Torções
do gozo: o barroco à luz da psicanálise
Denise Maurano*
Se o início de uma análise se dá com a produção
de sentidos que visam delimitar quem somos nós, seu encaminhamento promove
o esgarçamento dessa dimensão de significação revelando
em última instância a insuficiência de qualquer significação
que pretenda dar conta de nós mesmos e da vida, dado que tanto nós
mesmos, quanto a vida somos muito mais amplos do que qualquer representação
que tente nos abarcar. A experiência psicanalítica, valorizando
musicalidade da fala, a primazia do som em detrimento da adequação
do sentido do que dito, convocando o sujeito a dizer o que vier à cabeça,
aponta uma dimensão de não senso. É nessa perspectiva
que o final de uma análise promove uma certa dessubjetivação,
ou seja, favorece a queda do herói que fizemos de nós mesmos
para o melhor e para o pior.
Eis aí a dimensão trágica da psicanálise, na qual,
de certa forma, libertos do mito que nos fixava neurótica e narcisicamente
em um circuito estreito de mobilidade, em nome de uma causa perdida por princípio,
podemos então assumir a banalidade de nossa condição humana
e nos disponibilizarmos para experimentar a vida com tudo o que ela abriga,
não só de alegria mas também de sofrimento. A dinâmica
do paradoxo que divide o sujeito entre vida e morte, alegria e sofrimento,
prazer e dor, luz e escuridão, e tantas outras antinomias, indica a
perspectiva ética da Psicanálise. A psicanálise não
nos aborda como sujeitos ideais, mas como habitantes da “precariedade
do real”. Isso é efetivamente trágico.
Os gregos já haviam inventado um jeito de acolher a tragicidade da vida
sem sucumbir. Criaram, na Antiguidade, o teatro como teatro trágico,
fazendo então da tragédia uma arte. Assim, ao invés de
se esquivarem da dor, deram a ela uma expressão grandiosa, e com isso
fortaleceram-se. Mas, para conseguirem esta proeza, como Nietzsche bem o ressalta,
valeram-se de um recurso de transfiguração do horror que a tragédia
suscita. Esta transfiguração, eles a conseguiram com a música.
Ou seja, para a criação da arte trágica valeram-se do
espírito da música.
Parece-nos que o artifício de certas estéticas inspiradas na
arte trágica nos propiciam estratégias para a difícil
transmissão do que se situa nesse campo impactante da confrontação
do homem com sua finitude, suas faltas, seu não-senso. Este campo indica
um mais além do universo masculino, que está sempre referido à plena
potência vital. Esse mais além visado articula-se à noção
psicanalítica de feminino. E foi por esse viés que a estética
barroca, qualificada como feminina, por excelência, veio a interessar-nos.
Eugênio d’Ors, um dos estudiosos do barroco, teve o mérito
de fornecer as bases de uma explicação “estrutural” da
noção de barroco. Para ele, a abordagem do barroco como mero
estilo de um tempo se desfaz, em proveito da averiguação de oposições
sincrônicas entre o barroquismo e o classicismo que designariam, na verdade,
dois modos de orientação do psiquismo. Para ele o classicismo
seria um feito da civilização fundado sobre a ordem e a disciplina,
produzido pelo equilíbrio apolíneo e estaria do lado do que se
designa por animus, em referência ao universo masculino. Em
contraposição o barroco seria uma representação
da vida selvagem e do paraíso natural e se identificaria ao feminino, à anima.
Entre eles estaria sempre presente tanto uma oposição natural
quanto uma aliança “conjugal”1 . O barroco funciona,
a seu ver, como a voz do inconsciente que protesta contra a ditadura da racionalidade
consciente. É exatamente nesta perspectiva da afinidade entre a expressão
barroca e as leis do Inconsciente que propusemos a articulação
do barroco com a proposta ética da psicanálise.
Notas:
1 D’ORS, Eugenio,
Du Barroque, Paris, Gallimard, 1968, pg. 83-84.
Denise Maurano
Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, Doutora em Filosofia
pela Universidade de Paris XII e pela PUC/RIO, prof. adjunta da Universidade
Federal de Juiz de Fora, autora dos livros Nau do desejo, ed. Relume
Dumará; La face cachée de l’amour, Presses Univ.
de Septentrion e A face oculta do amor, UFJF/Imago Editora.
Participam como pesquisadores neste projeto: ALEX MARTONI (Letras) FABRÍCIO
NUNES (Psicologia) RAQUEL RUFF (Psicologia) REJANE MOURA (Psicologia) CAMILA
HALLACK (Psicologia) PRICILA AQUINO (Psicologia) RAFAEL GUARIZE (Psicologia)
JEAN CLAUDE SOARES (Psicologia/Letras) FERNANDA MACHADO (Psicologia)
*Artigo publicado
em OPUS BRASILIENSIS: Publicação
do Festival de música colonial Brasileira
e Música antiga, JF, 2001.
