No apelo
ao objeto, a economia histérica da contemporaneidade
Denise Maurano
Viver nunca foi fácil, por isso a cada época um novo valor para
efeito de salvação é erigido. Espera-se com ele apaziguar
as aflições da existência, harmonizar a vida, encontrar
o seu sentido. Na busca de um sentido visa-se delimitar o ser, esse que escapa
nas vicissitudes de nossa condição humana, na qual o ser em sua
evanescência está submetido a uma qualificação, é preciso
acoplar-lhe um predicado, algo que tente dizer o que, afinal de contas, esse
ser é, tarefa interminável.
A civilização grega, pedra fundamental da cultura ocidental,
inventou a polis, a cidade, e apelou a que a lei conseguisse regular, colocar
em bom termo os impasses da vida e quem sabe nisso apreender o ser. Não
foi à toa que o valor de ser cidadão, ser conforme às
leis, era tão exaltado. Era como se a vida pudesse ser regulada pela
lei. Porém, não demorou muito, e evidenciou-se a desmedida dessa
pretensão. As tragédias bem testemunharam isso, problematizando
a relação do homem com a lei, seja ela a lei do incesto, seja
as leis dos deuses, sejam as da cidade, não importa, a questão é que
o que ela deve regular extrapola as possibilidades de regulação.
A idade medieval fez apelo a um outro valor: Deus. A fórmula da salvação
expressava-se com o fazer-se a imagem e semelhança de Deus. A ansiada
paz seria aí encontrada. Porém os excessos desse sentido atestados
sobretudo pelos horrores da Inquisição, contribuíram para
que pouco a pouco esse valor se apresentasse em derrocada.
Nasce então a modernidade e sua aposta radical nos valores da razão.
A exaltação de Deus dá lugar à exaltação
do homem enquanto senhor de sua razão. A racionalidade é investida
como a via de acesso à felicidade. As luzes da consciência inflamam
a focalização da subjetividade como morada do ser. Na delimitação
da subjetividade surge a tentativa de objetivação do mundo, empreitada
da ciência.
Porém, o tempo passa e a ciência, mesmo que bem tecida com as
tramas da razão não consegue suturar o sentido da vida. Este
segue errante e desemboca nas bocas das histéricas, que indagadas por
Freud, dão testemunho do valor que a sexualidade toma na contemporaneidade.
O mal do qual se queixam é o mal de amor, pólo de investimento
supremo dos novos tempos. Não que o sexo e os impasses do amor não
fosse importantes anteriormente. Desde que o mundo é mundo lá estavam
eles, mas como bem comenta Foucault, eles não eram tematizados, não
se prestavam a esse furor de veiculação discursiva que inventa
além da Psicanálise, as sexologias para todos os gostos. As histéricas
buscam alojar o ser no corpo, e então produzem nele as marcas significantes
dessa dor de amor. Atestam com seus sintomas o hiperinvestimento na libido,
o apelo a conjugação amor e sexualidade como passaporte para
a abolição da sofrida confrontação com a alteridade,
com o diferente.
Nesse campo de arbitrariedade onde repousa o sentido da vida não resta
outra coisa frente à evanescência do ser, senão envolvê-lo
com as roupagens de época na tentativa de apreender-lhe um senso, dar-lhe
uma solução quer seja via a lei, via Deus, via a razão
ou apelando à libido.
Agora, observemos uma coisa. Nesse apelo à libido vigora o privilégio
da dimensão econômica do psiquismo que, a meu ver, ganha outras
vias de expressão em nossos tempos, como por exemplo, a emergência
do imperialismo econômico financeiro, que vem produzir uma profusão
de teorias econômicas. Amor e dinheiro mostram aí sua parceria.
Os impasses da economia psíquica no arriscado bolsa dos investimentos
libidinais acenam com a possibilidade de encontrarem um meio de regulação
e de resolução via a intervenção do valor da moeda.
Abre-se a esperança: quem sabe se pode negociar os déficits no
intercâmbio amoroso, as arestas da sexualidade a peso de ouro, ou melhor,
de papel moeda? O campo da economia toma a cena e erige a ditadura do valor
do objeto enfaticamente avaliado segundo sua possibilidade de mercantilização,
ou seja, possibilidade de troca, de valer por outra coisa, valer para mais
além, o que o define como um bom investimento. Não é à toa
que o termo relação de objeto, forma pela qual na Psicanálise
as trocas amorosas serão teorizadas, ganhará sua justa abordagem.
Efetivamente, a Psicanálise, já denominada cura pelo amor, não
poderia mesmo ter sido inventada senão nesses tempos de inflação
libidinal. Vejamos como ela vem ressaltar a estrutura histérica do psiquismo
e engendrar pelo discurso o lugar de uma economia e uma ética histéricas
que ganham espaço na Idade Contemporânea.
Na primeira teoria do aparelho psíquico, chamada primeira tópica,
Freud recusando a idéia de um inatismo na histeria, dá a ela
uma explicação econômica, que embora venha a se complexificar,
jamais será abandonada. A histeria seria decorrente de um ‘a mais’ de
excitação que não encontrou outra via de escoamento senão
o sintoma conversivo, transformação de uma excitação
psíquica em excitação somática. Nessa perspectiva é a
teoria do trauma que está vigorando, ou seja, a emergência no
psiquismo de uma representação que engendraria um afeto intolerável
e que traria como conseqüência, de um lado o recalcamento da representação
e de outro a conversão do afeto dela desprendido em sintoma somático.
Apesar de Freud ter percebido logo que o trauma de que se tratava não
era decorrente de uma contingência factual de sedução concreta
ou algo que o valesse, como havia pensado primeiramente, não abandonou
o aspecto econômico desta teoria. Ele a sofisticou introduzindo nela
a função da fantasia. Pode-se pensar que o que é traumático é a
confrontação com o desamparo radical do animal humano que buscando
se encontrar, se perde no campo da linguagem, na fenda que se abre entre a
Natureza e a Cultura. Isso justifica a criação do neologismo “troumatisme”,
maneira pela qual Lacan insere a palavra buraco, “trou”, no termo “traumatisme”.
Tal desamparo é reificado pela evidência da diferença entre
os sexos, que cinde e condena o sujeito a só ser Um em relação
ao Outro, pólo intangível da absoluta alteridade, o que faz com
que o sujeito não seja senão mais ou menos Um, minando qualquer
chance de constituir-se como uma potência absoluta, de ser senhor da
plena turgescência vital, cujo significante é o phallus.
Eis aí a dimensão traumática da castração
e a divisão radical do sujeito da linguagem, aquele que exilado da Coisa
que o faria pleno, deixa-se fisgar pelos objetos que a sugerem e que, por isso
mesmo, atuam como objetos causa de desejo, como o denomina Lacan. A fantasia,
melhor designada como fantasma, vem então a ser o produto construído
para proteger o sujeito do real da perda do objeto, exprimindo a divisão
do sujeito frente a conjunção e disjunção com o
objeto perdido que lhe causa o desejo, o que se lê fórmula lacaniana $<>a.
O desejo, primeiro motor do psiquismo, marco inaugural de toda atividade por
ele engendrada, parte na caça desse objeto que enquanto perdido jamais
pode ser encontrado, senão reencontrado pelas pistas do fantasma, trazendo
como resultado a eterna defasagem entre a satisfação esperada
e a encontrada. Mas garantindo com esta defasagem a manutenção
da atividade desejante que só tira do objeto sua causa, não seu
fim.
Essa condição radical do objeto de ser sempre o que vem no lugar
de outra Coisa, de causar desejo por ornar-se de brilho fálico, insinuando-se
como meio de acesso à um gozo ‘a mais’, parece ter sido
por vezes melhor apreendida pelo marketing, do que por grande parte de nosso
colegas analistas. O marketing bem sabe que o objeto vale, não pela
satisfação que ele possa propiciar, mas pela que ele pode prometer,
mostrando-se via de sua realização, sempre adiada obviamente,
o que possibilita a exploração dos desdobramentos da demanda
aí instalada. Os analistas, desviando-se do rigor freudiano , caíram
por vezes na esparrela da promessa de um acoplamento adequado e satisfatório
entre sujeito e objeto. Isso se traduziu pelas teorias sobre as relações
de objeto que pretendiam oferecer ajustes à relação mãe-filho,
homem-mulher, enfim, sujeito-objeto. A isso Lacan opõe sua teoria da
falta de objeto. Ou seja, resgata em Freud, o limite imposto a Eros por Thanatos.
Assim o apelo à união, ao acoplamento, à harmonização é barrado
não pelas contingências do encontro (Ah! Se eu não
tivesse aquela mãe ou aquele namorado....tudo seria diferente...),
mas porque a atividade psíquica é movida por uma falta radical
que é causa mesma do desejo, o que as histéricas denunciam todo
o tempo. E o desejo, embora sendo em último termo desejo de morte, desejo
de matar o desejo, prolonga a vida no desvio de se fazer desejo de ser o desejo
do Outro.
A psicanálise é inventada em resposta à demanda que emerge
superinvestindo o objeto, onde se busca em vão, apreender o desejo nesse
contexto contemporâneo de inflação libidinal. Tal inflação,
literalmente, toma corpo na histérica que se deixa fisgar pelo que se
lhe apresenta como desejo do Outro. No enigma de ser, ela busca alojar seu
ser no corpo tornado objeto para servir ao Outro, afim de capturar-lhe o desejo
e eliminar com isso a própria alteridade. Ela substitui o desejar, pelo
ter que agradar, defendendo-se assim do trauma do buraco irremediável
entre o sujeito e o Outro. Malgrado a singularidade pela qual isso se apresenta
na histeria, pode-se ver aí a revelação da natureza geral
do desejo: fizgar o desejo do Outro. Esse desejo a histérica o encarna,
o dramatiza; se faz porta voz dele e o exibe como pode, sobretudo via seus
sintomas.
Jane, uma analisante ilustra bem esse quadro. Ela veio procurar análise,
depois de ter tentado ajuda em inúmeras terapias, por causa de um “pânico
da morte” pelo qual ela sentia-se , por vezes, “tomada”.
Achava que poderia enlouquecer ou enfartar e nesses momentos apalpava o próprio
corpo, mantendo uma mão agarrada ao pescoço e outra ao peito.
Aqui cabe a observação: em tempos de primazia da libido e portanto,
de apologia do objeto, não é ao acaso que a dita doença
do pânico toma a cena. Em seu parentesco próximo com a fobia,
ela revela-se sinal de alarme frente a angústia da confrontação
não propriamente com um objeto, mas com a falta dele. Este objeto que
falta, perdido no real da causação humana, Jane tenta reencontrá-lo
na objetivação do próprio corpo que na iminência
da morte, confirma-se vivo. No enigma de ser, ela tem em seu corpo/objeto uma
restituição fálica, uma reafirmação de sua
potência vital, uma resposta, um gozo, satisfação paradoxal.
No encaminhar do trabalho analítico, quando arrisca-se a abrir mão
da defesa do sintoma, nostálgica comenta referindo-se a ele e atestando
o gozo nele produzido: “No meu sintoma eu era plena, ele era algo
que me tomava por inteiro, em absoluto, e agora o que eu vou ser?”
A profusão de sentido operada pelo acionamento do dispositivo da fala
na análise (isso acontece porque meu pai...., é que quando
eu era pequeno aconteceu....), isso que denomino como esgarçamento
do sentido, efetua-se para que esse sentido ampliando-se desmesuradamente se
rasgue, revelando o não-senso que ele vem acobertar. Esta é a
dimensão trágica da análise que opera na direção
da queda do Pai, É nessa perspectiva a análise visa a que o sujeito
venha a poder se passar sem o Pai, ou seja, a poder ultrapassá-lo, desde
que tenha podido servir-se dele.
O sintoma funciona como a metáfora do resgate do Pai para o sujeito
que não pôde servir-se dele, dado que este mostrou-se insuficiente
em sua função de fiador do mundo simbólico, sustentáculo
do sentido que desalienaria o sujeito da mãe-Natureza. Isso é válido
para a histeria mas serve qualquer que seja a escolha da neurose. No caso de
Jane, essa relação entre o sintoma e a função do
Pai, aparece de maneira evidente em um ato falho. Querendo referir-se ao fato
de haver perdido seu pai ainda quando era bebê, o único que a
teria amado, confunde-se e diz acertadamente: “Quando eu morri, meu
pai nasceu.” Eis a equação pela qual ela se oferece
em sacrifício para restituir a potência à esse pai. O sintoma “pânico
da morte” revela-se expressão do conflito entre fazer renascer
o pai em sua potência, pai este designado por sua mãe como “porra
podre” e, o custo de aí perder-se como sujeito, já que,
para isso, tem que tombar como objeto destinado a obturar a falta no Outro.
O desejo não se confunde nem com a demanda de amor que tenta veiculá-lo,
nem com a satisfação da necessidade. Ele é desejo insatisfeito,
não apenas para a histérica, dado que sua falta constitutiva
está articulada à uma demanda no lugar do Outro. Expressa-se
como articulação significante da falta do objeto enquanto tal,
falta da plena potência vital, falta de seu significante, o phallus.
Na histeria o sintoma aparece como castração real demandada supostamente
pelo Outro e nisso vigora a idéia de aí se alojar um fantasma
próprio à mulher. A feminilidade aparece para a histérica
como um sacrifício que exige que ela se ofereça como dádiva
ao desejo do Outro consagrado. Isso é a fonte da idéia de possessão
por um desejo totalizante no apelo a um ‘a mais’ de gozo suficiente
para abolir toda e qualquer fronteira em relação à alteridade.
Um gozo que sobrepujasse o sexual, o seccionado, o partido.
É verdade, Foucault tinha razão quando acusava a primazia do sexual
no campo da Psicanálise. Entretanto cabe ressaltar que esse apenas é o
ponto de partida da Psicanálise, não seu ponto de chegada. No mais
além do sexual Freud encontra a outra face do desejo, sua face oculta:
a morte. O que faz com que tenha que lidar com uma ética alheia as até então
vigentes. O princípio do Bem, seja ele qual for, bem fundado no campo
das éticas filosóficas, mostra-se insuficiente para reger as ações
psíquicas. Enquanto analistas, buscamos mais além do princípio
do Bem, e disso a intervenção clínica que nos é própria,
tem que estar bem ao par. Sua ética, afeita ao desejo, como o sabemos,
não deve apelar à um ideal, mas ao real. E nesse real vigora o
que tanto as histéricas quanto o “espírito” de nossa época
bem o sabem, embora sem quererem saber: a impossibilidade do ajuste perfeito
entre os sexos, impossibilidade de obturação da fenda do sujeito
pelo Outro, formulada por Lacan como impossibilidade da relação
sexual. Assim embora passemos pelo leito dos pais, não é aí que
ficamos na visada da Psicanálise, essa operação deixa um
resto inassimilável por quaisquer conjugação, apesar dos
apelos histéricos às relações de objeto.
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____________. Tres ensayos de teoría sexual (1905)
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____________. Sobre la dinámica de la transferencia (1912)
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____________. Pulsiones y destinos de pulsión (1915)
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____________. A Face Oculta do Amor: Uma investigação filosófica
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Denise Maurano
Psicanalista, Doutora em Filosofia PUC/RJ, Doutoranda em Filosofia pela Universidade
de Paris XII, Professora da Universidade de Alfenas, organizadora da publicação:
Agenda de Psicanálise I e II, Circulação Psicanalítica
e autora do livro Nau do Desejo, Relume Dumará.
*Artigo publicado na Revista Internacional: A clínica lacaniana, RJ/Paris/NY,
V. 1, n.2, p.37-44, 1998
