
MOVIMENTO LACANIANO
PARA A PSICANÁLISE FREUDIANA1
Jean Szpirko
O primeiro Congresso de
CONVERGENCIA se realizará em Paris, sob os auspícios
da UNESCO, nos dias 2, 3 e 4 de fevereiro de 2001,
tendo como tema O inconsciente: Avanços
Lacanianos do Inconsciente Freudiano.
Quarenta e cinco associações de psicanalistas, essencialmente
européias e sul-americanas, fundaram o movimento de Convergencia. Este
Congresso será a ocasião de colocar em questão e em ato
seus laços de trabalho e seu engajamento na política da psicanálise.
O Movimento de Convergencia ainda não é suficientemente conhecido,
nem pelo conjunto dos membros das associações que o fundaram
nem pelos numerosos psicanalistas concernidos pelas questões da psicanálise,
particularmente em face do cientificismo que, a partir de enunciados tomados
de empréstimo às ciências, tenta validar crenças
como se elas fossem universalmente compartilhadas. O cientificismo promove
ideologias, concepções do mundo, que desconhecem, todas, o laço
indefectível entre linguagem, saber, desejo e sexualidade.
Nem todos os psicanalistas estão preocupados com esta política
da psicanálise. Alguns se afastaram dela pela violência das querelas
que, desde as reuniões das quarta-feiras em torno de Freud, não
cessaram de se reavivar. Deixaram suas feridas, por um lado, as tensões
engendradas por ocasião das tramóias da International Psychoanalytical
Association (IPA) para excluir Lacan, por outro, os acontecimentos entabulados
pelo genro de Lacan para inscrever na história a destruição
da Escola Freudiana de Paris (EFP).
Lacan, em uma leitura feita durante seu último seminário, anunciou,
por um lado, a dissolução da EFP e, por outro, seus votos de
receber demandas de filiação para uma associação,
que seria criada sob o nome de "Causa Freudiana". Inúmeros
psicanalistas, bem como outras pessoas de todas as áreas responderam:
mais de mil! A "Causa Freudiana" foi rapidamente transformada em "Escola
da Causa Freudiana", da qual o genro de Lacan instaurou-se como diretor.
Na época, muitos psicanalistas não queriam contrariar um velho
homem cansado e doente – com quem tinham uma dívida - opondo-se
a propostas talvez ainda investidas por ele, mesmo se o seu autor e beneficiário
fosse seu genro. A dívida dos psicanalistas para com Lacan não
concernia mais a seu genro do que a dívida de Lacan para com Freud não
concernia a sua filha Anna.
A "dissolução" da EFP foi assimilada por J.A. Miller
a de Cartago, e, em nome do significante "Delenda", ele instaurou
um verdadeiro tribunal de inquisição em relação àqueles
que não lhe manifestavam os sinais de devoção que ele
esperava. É neste contexto que a "Causa Freudiana" foi afetada
por um novo nome, o de "Escola da Causa Freudiana". Refazer uma "escola" permitia
retomar os títulos da antiga (AE: Analista da Escola, AME: Analista
Membro da Escola), sobre a base de uma confusão - que Lacan havia denunciado
- entre gradus e hierarquia.
Os processos de inquisição e de desvio da psicanálise
provocaram a debandada de quase todos os psicanalistas das gerações
anteriores que, até então, haviam acompanhado Lacan: Jenny Aubry,
René Bailly, Louis Beirnaert, Jean Clavreul, Françoise Dolto,
Solange Faladé, Patrick Guyomard, Serge Leclaire, Pierre Legendre, Lucien
Israël, Maud et Octave Mannoni, Charles Melman, André Rondepierre,
Moustapha Safouan, Christian Simatos...
A lembrança destes acontecimentos permanece bastante dolorosa e explica,
em parte, a persistente reserva de alguns psicanalistas perante a atualidade,
quando esta interpela a posição da psicanálise na cidade:
na "política da psicanálise". A palavra "política",
por outro lado, é ao mesmo tempo valorizada e conotada negativamente,
a partir de suas origens gregas: é em nome dos assuntos da cidade que
Sócrates foi condenado.
Estas conjunturas políticas são incontornáveis, e importa
que, hoje, através de Convergencia, elas sejam entendidas e sustentadas
por psicanalistas que, de perto ou de longe, fazem parte do ensino de Freud
e de Lacan, que nodula: teoria, prática e transmissão, conferindo
ao saber um estatuto absolutamente específico. Em todas as outras disciplinas,
quem detém o saber são especialistas que o aplicam; os especialistas "psi" não
escapam a este modelo, nem mesmo aqueles que afirmam levar em conta a dimensão
do inconsciente. Em contrapartida, só pode sustentar a função
de psicanalista aquele que sabe que seu "saber" sustém uma
função particular: a de fazer emergir um saber que ele não
conhece, que se encontra em estado latente para retornar viçoso na fala
de um analisante.
Este saber específico sustenta uma outra função original:
a de permitir a demarcação das funções subjetivas
que tramam os saberes, as crenças. A asserção segundo
a qual "não há metalinguagem" ilustra bem isto. Sustentar
esta posição, muitas vezes dolorosa, implica em encontros, debates,
confrontações, tentativas renovadas de teorizações
e de publicações.
Para melhor compreender o projeto de Convergencia, inseparável de suas
origens sul-americanas, um breve retorno histórico é necessário.
Os diferentes movimentos psicanalíticos da América do Sul não
poderiam ser confundidos com o que se conhece acerca do lugar da psicanálise
na América do Norte, do qual os filmes hollywoodianos propõem
uma espécie de modelo "universal". A casa do doutor Edwards,
de Alfred Hitchcock, o ilustra particularmente bem. Este filme desconhece radicalmente
a dimensão do fantasma e anuncia, por este fato, a decrepitude do movimento
psicanalítico norte-americano face ao sucesso, em certos meios da psiquiatria,
do DSM, cujos enunciados referem-se à teoria dos "fatos",
há muito obsoleta em outras disciplinas. O DSM propõe repertórios
de signos que têm o estatuto de "fatos", coletados em versões
sucessivas: DSM III, DSM IV, DSM V etc... Afirmando apoiar-se em "fatos
empíricos", validados segundo critérios "objetivos",
conformes às exigências da estatística, esses repertórios
respondem, de fato, a uma lógica do "amanhã se barbeia grátis":
remetendo sempre ao depois as validações experimentais, que permanecem
em suspenso e nunca são realizadas, tal como as promessas oferecidas
pelas religiões, que anunciam amanhãs encantadores.2
HISTÓRICO
O projeto de Convergencia
prolonga o Lacano-americano. Para uma melhor compreensão,
convém situar a origem deste nome: "lacano-americano",
o movimento ao qual ele deu lugar na América
do Sul, e sua articulação com a história
da psicanálise na Europa, e em particular com
a França.
Consideraremos sucessivamente:
• a psicanálise
na América do Sul,
• a dissolução da Escola Freudiana de Paris, o Discurso de
Caracas e a eclosão, na América do Sul, de grupos lacanianos, que
se dissociaram, de forma mais ou menos rápida, da Escola da Causa,
• a constituição do Lacano-americano e seu "dispositivo",
• o projeto de "Convergencia", que teve sua origem na América
do Sul, mas se encontra, desde sua origem, ligado aos movimentos que se desenvolveram
na Europa.
A psicanálise
na América do Sul
Com Freud ainda em vida,
a América do Sul sofreu rapidamente a influencia
da práxis psicanalítica. O desenvolvimento
da psicanálise na Argentina, no Brasil e no
Uruguai antecipou-se inclusive àquele que teve
lugar na França; Freud e Melanie Klein, em particular,
foram lá traduzidos muito cedo e influenciaram
numerosos discípulos.3
Atualmente, o movimento psicanalítico permanece extremamente vivo nos
países de língua espanhola e portuguesa.
É neste terreno que o ensino de Lacan suscitou um interesse que se reforçou
incessantemente, a ponto de constituir objeto de grupos de estudos no seio do
tronco sul-americano da I.P.A., no momento em que Lacan e seu ensino estavam
excluídos da instituição internacional.
Se Freud foi mais estudado em francês do que em alemão, Lacan
foi sem dúvida mais estudado em espanhol e em português do que
em francês.
Entretanto, a notícia da dissolução da EFP semeou menor
desnorteamento na América do Sul do que entre os franceses.
A dissolução
da EFP
Este desnorteamento,
causado pela dissolução da EFP foi atenuado,
na América do Sul, como que por antecipação,
graças aos efeitos do discurso de Caracas, lido
por Lacan diante de um auditório que, enfim,
descobria o mestre - sem se dar conta de que o mestre
não lia sua própria partitura, mas a
de um outro.4
Neste discurso, que cria o significante "lacano-americano", é dito
que os latino-americanos “se beneficiaram do seu ensino sem terem sofrido
os inconvenientes de sua pessoa", e muitos sul-americanos se reconheceram
então como "leitores" de Lacan, em uma relação
com a transmissão diferente daquela em que se encontravam os "auditores".
Junto aos estudantes que se interessavam pela psicanálise, tanto na
América do Sul como na França, uma conseqüência da
dissolução foi a de promover a Escola da Causa. Pelo artifício
que consiste em entreter uma confusão entre dois registros da transmissão
- o de um patrimônio e o de um discurso – a ECF pareceu, por algum
tempo, a "herdeira legitíma", até o momento em que
ela sofreu, por sua vez, as divisões implicadas pelo seu modo de direção.
Na América do Sul, numerosos grupos cindiram-se e outros foram criados.
Alguns grupos viram-se isolados, porque não tiveram outro recurso, outros
se isolaram por aspiração a uma pureza de doutrina, esquecendo-se
de que pureza e abjeção andam de mãos dadas. Outros ainda
preservaram laços de troca e de trabalho, entre seus membros e com "convidados" externos
chamados a dar testemunho de sua práxis.
Neste leque, alguns analistas consideraram necessário constituir laços
entre diferentes grupos, que tinham textos comuns como referência.
Nesta ótica, foi criado um "dispositivo" de congregação
que assumiu o nome de Lacano-americano.
O Lacano-americano
O Lacano-americano — cujo
nome pode ser escrito de diferentes maneiras - é,
assim, uma das primeiras tentativas de agrupamento
dos psicanalistas na América do Sul. Este agrupamento
visava estabelecer laços de trabalho, confrontações,
debates entre psicanalistas membros de diferentes associações
e "não-associados".
Sabemos desde sempre que cada grupo humano engendra suas próprias senhas,
seus rituais.5 No seio de todo grupo que se pereniza sem trocas
com outros - semelhantes ou diferentes - a "dogmatização" e
a ortodoxia andam juntas, em um desconhecimento da dimensão do desejo,
o que para a psicanálise é, no mínimo, paradoxal. Ora,
alguns "psicanalistas" se gabam da ortodoxia como um selo de nobreza,
o que vai de encontro com aquilo mesmo que constitui a especificidade da disciplina
em nome da qual eles reivindicam falar.
O primeiro Lacano transcorreu em 1987 em Punta del Este, no Uruguai, e foi
regularmente reeditado a cada dois anos, em um outro país da América
do Sul, em uma outra cidade.
Indico aqui esquematicamente os elementos do "dispositivo", que sustentou
a missão que lhe havia sido outorgada, a saber, a de oferecer a todos
uma modalidade de funcionamento que exclui a "frérocité"6,
que se exerce sempre em nome de um mestre imaginário que se trata de
fazer gozar.
Todo dispositivo comporta um certo número de regras, que podem ser assimiladas
a rituais a partir do momento em que não têm outra função
senão a de instaurar um modo de relação que dissipa a
noção de diferença entre os membros de uma comunidade.
No caso do Lacano, o dispositivo instaura uma lei pacificadora, que modera
as compulsões à violência, ao mesmo tempo em que permite
trocas muitas vezes bastante vivazes.
Até o presente momento - ninguém pode prever o futuro - o dispositivo
sustentou uma função simbolizadora: constituiu um lugar onde
teses puderam ser formuladas e encontrar eco junto a pessoas que até então
se ignoravam.
Este dispositivo oferece a cada associação uma responsabilidade
igualitária, não-normativa, para um projeto comum:
• O Lacano é dirigido
pela "assembléia convocante", constituída
por representantes de associações que
arcam financeiramente com 3 ou 5 inscrições
em cada Lacano. No momento dos votos, cada associação
membro da assembléia convocante conta um voto.
• A assembléia convocante designa uma comissão organizadora,
que prepara e gere a infra-estrutura do Lacano, dissolvendo-se após o
evento e a apuração das contas.
• A assembléia convocante se dissolve, ela própria, após
cada Lacano. Uma outra deverá ser constituída especificamente para
o próximo Lacano.
• A assembléia convocante do Lacano coloca em votação,
no momento de sua conclusão, propostas para a escolha do local em que
ocorrerá o próximo Lacano, e do nome da associação
(ou associações) que, neste lugar, encarregar-se-á de coordenar
e de gerir o evento.
• Nenhum tema geral é proposto. O Lacano é a oportunidade
de um tempo e de um lugar onde pessoas membros ou não de associações
possam ir testemunhar, um por um, de seu trabalho sem demandar crédito,
sem seleção dos títulos, dos trabalhos e das pessoas.
• Para cada exposição, sala e horário são sorteados:
não se leva em conta, de forma alguma, o prestígio ou a reputação
do conferencista. Só influem na organização e na alocação
o número de oradores inscritos e o número de salas disponíveis.
• Não há presidente de sessão. Duas pessoas ocupam
a tribuna: o conferencista precedente, encarregado de zelar pelo cumprimento
dos horários e de introduzir seu sucessor e o título de sua exposição.
O orador que apresenta seu trabalho tem um tempo cuja duração é estritamente
limitada a 30 minutos. Insistamos: não há ultrapassagem do horário,
nem mesmo negociação para casos particulares. O conferencista decide,
pela duração de sua exposição, o tempo para debate
que deseja ter com a audiência.
Preservar a relação
de alteridade é uma função essencial
do "dispositivo" do Lacano, que impõe
limites àqueles que têm dificuldade de
conceber que a função do ao-menos-um é uma
função simbólica, que não
necessita de que alguém seja ou se sinta na
missão de encarná-lo.7 Este
dispositivo não é engessado: ele é reavaliado
a cada encerramento de um Lacano pela assembléia
convocante, que se interroga sobre o interesse de sua
manutenção ou de sua modificação.
É sempre possível que um conferencista seja interpelado e convidado
a intervir em outro lugar, onde será escutado e suas proposições
poderão ser debatidas por um tempo mais longo. Trata-se, neste caso, de
atividades paralelas.
O PROJETO DE “CONVERGENCIA” EM
FACE DO LACANO E DO INTER-ASSOCIATIVO
Se o projeto de Convergencia
prolonga o Lacano, ele é também inseparável
de outros movimentos que visam os mesmos objetivos
na Europa, em particular o "Inter-associativo".
Este Inter-associativo, Inter-associativo de Psicanálise
(estatutos votados em 4 de fevereiro de 1991), depois
Inter-associativo Europeu de Psicanálise (janeiro
de 1994), agrupou associações cujos membros
fundadores, muitas vezes egressos da dissolução
da EFP, haviam desejado restabelecer laços de
trabalho entre si, entre os membros de suas associações,
independentemente das clivagens institucionais.
O "primeiro Colóquio do Inter-associativo de Psicanálise",
em janeiro de 1991, foi um sucesso que antecipou a votação dos
estatutos. O segundo colóquio acolheu, em janeiro de 1993, as contribuições
e a participação de numerosos sul-americanos. Novos laços
(de trabalho, de estima recíproca, de amizade) criaram-se na surpresa
de constatar que, apesar da barreira das línguas, certas referências
comuns permitiam "falar-se" e sustentar apaixonantes debates.
Sul-americanos estavam presentes no ano seguinte à fundação
do Inter-associativo de Psicanálise, em Bruxelas.
Uma das diferenças entre o Lacano e o Inter-associativo Europeu de Psicanálise
se deve ao fato de que os laços institucionais do primeiro são
incessantemente instaurados e dissolvidos, enquanto que para o segundo esses
laços foram formalizados para durar, ainda que sejam frágeis.
Nem o Lacano nem o IAEP têm secretariado permanente: os membros dos secretariados
mudam periodicamente, e aqueles que são encarregados de organizar os
colóquios ou jornadas de estudo vêem suas missões terminarem
após cada evento realizado.
Convergencia, que retoma, por sua conta, algumas opções fundamentais
do IAEP, por um lado, e do Lacano, por outro, amplia no mundo inteiro opções
até então limitadas, seja à Europa, seja à América
do Sul, e dispõe, assim, de uma dinâmica original.
O movimento de Convergencia concerne a todos aqueles que - psicanalistas ou
não - estão em dívida com os ensinos de Freud e de Lacan.
Entre Freud e Lacan, é hoje possível estabelecer algumas pontes:
em quê determinadas concepções lacanianas prolongam, precisam
ou contradizem certos enunciados freudianos. Tais referências são
fecundas para tentar pensar, ainda que este exercício seja desconfortável,
porque exige que cada um questione determinados enunciados, tentando situar
diferenças.
Se não é forçosamente pertinente querer colocar em foco
os efeitos respectivamente específicos de um ensino para "auditores" ou
para "leitores", é contudo interessante ouvir colegas de outro
hemisfério, formados através das mesmas referências, "aplicar" estas
referências de modo diverso daquele conforme a antigos hábitos...
Seria desejável que, por ocasião do próximo congresso
de Convergencia, na UNESCO, o interesse dos sul-americanos com relação
aos franceses e aos europeus pudesse encontrar uma atenção idêntica
para enriquecer os confrontos, para apoiar novos pontos de vista, para apoiar,
deslocar certas convicções, ou reavivar questões deixadas
em suspenso...
O projeto de Convergencia não nasceu de forma inteiramente constituída
pela imaginação de algumas pessoas. Ele exigiu numerosas reuniões
de trabalho dos dois lados do Atlântico e foi pontuado por duas grandes
manifestações em Barcelona.
A primeira, em fevereiro de 1997, abriu o debate sobre as condições
teóricas, a partir das quais "fundar" teria algum sentido.
Este encontro foi concluído com uma decisão das associações
convocantes: a de se dar um prazo de um ano para fundar. Isto oferecia aos
delegados das associações o tempo para consultar seus colegas,
trabalhar o texto de fundação e propagar as informações
em torno de si.
Em outubro de 1998, graças à retomada do fôlego por parte
de associações catalãs (Apertura e Invenció Psicoanalitica),
na presença de centenas de psicanalistas, os representantes das associações
convocantes decidiram votar o texto dos estatutos que oficialmente fundavam8 Convergencia.
Uma reunião da assembléia geral dos representantes de Convergencia
(Comissão de Enlace Geral) aconteceu em Buenos Aires, no mês de
agosto de 1999, logo após o Lacano, que obteve, em fins de julho, em
Rosario, um sucesso considerável: trabalhos, festas e encontros.
Esta assembléia geral devia tomar decisões que dizem respeito
particularmente ao primeiro congresso de Convergencia, para cuja realização
os membros da Comissão de Enlace Francesa esperavam contar com os auspícios
da UNESCO.
O PRIMEIRO CONGRESSO DE CONVERGENCIA — MOVIMENTO LACANIANO PARA A PSICANÁLISE
FREUDIANA
Este congresso se realizará nos
dias 2, 3 e 4 de fevereiro de 2001, em Paris, nas dependências
da UNESCO, que respondeu favoravelmente a nossa demanda,
assegurando-nos o seu apoio.
Titulo do congresso:
O inconsciente.
Sub-título: Avanços lacanianos do inconsciente freudiano.
Este congresso deveria
implicar o maior número possível de pessoas
interessadas pela psicanálise, dando-lhes a
possibilidade de propor um trabalho. Em outras palavras,
trata-se de suscitar a vontade de participar de vivos
debates, sem limitar o número de intervenções,
sem criar uma tribuna composta de vedetes convidadas
a falar "para" um auditório.
A partir disso duas questões se colocam:
• quais serão os temas sobre os quais incidirão os debates?
• como serão organizadas as sessões de trabalho?
Temas considerados
Seis temas foram considerados
para dar um sentido, uma lógica, uma pertinência
e um interesse aos debates. A formulação
de cada um desses temas deve ser ouvida como uma questão
e não como uma asserção dogmática.
A sustentação dos argumentos e das formulações
constituiu o objeto de um importante trabalho preliminar
de alguns membros de diferentes associações,
que se devotaram aos "prazeres" de uma redação
coletiva... Esses membros terão, pois - ainda
por cima - o prazer de serem criticados.
Esses temas foram votados por todas as associações francesas
convocantes, que têm por encargo, para além da preparação
e da organização material deste congresso, o de formalizar seu
conteúdo.
A problemática própria a cada tema foi endereçada ao secretariado
de cada associação e se encontra também disponível
junto à AOCC.
Eis o título
os temas propostos:
1 - o inconsciente enquanto sexual
2 - o inconsciente é estruturado como uma linguagem
3 - o inconsciente como ético
4 - o inconsciente como laço social
5 - a transferência como mise en acte do inconsciente
6 - o inconsciente como excesso entre mito e lógica
Foi proposto um tema
complementar concernindo a RSI.
Organização das sessões de trabalho
O conjunto do colóquio
se dará em sessões plenárias.
Exposições - todas de mesma duração - serão
propostas ao debate com a audiência.
As exposições serão realizadas de duas maneiras diferentes,
segundo se trate de trabalhos de cartéis ou de textos individuais.
a) Cartéis:
Psicanalistas de associações
diferentes, dos dois continentes, constituíram
ou terão constituído diferentes cartéis.
Seis dentre esses cartéis poderão aproveitar
o evento do colóquio de Convergencia para dar
o testemunho de suas questões, de suas reflexões,
e submetê-las ao debate.
Os cartéis devem devem ser declarados antes de 25 de abril de 2000 junto
ao secretariado técnico do Congresso (AOCC).
b) Os textos individuais:
Cada um, psicanalista
ou não, que deseje colocar em pauta reflexões
ou críticas, concernindo aos argumentos relativos
aos temas acima mencionados, pode propor uma contribuição.
Levando-se em conta o número de textos esperados
e para que cada texto encontre seu lugar e seus destinatários,
elaborou-se um procedimento que permitirá dar
conta do enunciado de cada tese e de sua enunciação.
Sejam quais forem o número, a riqueza, a profusão, todos os textos
endereçados serão lidos, comentados e submetidos aos debates.
Este dispositivo pode se constituir como uma ocasião original de encontrar
um auditório: por um lado, todos os textos endereçados estarão à disposição
de todos os participantes nas três línguas do congresso; por outro
lado, cada texto terá sido objeto de um trabalho de leitura comentada,
antes mesmo da abertura dos debates do congresso.
Os textos deverão comportar, no máximo, 6000 caracteres, e devem
chegar, impressos e em disquete, nas três línguas do congresso
(espanhol, francês e português), à AOCC antes de 15 de setembro
de 2000.
Todos os textos endereçados serão publicados nas três línguas
nas Atas do congresso.
Os leitores, designados por cada associação, receberão
os textos.
Dois leitores, um europeu e um sul-americano, terão que depreender a
problemática de cada texto, a fim de transmiti-la aos relatores.
Estes relatores, europeus e sul-americanos, disporão ao mesmo tempo
dos textos originais e das súmulas de leitura. Após citar o nome
dos autores, eles terão por tarefa colocar suas teses em perspectiva,
iniciando assim os debates, dos quais os auditores e os autores presentes à audiência
poderão participar ativamente.
Este dispositivo original9 implica tanto os membros dos cartéis,
os autores, os membros das associações designados como leitores
e relatores, quanto todas as pessoas interessadas pela psicanálise na
cidade, que queiram inscrever-se para escutar os debates e/ou deles participar.
Efeitos esperados
O evento constituído
pelo congresso de Convergencia na UNESCO permitirá à psicanálise
reavivar sua presença na cidade, no momento
em que os poderes públicos tencionam legislar
sem levar em conta sua especificidade, fazendo-se instruir
exclusivamente pelos agentes de outras disciplinas:
médicos, psicoterapeutas de todo tipo, sociólogos...,
para os quais, repitamo-lo, o modo de relação
com o saber específico à psicanálise é inconcebível.
(cf. supra).
Este evento oferecerá igualmente uma oportunidade para a psicanálise
sustentar suas questões em face das extravagantes roupagens, que revestem
certas práticas que reivindicam seu nome, tanto em seitas como em unidades
de saúde.
Que destino será dado ao movimento de Convergencia após este
congresso? Ninguém pode saber, de antemão, os efeitos de après-coup
de um evento.
O modo de intervenção dos participantes e a qualidade das trocas
permitirão sem dúvida - no momento de concluir - visualizar algumas
perspectivas, que deverão, elas próprias, ser debatidas.
1° de abril de 2000
Notas:
1 Este texto
- publicado no boletim de la SPF de maio-junho de 2000
- formaliza as informações transmitidas
por Maryse Martin, Nora Markmann e Jean Szpirko, e
debatidas por ocasião da reunião dos
Psicanalistas Praticantes da Sociedade de Psicanálise
Freudiana, em 29 de fevereiro de 2000.
2 Kirk, Stuart e Kutchins, Herb, Aimez-vous
le DSM?, Coll. “Les empêcheurs de penser en
rond”, 1998. Título da edição original: The
selling of DSM. The rhetoric of science in psychiatry,
New York, Walter de Gruyter,1992.
3 Este histórico mereceria ser mais longamente
desenvolvido.
4 Cumpre assinalar que Lacan, que até então
havia sustentado seu seminário inspirando-se apenas
em algumas notas, cansado pela doença, foi levado diante
da assembléia reunida em Caracas a, desta vez, ler um
texto previamente redigido – por quem?
5 Ver, a esse respeito, a função que
Freud dá ao Schibboleth, termo que ele toma
da Bíblia.
6 “frérocité”,
palavra-valise, de tradução impossível
para o português, que o autor emprega para condensar
os sentidos de férocité, ferocidade
e frère, irmão, indicando assim a ferocidade
própria às rivalidades fraternas.
7 Encarnar a exceção resulta em nomear
alguém neste lugar, o que, no mesmo ato, o situa como
para-além da lei. Para Aristóteles, essa posição
só pode resultar em “um bruto ou um deus”.
8 Esse texto está disponível junto à Associação
para a Organização do primeiro Congresso de Convergencia
(AOCC), secretariado técnico constituído para
administrar os problemas práticos ligados à próxima
manifestação de Convergencia na UNESCO. Este
secretariado, constituído por Chantal Brigaudiot, Carole
Dubus, Maryse Martin, Jacques Nassif e Jean Szpirko, presta
contas de suas atividades à Comissão de Enlace
Francês, constituída por representantes de cada
associação que se reúnem a cada primeira
terça-feira do mês no FIAP (Paris, 14o.). As correspondências
devem ser enviadas para Convergência-AOCC, 99, Avenue
Raspail, 94250, Gentilly, fax: 01 45 47 05 58, e-mail: <convergencia.aocc@voila.fr>
9 O detalhamento do dispositivo figura no texto
adotado por todas as associações e divulgado
para todos os membros.
Jean Szpirko
Psicanalista, membro da Sociedade de Psicanálise Freudiana, Paris, autor
de La Clinique Psychanalytique - au fil rouge de la science. Dirigiu
por vários anos a revista Les Carnets de Psychanalyse.
Tradutor: Luciano
Elia