Escola de Psicanálise
Instituição Membro de Convergencia • Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana


Comentários sobre o encontro: os estados gerais da psicanálise

Paris – Julho de 2000-08-14

Denise Maurano


Nós estávamos lá, cerca de mil psicanalistas reunidos quase dez horas por dia, no maravilhoso anfiteatro da Sorbonne, durante quatro dias. Um detalhe, nos privaram do coffe-break, mas felizmente, deixaram um bom tempo de intervalo para o almoço. Haja fôlego! Mais uma vez isso prova que para ser psicanalista é preciso não apenas saber escutar, mas também suportar permanecer sentado durante jornadas inteiras e ainda falando pouco. Isso porque, no caso desse encontro, o ato de tomar a palavra em uma discussão geral, implicava disputá-la frente à mil pessoas, o que não era fácil por diversas razões.

E porquê nós estávamos lá? O prospecto dizia: “Criar condições de uma nova reflexão sobre a psicanálise, sobre sua relação com outras disciplinas e sobre a relação dos psicanalistas entre si”. Eu não creio que nenhum de nós esperava verdadeiramente isto deste encontro. Por princípio o novo não pode ser esperado, se ele acontece é sempre uma surpresa. É apenas a porteriori que o reconhecemos. Quando se espera que o novo emerja, é preciso desconfiar. Pois o que se provoca com isso é o aparecimento de toda uma resistência. Como dizia um grande poeta brasileiro, Mário Quintana: “As idéias não vem quando você quer, mas quando elas querem.”

Então estávamos lá por outras razões, certamente, as mais diversas. Mas eu acredito que para a maior parte das pessoas, a razão era de participar de um evento, encontrar colegas que nós não temos o hábito de ver com freqüência, e se possível, mostrar nossos trabalhos e escutar o que se pensa da psicanálise fora de nosso circuito habitual.

Os dois primeiros objetivos foram absolutamente satisfeitos. Mesmo sem coffe-breaks, nós arrumamos um jeito de encontrar os colegas em um clima amigável e ainda, de conhecer psicanalistas de diversas partes do mundo. Isso foi muito simpático. Certamente com esse encontro nós demos um passo na direção da mundialização da psicanálise, o que é nossa resposta à abominável globalização. Um conhecido psicanalista avaliava informalmente, ao final, que o sucesso dos Estados Gerais quanto a esse aspecto se devia à tripla conjunção do político René Major, com a diplomata Elisabeth Roudinesco e o pensador Jacques Derrida.

Em contrapartida, do lado de uma possível contribuição ao pensamento psicanalítico, o encontro na Sorbonne foi decepcionante. Nós vimos o que estamos cansados de saber. Uma quantidade de declarações em nome da psicanálise que não respeitam o rigor do conjunto do texto freudiano. Nós bem sabemos que rigor não é rigidez. A falta de acordo é extremamente fecunda desde que, quando se trata da psicanálise, nós nos situemos dentro do campo da invenção de Freud. Se nós queremos inventar algo alheio aos princípios fundamentais freudianos, isto pode ser maravilhoso, mas é preciso que o nomeemos de outra maneira. Assim, para escutarmos algumas poucas apresentações aproveitáveis ? o que também aconteceu ?, tivemos que ouvir um grande número de discursos equivocados tanto em relação à psicanálise, quanto por referência às suas possibilidades de diálogo com outras disciplinas.

O dispositivo utilizado no qual as idéias dos autores dos trabalhos deveriam ser apresentadas por leitores, o que poderia ser bastante interessante, fracassou completamente. Menos de dez por cento dos leitores o efetivaram. A maior parte dos analistas convocados por René Major a esta função não tiveram a possibilidade de se deixar tocar pelas idéias dos outros, e com isso, não se dispuseram a serem vias de transporte dessas idéias. O ato de não se deixar tocar pelo Outro testemunha uma impossibilidade de dar um passo além do campo da identificação narcísica. Isto é algo que nos traz preocupações no que concerne à transmissão da psicanálise e no que se refere às condições de certos analistas de estarem à altura de suas funções. Houveram leitores que se justificaram dizendo que os trabalhos poderiam ser lidos nas internet. Mas nesse caso cabe colocar a questão: Porquê então fazer o encontro?

Um mal-estar instalou-se na relação entre leitores e autores. E, as grandes discussões gerais, longe de convergirem sobre os temas anunciados para cada uma das meias jornadas, o que no fim das contas poderia favorecer a apresentação de idéias psicanalíticas, promoveram em contrapartida, testemunhos públicos de catástrofes humanas vividas devido à causas políticas e à ideologias perversas. É certo que essas catástrofes tem toda a importância, sobretudo no aspecto cívico, e é certo também que nós analistas não podemos ficar à margem dessas ocorrências, porém é preciso lembrar que nossa questão específica não se coloca aí.

Falamos no encontro, em defesa da ética. Sempre me preocupo quando escuto falar de ética como se tivéssemos um acordo em relação a esse tema. Em geral se pensa que há um consenso. Talvez essa impressão se deva à força da ética cristã que dominou o discurso ocidental, e seja essa ética a que é referida nesses momentos. Mas o curioso é que aqueles que freqüentam o texto de Freud, e que participam da experiência psicanalítica, sabem o quão é suspeito o ponto de partida dessa ética: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Assim, o perigo que há em querer o bem do outro, antes de ser remarcado por Lacan, é evidenciado tanto nos textos quanto na clínica freudiana.

Nas conferências que foram feitas nos Estados Gerais, tivemos boas chamadas. Sr. Armando Uribe, que teve um papel muito importante no governo de Salvador Allende começou por falar do Pinochet que há em cada um de nós, e Jacques Derrida, este conhecido filósofo francês, se propondo a pensar a resistência à psicanálise no mundo e a resistência da psicanálise à ela mesma, enfatizou que a invenção freudiana é a única linguagem que acolhe a crueldade e a ambição de poder supremo (souveraineté), sem dar álibi à questão do mal radical. Ele sublinhou que se Freud escuta as ciências positivas, genéticas, religiosas, filosóficas, farmacológicas, que se opõem à psicanálise, é para não confundi-la com nenhuma delas.

Sabemos que a psicanálise é fruto da cultura, mas ela é pestilenta porque demarca um ponto de ruptura com esta mesma cultura. E com o quê ela rompe? Rompe com a ideologia do bem do outro porque ela sabe do caráter criminoso que está presente na pretensão de saber o que é esse bem para o outro. A originalidade da psicanálise é de não ser um saber que vise isto. O analista não é alguém que sabe sobre o bem do outro. A palavra é dada ao outro para que ele tente dize-lo a fim de confrontá-lo com o que descobre de seu próprio desejo.

A questão da transmissão não é apenas importante devido à formação dos analistas. É também fundamental no sentido estrito da clínica, porque o analista não é ponto de parada, mas via de passagem para a emergência desse sujeito do desejo. Falo evidentemente do desejo inconsciente habitado sempre pelo Outro, o que demonstra o caráter social do inconsciente enquanto apenso à alteridade. Assim, somente aqueles que olham a psicanálise de longe podem pensa-la distante de questões sociais.

Entretanto, enquanto analistas nós não abordamos essas questões pelo viés da ética do cidadão. Apesar da importância da ética do cidadão, a originalidade do campo psicanalítico está em não negar a dimensão que em nós insiste em escapar à cidadania e persevera sem domesticação possível. É a voz muda da destruição, dimensão da pulsão de morte que nos habita, e que tem, paradoxalmente, funções fundamentais na nossa vida. O trabalho de criação, por exemplo, não pode se passar de thanatos. Isso nos coloca em uma perspectiva que não é nem de queixa, nem de lamento diante da crueldade, mas de análise de suas incidências para buscar caminhos de facilitação de expressões não sangrentas desta dimensão inelutável.

Penso que é sobre esta perspectiva, que não é senão ética, que a psicanálise fazendo apelo às possibilidades da sublimação, se encontra com certas dimensões da estética. Ou seja, a psicanálise pode acolher o horror porque ela convoca sua transfiguração em algo de belo, amplo senso. É assim que ela pode se passar do recalcamento para encontrar outros destinos para o selvagem em nós. Penso ainda que esta perspectiva de intervenção atravessa não apenas nosso trabalho clínico, mas também todas as nossas intervenções de psicanalistas no largo campo social. Negar a crueldade e a vontade de poder, ou se queixar de suas incidências não nos leva a lugar algum, e para tentar conter as forças tanáticas existem muitas outras disciplinas bem mais apropriadas para faze-lo, como por exemplo o Direito ou a Pedagogia.

Essa tomada de posição implica uma reflexão sobre a direção de nossa ação. Essa ação nós a nomeamos intervenção psicanalítica. Se ela tem uma especificidade, isso justifica a designação de uma ética da psicanálise, porquê resistir a dize-lo? Isto é inteiramente diferente de simplesmente incluir a psicanálise no campo das éticas filosóficas existentes, sem reconhecer a originalidade da contribuição freudiana nesse campo.

Para concluir, quero sublinhar que não estou defendendo que a ética da psicanálise seja a única válida. A psicanálise está longe de todo pensamento totalitário. Precisamos lembrar que Freud, mesmo depois de todas as suas crítica à ética tradicional, enfatizou a importância da existência dos princípios os mais absurdos para fazer face à desmedida de nossa selvageria. Mas é preciso lembrar que esses princípios, certamente, não constituem a nossa bandeira.

A ética da psicanálise toma em conta que não existem Estados Gerais que consigam domesticar o mal radical constitutivo do pior e do melhor da psiquismo humano. É preciso desconfiar das intenções que pretendem faze-lo, porque como diz o músico e poeta brasileiro Caetano Veloso:
“O mal é bom
e o bem, cruel.”


Denise Maurano

Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ, Doutora em Filosofia pela Universidade de Paris XII, Prof. Adjunta da UFJF/MG, autora dos livros: Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud a Lacan, RJ, Ed. Relume Dumará, 1995 e La face cachée de l’amour: la tragédie à la lumière de la psychanalyse, FR, Presses Universitaires de Septentrion, 2000.

*Texto remetido a Revista Francesa Le Coq-Héron intitulado Compte rendu des États Généraux, ao Jornal Eletrônico Oedipe e ao Jornal Gradiva

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