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O homem sonha sem parar.
E não apenas quando dorme e seus sonhos abolem o tempo e realizam seus desejos, mas igualmente quando, acordado, preserva em sua fantasia uma relação constante, inabalável, com seu desejo.
Porém, a relação do homem com seu desejo não é nada tranqüila, o que faz com que seja acometido facilmente por um sono embriagante, no qual cede a um automatismo de repetições que o arrastam em alienações imobibilizantes, que o impedem de se surpreender, de se confrontar com o novo, de se aproximar tanto da realidade de seu desejo – desiderio -, quanto do real, premido por fixações siderantes.
Donde a necessidade do despertar, uma noção psicanalítica pouco explorada, embora crucial e relativa ao fim da análise. Se Freud falou da necessidade de despertar da ilusão inerente à religião e produziu uma obra que representa um renovado despertar sobre o desejo e a sexualidade, Lacan considerou o despertar do sono do sentido como o cerne da experiência psicanalítica. E se o despertar absoluto é impossível, a psicanálise possibilita o advento de momentos de despertar. O despertar é o desejo que se expressa no desejo do analista.
Necessário, o desejo de despertar insiste, às vezes efêmero embora féerico, como na festa do réveillon, em que a vida é comemorada no limiar da morte: o sujeito Janus, debruçado sobre Janeiro, aí comemora duplamente o Ano Novo que se anuncia e aquele que se encerra.
O despertar aproxima a psicanálise da interrogação do budismo – o nome Buda designa o Desperto. Mas resta a questão: como permanecer acordado uma vez que se despertou? Ou, pelo menos, como propiciar que a instantaneidade do clarão possa reincidir mais frequentemente?
Esse colóquio visa repertoriar, pela psicanálise, as diferentes dimensões do despertar que, infiltradas em várias regiões da cultura, encontram lugares que possibilitam sua emergência renovada. Para a psicanálise, esta é a tarefa primordial da arte, da literatura e de tantas manifestações da criação humana.
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