Escola de Psicanálise
Instituição Membro de Convergencia • Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana


Da idolatria à mulher: Um caminho percorrido por psicanalistas num Colóquio recente na França, motivado pelo atentado de 11 de setembro em Nova York.

Denise Maurano


INTRODUÇÃO :

Apesar de todas as questões políticas que estão incluídas no projeto do Movimento de Convergência, movimento organizador do Colóquio: As Idolatrias, as questões teórico-clínicas dos avanços lacanianos frente a proposta freudiana são a via de articulação das diferentes temáticas focalizadas nos eventos promovidos por Convergência. Mais de 45 instituições espalhadas pelo Brasil, França, Argentina, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Espanha, Uruguai e Equador participam deste projeto. Entretanto este Colóquio de junho agora em Montpellier contou com a organização de quatro delas: Après- Coup Psychoanalytic Association (Nova-York), Espaces Analytiques (França), Mouvement du Coût Freudien (França), Corpo Freudiano do Rio de Janeiro (Brasil).

O tema: As Idolatrias, motivador deste Colóquio, proposto pelos colegas novayorquinos foi precipitado pelo evento de 11 de setembro, quando o ataque as torres gêmeas em Nova York abalou não apenas os americanos, mas todo o mundo. Inúmeros profissionais de todas as áreas manifestaram suas posições acerca deste atentado e de suas conseqüências, cabendo a nós psicanalistas, agora, depois de decorrido um certo tempo do evento, elaborarmos o que será que podemos dizer a respeito.

Como não poderia deixar de ser, já que a psicanálise é uma invenção de um sujeito, Freud, iniciamos por algumas reflexões por ele propostas em Moisés e a Religião Monoteísta. Ele começa por sublinhar que a designação de ser judeu foi introduzida pela interdição transmitida por Moisés de venerar Deus sob uma forma visível. Ela ajuda a fazer obstáculos à tendência à ação violenta que se instaura quando o que conta é a força bruta como ideal popular. A harmonia entre a cultura das atividades espirituais e a das atividades corporais, tal como atingida pelo povo grego antigo, foi recusada aos judeus. Nesta cisão eles se juntaram naquilo que valia mais.

A proposta freudiana é utilizada neste encontro, mais precisamente para pensar sobre a violência em nossa civilização engendrada pelo apelo ao visível. Apelo a um saber siderado e restrito aos efeitos da imagem. E neste sentido quem é o idólatra? Será que é apenas aquele religioso fanático que tomado por fascinações imaginárias, mata ou se mata fascinado por algum outro a quem ele obedece? Ou não será também aquele que inibe sua capacidade de abstração em proveito da fetichização de objetos e do mercado?

O Colóquio visou refletir acerca dessas questões que foram colocada por psicanalistas americanos, discutidas por franceses, cabendo aos brasileiros as considerações finais. Foi aí que eu, Denise Maurano fui convocada a me manifestar. Meu companheiro Marco Antônio Coutinho Jorge, do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, deveria estar comigo nesta tarefa, mas infelizmente, não pode vir. Sigo então com minhas considerações, tal como as efetuei publicamente no evento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O COLÓQUIO: A IDOLATRIA

Antes de tudo, me perdoem meu francês, eu esperava falar em minha língua natal e ser traduzida, mas como isso não foi possível nesse momento, falarei em francês. Peço então a boa vontade de vocês em me seguirem no que eu pude traduzir, e também no que eu não consegui, ou mesmo no que está do lado do intraduzível, porque este também sempre comparece. Vejam que não peço pouco.

Apesar da ausência de meu companheiro Marco Antônio do Corpo Freudiano, não estou só, com Alain Didier-Weill e Françoise Petitot, me sinto muito bem acompanhada nesta mesa. Aliás, gostaria de agradecer o carinho do acolhimento de Françoise Petitot e de parabenizá-la pela organização e pelo sucesso desse Colóquio. Agradeço ainda a todos os meus colegas, que com suas brilhantes intervenções me deram a possibilidade de pensar coisas nas quais eu não tinha pensado antes.

Primeiramente devo dizer que é muito emocionante para mim, estar aqui nesta função de fazer as considerações finais desse Colóquio. Penso que me outorgaram a tarefa de ser um porta-voz de todos neste encontro. Isto implica em eu, embora não perdendo minha própria palavra, me deixar atravessar pela de vocês. É preciso então que eu ateste em mim os efeitos desse nosso encontro, o inventarie, não burocraticamente, mas enquanto leitora e ouvinte dos trabalhos de vocês, teça considerações acerca.

Assim eu devo submeter um trabalho que eu tinha feito antes, A idolatria do amor na Contemporaneidade, aos efeitos advindos dos trabalhos de vocês. Penso que com isso, fui convidada a estar em uma posição de veículo, e como este colóquio está terminando, no calor do contato, eu não pude ter muito tempo para elaborações muito precisas. Assim, o que eu vou deixar para vocês são impressões, que são talvez um pouco barrocas, conforme é meu estilo e o estilo prevalente no Brasil, meu país. Mas tento, ainda assim, organizar minhas idéias para torna-las o mais transmissível possível a vocês. É isso que tentarei fazer com o que se segue.

Para melhor me organizar, e também por não poder ser de outro modo, decidi tomar como fio condutor dessas considerações finais sobre a Idolatria, elementos que fazem parte do meu campo privilegiado de pesquisa: ou seja, a afinidade ética entre a psicanálise e a arte, mais especificamente, a arte trágica. Questão que eu trabalhei em meu livro A face oculta do amor: a tragédia à luz da psicanálise, lançado também em francês no ano de 2000 pela Presses Universitaires de Septentrion.

Nesse livro, pensando a arte trágica como uma maneira privilegiada da cultura de promover um acolhimento da morte, ou seja, de não nega-la, eu, inspirada por Freud, Lacan e Nietzsche, sublinhei a presença na arte trágica de recursos de transfiguração do horror suscitado pela morte. A música entusiástica presente na Tragédia Grega e a beleza das ações e da cena, seriam então, os elementos de encorajamento para tornar viável este não recuo diante da presentificação da morte no seio da vida.

Percebi que correlativamente, na psicanálise, o que nos permite não recuar de sua ética que exige essa não negação da morte, dessa nossa condição radical de desamparo, seria também a atuação da música e da beleza dentro da experiência analítica. Esta ética é sustentável pela via da musicalidade da fala e pela presentificação da beleza que comparece no trabalho através da maneira como o amor, enquanto transferência, é manejado neste trabalho.

Entretanto, um traço remarcável do mundo Ocidental, desde seus fundamentos filosóficos, é sua maneira de negar a morte. Esta característica do mundo Ocidental parece ser ainda mais destacada no universo norte-americano.

O trabalho de Mark Stafford sublinhou a maneira particular como a nação norte-americana, recuando da experiência da perda, diante do ataque catastrófico de 11 de setembro, que fez cair por terra as torres gêmeas matando alguns milhares de americanos, causando um trauma incomensurável, voltou-se o mais rápido possível, para um trabalho de restituição.

Essa questão foi também abordada por Richard Ledes, confirmando a dificuldade dessa nação de viver seu luto, dificuldade de se dar tempo para os procedimentos da perda. Ele indicou as conseqüências disso na verificação do desenvolvimento de novas patologias, que por exemplo revelam a depressão como a revanche de um luto que não pode se realizar, não pode ser concluído. Pela depressão, este luto reivindica reconhecimento. Muito rapidamente depois do atentado o próprio presidente Bush declarou o fim da lamentação. Como se o luto, que inclui a lamentação pelo perdido pudesse ser impunemente estancado por posições governamentais.

Parece que na impossibilidade de acolher a participação da morte na vida, impossibilidade de acolher a participação da destrutibilidade e do não senso no centro de nós mesmos, a morte, ou seus efeitos, diante desta rejeição, retorna de fora e reclama reificações. E neste momento, não há Prozac ou medidas de segurança que sejam eficazes para detê-la. Isto porque o que é rejeitado retorna sempre ainda mais forte.

Em uma análise mais extensa Ledes assinalou a diferença entre a maneira pela qual Freud fez sua abordagem do trauma, da violência e da destrutividade humanas considerando-os como elementos constitutivos da subjetividade e o modo como o trauma é tratado dentro da perspectiva norte-americana, sobretudo pelo governo e pela mídia. Nesta perspectiva o inimigo está sempre na exterioridade, e o risco do ataque é sempre iminente. Sem terem noção do dano que com isso eles se auto infligem.

O modelo do trauma, traduzido pelo trauma da guerra ofereceu a possibilidade de promover um esquecimento do perigo interno. Este esquecimento parece ter afetado também a psicanálise que se expandiu nos Estados Unidos, justamente depois da II Grande Guerra, acabando por dar suporte ao desenvolvimento da psiquiatria, reconhecida então como nova psiquiatria. A psicanálise se difundiu imensamente aí, porém ficou comprometida pela psiquiatria e pelo ideal pragmático do american way of life.

Os colegas americanos presentes nesse Colóquio mostraram como nesta perspectiva, trata-se de recuperar o mais rápido possível, não propriamente o sujeito que sofre, mas sobretudo sua capacidade de trabalho, para que ele não saia do campo de batalha, seja esta a batalha da guerra, ou da vida moderna.

O slogan: NY precisa de nós fortes!, difundido depois do atentado, em consonância com o Projeto Liberdade, projeto que surgiu como oferta de aconselhamento gratuito para todo novayorquino em sofrimento devido a perdas causadas pelo ataque de 11 de setembro, articula-se com um outro slogam que apareceu muito tempo atrás, na Semana de Saúde Mental. Este conceito de saúde mental, ganha corpo no início dos anos 50, no período do pós-guerra, momento em que uma legião de neuróticos de guerra era uma verdadeira epidemia no país, quando então exibiram o slogan: Construa você a Saúde Mental: um direito de nascença das nossas crianças, a força de uma nação!

Vejam que a questão da força – `NY precisa de nós fortes e as crianças, a força de uma nação’ – denuncia esta como a palavra de ordem no pensamento norte-americano, pensamento este que funciona, de uma certa maneira, como paradigma da contemporaneidade.

Podemos pensar que a força que interessa é no final das contas, a força do Ego, ou do eu como o designou Freud antes da tradução inglesa tê-lo revestido de termos eruditos latinos, para que a psicanálise ficasse restrita ao domínio médico. Todos os investimentos dirigem-se para encontrar meios de tornar o eu o mais forte possível.

Freud sempre disse que nosso eu é sobretudo corporal, é projeção mental da superfície do corpo, e Lacan começou seu ensinamento por pensar a formação da função Eu, na relação com o reconhecimento de sua própria imagem no espelho. O sujeito que você é e o modo como isso se articula com o eu através do qual você se apresenta, articulam-se.

Assim, podemos pensar que diante da falta de consistência do sujeito, diante do desamparo do humano, a imagem do corpo, o eu, é investido, ou é chamado a responder, enquanto ícone de uma plenitude que é impossível para nós. A imagem do corpo enquanto phallus, – símbolo do órgão masculino ereto, remetimento à plena turgescência vital, potência absoluta, unidade de medida do valor do sujeito, é idolatrada por diversas modalidades culturais, e toma na contemporaneidade um lugar muito especial. Ela se faz um objeto de adoração que acenando como agalma, preciosidade escondida que atrai a libido, ganha agora seu valor dentro do mercado.

De certa maneira, lembrando o que foi comentado por Stafford em seu trabalho, esta importância do mercado, enquanto mercado financeiro, que teve seu motor na ideologia norte-americana, aparece nesta cultura, como uma forma de restituição da perda, ou eu diria, restituição da falta radical, que em última instância, não tem restituição possível. Esta falta foi vivida como contingência, que adota no modelo americano a referência da guerra, mas que é de fato inerente, a condição de ser humano, e nessa medida está fora do mercado, porque é inegociável.

A história do pensamento revela que na Antiguidade esperava-se ser salvo, ser protegido, pela emergência da constituição da cidade e da lei. Na Idade Moderna esperava-se que a salvação viesse via o poder da razão, da racionalidade. Penso que hoje, na Contemporaneidade espera-se ser salvo pelo valor da libido em sua relação ao amor e a sexualidade. A invenção da psicanálise é uma conseqüência disso.

A questão da relação do sujeito ao objeto e de todas a estratégias para não se sofrer com a falta dele são então deslanchadas com toda a energia. Tenta-se reificar este objeto pelos recursos das imagens que evidentemente não conseguem apreendê-lo, isto porque o objeto que interessa é o que Lacan propôs chamar de objeto pequeno a, objeto desde sempre perdido e por isso mesmo elemento motor do movimento desejante do sujeito humano, este objeto, ele não é possível de ser especularizado. Ele está sempre mais além de qualquer imagem que tente apreendê-lo.

A questão da função da encarnação sublinhada no Colóquio, por Salvatore Guido, em sua articulação com o fenômeno da idolatria, nos mostra muito claramente a dupla função da encarnação de Deus na imagem de seu filho. Através da encarnação espera-se que Deus esteja lá, reificado por um objeto: o corpo do filho. Porém nada o assegura, nem mesmo a palavra do próprio Cristo. Como Alain Didier-Weill lembrou, quando o apóstolo Pedro pergunta a Jesus: - Sois Deus? Jesus responde: - Sois vós que o dizes. Então Deus está lá e ao mesmo tempo não está. Apesar de tudo, malgrado todos os investimentos nas imagens, sejam elas quais forem, continuamos desamparados.

Esperamos que as imagens nos tragam força, consistência, e por esta via o estatuto do objeto, ou o estatuto de sua imagem tem seu valor superestimado. Esta posição é correlativa àquela da constituição do eu. Podemos ver que no texto Pulsões e seus destinos e num outro, Psicologia das massas e análise do eu, Freud situa em paralelo os três níveis da estruturação do amor* e os três tempos da constituição do eu, colocando em jogo os mesmos elementos, donde se pode concluir que o eu é feito pelos efeitos da estruturação do amor.

E como Alain Vanier muito bem enfatizou, mesmo que o culto às imagens seja interditado, como foi o caso na lei de Moisés, mesmo que a idolatria seja um perigo, uma peste, lugar da impureza como Paola Mieli destacou em seu trabalho, é para nós impossível passarmos sem essa referência à imagem. Porém o maior perigo está no que a intervenção de Jean Pierre Winter bem sublinhou: a relação desta posição de referência ao objeto com a perspectiva perversa de fetichizá-lo. Ou seja, negar toda e qualquer relação do homem com o limite, com a finitude, com o que em psicanálise costumamos chamar de castração, frente a fascinação por um objeto complementador que teria por função servir como elemento que recusa diante da confrontação com a falta que nos faz humanos.

PARA CONCLUIR:

Não há nenhum Moisés, nenhuma lei que possa descolar completamente o sujeito deste amor à imagem, fonte de toda a idolatria, e fonte mesmo da constituição da identidade do eu. A psicanálise faz o reconhecimento disso, ela sabe o valor desse modo de defesa para o sujeito. Mas, ela sabe também que a força que advém dessa estratégia do apego à imagem, pode ser, ao mesmo tempo a razão da perdição do sujeito, e é por isto que o Nome-do-pai é invocado. Nome-do-pai é o conceito criado por Lacan para enfatizar a dimensão sobretudo simbólica da função paterna. Função que evoca uma proteção que é expressa não pela estratégia da força, mas como uma medida de astúcia.

Se a vida é uma luta, pode-se operar nessa luta pela força ou pela astúcia. Esses dois elementos de combate são colocados em paralelo desde Homero na Ilíada e na Odisséia.

É por esta via que a psicanálise faz uma aposta radical no poder da palavra, nos efeitos de deslanchamento da fala, não para obturar o furo, a falta de objeto que está no centro de nossa existência enquanto sujeito humanos, mas para dar a esta falta um contorno de linguagem. Na psicanálise tenta-se fazer deste furo e dos contornos que dele advirem, a fonte de toda criação, que não é senão a criação quotidiana da vida.

Para terminar ainda que um pouco rapidamente, eu diria que com este movimento em direção ao furo, no que diz respeito à ética, toda análise conduz à mulher enquanto conceito analítico, ou seja, à condição de privação, que situa-se mais além da castração e que está no centro da questão do luto pela falta radical do objeto que complementaria. Tal posicionamento não visa a negação da falta, nem o empacamento nela, mas seu atravessamento em direção ao enigma que é a vida. Não foi Nietzsche que disse que a vida é mulher? Pois então, vamos a ela.

Grata pela atenção.

*Primeiro: Nível real - por um lado o amor, por outro a indiferença, o que significa que só se vê o que se ama. Segundo: Nível econômico - por um lado o prazer, por outro o desprazer, o que coloca em jogo uma atração pelo que agrada e uma repulsa pelo que traz desconforto. Terceiro: Nível chamado eu diria metaforicamente de biológico - por um lado a atividade e por outro a passividade, para designar o que resta de insondável na diferença entre os sexos



Denise Maurano

Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ, escritora, doutora em Filosofia, Prof. da UFJF,autora de
A face oculta do amor, A tragédia à luz da psicanálise, Imago Editora, 2002. dmaurano @bridge.com.br


*Texto remetido ao Jornal Eletrônico Gradiva.
Agradeço a CAPES – Fundação de Coordenação e Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que me forneceu auxílio para a participação neste Colóquio.

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