Proposição para a Formação do Psicanalista no Corpo Freudiano Escola de Psicanálise - seção Rio de Janeiro

 

Há uma congruência necessária entre a teoria psicanalítica da direção do tratamento e as estruturas construídas no interior da Escola para sustentar a transmissão da psicanálise e a difusão da psicanálise no mundo. Não há dissociação possível nesse campo: há uma continuidade moebiana entre a psicanálise em intensão (a experiência psicanalítica enquanto tal) e a psicanálise em extensão 1 (a sustentação da psicanálise no mundo e, em especial, a formação dos analistas). Por isso, Lacan pondera que o ensino da psicanálise deve ser congruente com a própria análise e, na verdade, deve ser atravessado pela experiência da análise.

Cabe à Escola estabelecer essa continuidade através de seus dispositivos. A Escola é uma ponte entre a intensão e a extensão, ambos os domínios são de sua alçada, pois nela se elabora aquilo que das análises permite teorização. A Escola produz a ponte entre o trabalho de transferência e a transferência de trabalho. O avanço da psicanálise depende do rigor da formação de seus operadores.

 

SEÇÃO DE ENSINO

O âmbito da teoria se constitui pelo Ensino da Escola.

O Ensino da Escola é constituído por duas dimensões, a Básica e a Permanente.

A Formação Básica compõe-se de 5 semestres de estudo de Conceitos e Temas Fundamentais: Real, Simbólico e Imaginário; Inconsciente e Pulsão; Transferência e repetição; Édipo e castração em Freud e Lacan; Introdução às estruturas clínicas.  

A Formação Permanente, por sua vez, é constituída de Seminários, Cartéis e Grupos de Estudo de diferentes núcleos temáticos: Psicanálise com Crianças, Psicose, Criminalidade, Arte, Cultura, Literatura, Formação do Psicanalista, Instituições, Medicina etc. Lacan dizia contar na Escola com o turbilhão, isto é, com o acionamento do desejo do psicanalista em diferentes direções de ensino e pesquisa.

Que a formação do psicanalista seja permanente, é uma exigência ética decorrente do ensino de Lacan acionada por sua Escola, a Escola Freudiana de Paris. Não há formação acabada, a não ser sob o signo da impostura. Embora a Formação seja Permanente, isso não impediu que o Corpo Freudiano Escola de Psicanálise tivesse proposto, em 1999, com sucesso, uma Formação Básica, hoje (isto é, após o sucesso) imitada por toda a parte, após ser duramente criticada e considerada, ingenuamente, incompatível com a orientação lacaniana centrada na noção de formação permanente. Ela teve seus motivos: a precariedade da formação universitária no que tange à teoria psicanalítica é patente e atestada por todos os que ensinam nesse âmbito.

Por outro lado, não há formação ortodoxa, toda formação que assim se pretenda é abjeta.2 Assim, as propostas de Lacan não existem para serem copiadas, elas são invenções para se construir a ponte acima mencionada, mas não são definitivas. Sua provisoriedade é atestada pelo princípio lacaniano de que operamos no funcionamento e apenas nele é possível se ajustar o nosso intuito à experiência.

O Cartel é uma criação de Lacan. A participação em cartéis é parte da formação teórica da Escola. O cartel é uma invenção lacaniana que tem a finalidade de promover um empuxo ao trabalho, à elaboração da teoria, à simbolização do real da experiência analítica. Ele une o estudo da teoria à fala em torno dos conceitos, trazendo-os à dimensão do bem-dizer, inerente à experiência analítica enquanto tal. Ele é uma estrutura que alia o discurso universitário ao discurso psicanalítico, partindo do discurso da histérica, que interroga a consistência do saber do mestre.

Contudo, o discurso da histérica encontra no cartel uma recepção diversa daquela que encontra com o mestre ou com o analista. Trata-se, no cartel, de promover o encontro do discurso da histérica com o discurso universitário, encontro que pode se transformar num embate caso não opere, como intermediário, o discurso psicanalítico.

Ambas as atividades ligadas à teoria – Ensino e Cartel – demandam que o analista em formação dê as suas provas “a alguns outros” que participam igualmente do ato de autorização do psicanalista (isto será retomado adiante).

Ao final da Formação Básica, será solicitado um trabalho de finalização que será apresentado em Jornada da Escola. Isto feito, pode ser pedida a passagem de Associado a Membro.

No caso do Cartel, a produção individual – ou o fracasso desta – deve ser reportado numa Jornada de Cartéis a ser realizada anualmente pela escola. Desde 2006, as Seções Rio de Janeiro e Campos dos Goytacazes realizam uma Jornada de Cartéis conjunta, realizada alternadamente nas duas cidades.

No âmbito da Formação Permanente, a produção deve ser igualmente permanente, dando provas continuamente da atividade de reflexão do psicanalista.

 

SEÇÃO CLÍNICA: AUTORIZAR-SE POR SI MESMO E POR ALGUNS OUTROS

A dimensão Clínica é formada pela Análise, pela Supervisão (Individual + Transmissão do Caso Clínico) e pelo Atendimento Clínico.

Análise - a análise é feita com um analista de livre escolha, seja Membro do Corpo Freudiano ou não. A transferência analítica de cada sujeito, mola propulsora da análise, é, assim, respeitada, e não poderia deixar de sê-lo. A análise opera pela associação livre e livre é seu modo de estabelecimento inicial: a escolha do analista é parte integrante dessa associação.

Ninguém domina a transferência, nenhum mestre, nenhuma instituição, nenhuma Escola. Impor a transferência é ferir seus princípios em sua base ética ligada ao desejo. A transferência é um vetor único enraizado no inconsciente. Dirigi-la é pretender orientar o inconsciente e não seguir a orientação do inconsciente, tal como recomendado por Freud. Se a análise opera com o saber inconsciente e não com o saber sobre o inconsciente, isso impede desde o início qualquer mestria, qualquer dominação. O analista dirige o tratamento e não o sujeito, e, se seu poder é ilimitado, sua ética se centra em sua absoluta não utilização.

Não existe análise didática, de formação, pois toda a análise levada a seu termo se revela didática, ou seja, forma um analista, mesmo que este não pretenda operar como tal. A análise se revela didática só depois e o desejo de ser analista é um desejo como outro qualquer, que requer a análise das fantasias a ele subjacentes. Atingir o desejo do analista é outra coisa, é atravessar as fantasias, inclusive a de ser analista, para operar sem fantasia e a partir do real que esta colmata. Traço de analista é encontrado por Lacan no entusiasmo que o horror da castração suscita, ao invés de deprimir. Porque a depressão é recuo diante desse horror.

A análise compõe a região do “autorizar-se por si mesmo” demarcada por Lacan na Proposição de 9 de outubro de 1967 como essencial no ato analítico: “O analista só se autoriza por si mesmo”. Mas trata-se de algo que é elaborado na análise do sujeito e, portanto, inclui seu psicanalista. O autorizar-se não é uma arrogância solitária, individualista, mas um ato fundado no percurso analítico de cada um, ou seja, sujeito à castração operada pela análise.

Supervisão - a supervisão é parte constituinte da formação clínica. Ela não é obrigatória, tanto quanto a análise não é obrigatória! A supervisão é desejada, assim como a análise é desejada! Dizer que a supervisão é obrigatória segundo determinado protocolo de formação estabelecido por uma instituição analítica é abjeto, porque implica na entrada em cena do discurso universitário no âmbito da formação, a qual deve ser predominantemente regida pela dimensão psicanalítica.

Há, sim, na supervisão, naturalmente, algo do discurso universitário, mas sua essência não pode estar adscrita exclusivamente a este discurso. A supervisão é ambígua, ela oscila entre o discurso psicanalítico e o discurso universitário, mas não se identifica com nenhum deles exclusivamente3: ela não é propriamente uma análise (em francês, fala-se, fomentando o equívoco, de uma análise segunda para designar a supervisão) e não é uma lição sobre técnica. Nesse sentido, ela palia os efeitos devastadores do discurso do mestre e do discurso da histérica, efeitos de dominação e de submissão: assim como o analista castra o histérico, o universitário castra o mestre.

A supervisão, o cartel, a produção teórica do psicanalista e a apresentação sistemática dessa produção (não só nas Jornadas internas acima mencionadas, como também externamente, nos Colóquios, Congressos etc) implicam a inclusão de outros no processo de formação do psicanalista, ela está inserida no acréscimo que Lacan faz no seminário Les non-dupes errent, na lição de 9/4/1974, à sua colocação da Proposição: “O analista se autoriza por si mesmo, e por alguns outros”. Os diferentes dispositivos criados para a formação do psicanalista são aqueles que visam dar certa feição a estes “outros” e chamá-los a intervir no processo de formação do sujeito.

 

UM NOVO DISPOSITIVO

 

Propomos aqui um novo dispositivo chamado “Transmissão do Caso Clínico”. Ele tem como objetivo primordial estimular o trabalho de reflexão clínica dos analistas da Escola, assim como fortalecer o compromisso com a transmissão da experiência da análise, necessário à sustentação da causa analítica. Ele se compõe de 3 tempos:

No primeiro tempo, trata-se de uma supervisão individual realizada em grupo, com 4 Analistas Praticantes, feita por um supervisor escolhido pelo grupo: nesse grupo composto por 4 analistas praticantes (AP) será realizada a supervisão de um caso clínico de cada um deles. O grupo se dissolve após as 4 supervisões terem sido realizadas. Os Analistas Praticantes são reconhecidos como tal entre os Associados e Membros que pedirem sua inscrição no quadro de AP da Escola. Tal pedido é feito por escrito, e se compõe de uma carta dirigida à Coordenação da Seção Clínica, do Curriculum Vitae, do preenchimento de um formulário e posterior entrevista. O pedido recebe uma resposta quanto a sua pertinência. Só serão aceitos aqueles que já possuem alguma experiência clínica, não sendo possível participar aquele que jamais recebeu um analisando. Isso significa que o início do atendimento clínico em psicanálise não é regido pelas leis da responsabilidade profissional, mas sim pelo acionamento da transferência que se passa quando alguém encaminha um analisando para um analista.

Por meio do Assistente da Coordenação da Seção Clínica, a supervisão é marcada pelos AP, que escolhem o supervisor na lista de supervisores nomeados pela Coordenação da Seção Clínica.

A supervisão é realizada (não é preciso dizer, em tempo lógico, o que não significa de modo algum sessão curta) do seguinte modo: o supervisionando apresenta o caso (ou as questões clínicas) e o supervisor as elabora com ele. Todos os outros ouvem sem se pronunciar. Ao final da supervisão, o supervisor oferece a palavra a eles, para suas observações. Mas a supervisão já está encerrada. Pretende-se com esse funcionamento cortar os efeitos anti-analíticos do palpite, da peruagem, do achismo comuns na supervisão em grupo, que não servem para nada, a não ser reduzir a densidade da experiência psicanalítica à banalidade da compreensão psicológica.

Há um vetor transferencial na supervisão e é dele que emana o trabalho do inconsciente. Este vetor nasce no analisando e chega ao analista, cabendo ao supervisor recolhê-lo em sua dimensão enigmática, e, avaliando a sua incidência sobre o supervisionando, devolvê-lo. Os outros escutam. Ao se pronunciarem, estão fora desse vetor e só podem falar do que observaram - justamente de fora.

No segundo tempo, após ter a supervisão, o AP pode – se desejar – fazer um texto escrito no qual elabore sua experiência clínica com este caso (ou sua questão exposta na supervisão), a partir da supervisão que teve. Este texto – entregue sem assinatura, anônimo - será lido por 3 supervisores, aquele que deu a supervisão e outros dois, sorteados entre a lista de supervisores do dispositivo. Estes dois podem – mas não é necessário - se pronunciar a respeito do que leram e, caso um deles acredite que nesse escrito houve transmissão do caso clínico, o AP passa à categoria de APE, Analista Praticante da Escola.

O terceiro tempo é constituído pelo atendimento clínico - Nessa condição, o APE pode – se desejar – passar a receber analisandos indicados pelo serviço de atendimento da Seção Clínica, cujo funcionamento se baseia em seu regimento interno. Com esta nomeação, ele não apenas se candidata a receber pacientes encaminhados pela Seção Clínica da Escola, como também dá um testemunho de sua própria experiência clínica a partir dos efeitos de seu percurso na Escola. A única condição para tal é que ele passe a ter uma supervisão individual com um Analista Membro da Escola (AME) de sua livre escolha.

A lista de Supervisores que dará início ao funcionamento do dispositivo de Transmissão do Caso Clínico é a seguinte: Denise Maurano, Lucia Perez, Marco Antonio Coutinho Jorge, Nadiá Paulo Ferreira, Sonia Leite, Teresinha Costa.

Como Assistente da Coordenação da Seção Clínica, José Antonio Gatti cuidará da organização – montagem e dissolução - dos grupos que participarão do dispositivo.

Uma avaliação do novo dispositivo será realizada ao cabo dos primeiros 6 meses de funcionamento.

 

Marco Antonio Coutinho Jorge

Outubro de 2006 / Dezembro de 2007

 

 

1 O termo intensão se refere aqui ao aspecto intensivo da experiência.

2 DIDIER-WEILL, Alain, “A formação ortodoxa”, in JORGE, Marco Antonio Coutinho (org.), Lacan e a formação do psicanalista, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2006.

3 JORGE, M.A.C., “A estrutura da formação do psicanalista”, in JORGE, M.A.C., Lacan e a formação do psicanalista, Rio de Janeiro, Contracapa, 2006.