Fica-se apenas atrás dos eventos, dos fatos, das lesões.

Minha perspectiva, obviamente, é psicanalítica. É claro que uma séria dificuldade aí se impõe, dado que para colher esse discurso que atesta a verdade que habita o desejo inconsciente, é preciso que o sujeito faça um laço com o analista, que lhe deve inclusive sigilo, o que, nessa situação, é deveras complicado. Porém, o que se apresentou até agora, pela via do Direito e pela via da Medicina, não fez avançar em nada, nem o conhecimento que possamos ter acerca do sujeito implicado em determindas doenças, e muito menos da relação da sociedade com esses sujeitos e vice-versa. Caberia portanto, pelo menos se começar a pensar por outras vias, tal como Freud originalmente o fez, e olha que lá se vão quase cem anos!...



Denise Maurano

Psicanalista, Doutora em Filosofia pela PUC/RJ, DEA na Universidade de Paris XII, Prof. da Universidade de Alfenas/MG e autora do livro Nau do Desejo,ed. Relume Dumará.

*Texto publicado no Jornal dos Lagos, Alfenas/MG, 1998

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